O que se esboçava há três anos, virou dendê em ''Paradeiro'' (BMG), o quinto álbum de Arnaldo Antunes. Se canções com arranjos delicados inspiravam o repertório anterior apontando uma linha para futuras composições, o novo CD soa até tonitruante com sua carga percussiva, recrutada pelo baiano Carlinhos Brown.
Brown é co-produtor do disco (com Alê Siqueira), parceiro em duas músicas, instrumentista em várias faixas e responsável pela orientação estética do trabalho. Arnaldo deveria creditá-lo na capa apresentando o disco como uma criação de dupla. As gravações foram realizadas no Candeal, em Salvador, com participação dos grupos locais Lactomia e Hip Hop Roots.
As batucadas dominam de ponta a ponta as bases incorporando o samba-reggae num caldo indigesto, cujo desastre se revela numa versão bossa-nova de ''Exagerado'', de Cazuza, a única faixa sem apelo aos tambores. Arnaldo canta também ''Luzes'', garimpada no baú do poeta Paulo Leminski. As demais faixas são inéditas, nas quais o anfitrião reveza assinaturas com Alice Ruiz, João Bandeira, Paulo Tatit, Edgard Scandurra, Davi Moraes e Marisa Monte.
Marisa ainda divide os vocais na faixa-título, o que só acentua a fragilidade do colega como intérprete, que constrange o ouvinte em várias passagens com sua voz grave e monocórdica. Seria leviano, porém, não ressalvar as qualidades de Arnaldo como letrista. Desta vez, ele assina sozinho apenas três faixas uma delas de pendor concretista, influência forte em sua obra, tanto musical quanto poética.
Em ''Essa Mulher'', ele aborda a conflituosa relação homem-mulher descrevendo de forma provocativa uma personagem feminina desprendida e desinibida. É a primeira música-de-trabalho do álbum, cujo clipe foi dirigido por Laís Bodansky, do filme ''Bicho de Sete Cabeças''. Como as demais faixas, também derrapa em levadas percussivas em contraste com o perfil musical do ex-Titãs.
Rendido a Brown, Arnaldo quebrou expectativas, e a cara.

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