O ator Perry Salles não é mais o homem de longos e rebeldes cabelos grisalhos, que há quatro anos não viam a lâmina da tesoura. Na quarta-feira desta semana entrou num salão de Curitiba (onde está há cerca de dez dias) e saiu com novo visual: mais jovem e de fisionomia menos carregada. Pelo jeito, até o astral ganhou novo brilho. A mudança exterior é reflexo do que está ocorrendo interiormente. ‘‘Tem coisas tão bonitas que estão me tocando muito nesta cidade’’, diz enternecido.
As descobertas estão por toda parte, desde o cabeleireiro que o atendeu (e foi ao camarim penteá-lo na estréia da peça ‘‘Com Amor, Oscar Wilde’’, em cartaz no Guairinha) até os funcionários do Teatro Guaíra, que o tratam realmente como homem de teatro. Aos 42 anos de profissão, o artista acredita estar vivendo um ‘‘fenômeno alucinante’’.
Sua vida enveredou por trancos e barrancos, perdas e conquistas, sonhos ambiciosos e monumentais decepções nos últimos tempos, especialmente depois que se separou de Vera Fischer, rompendo um casamento que durou 16 anos. Com ela contracenou em ‘‘Uma Mulher de Negócios’’, de 1986 – espetáculo levado no Guairão, em Curitiba.
Perry não apenas deixou crescer os cabelos: recentemente, noutro ato de rebeldia, chegou a ficar 40 dias sem tomar banho. Permaneceu nesse abandono até receber o convite de Maurício Souza Lima para o papel do nobre inglês às voltas com o fantasma da homossexualidade que atinge seus filhos.
Deu-se uma espécie de redenção. Foi para debaixo do chuveiro, cortou as unhas e, de algum modo, retornou à vida. ‘‘Eu vim – não gosto da palavra resgatar – tomar posse em Curitiba’’, disse o ator à Folha 2. ‘‘Aqui eu cortei o cabelo. Aqui estou me sentindo muito bem, estou amando a companhia. Tenho uma admiração bem lisonjeira por esse jovem autor, que é também ator e produtor’’, comentou referindo-se a Lima.
Perry é o veterano de um elenco formado por jovens artistas. Naturalmente há choques de opiniões, visões discordantes normais na ebulição de um processo criativo, mas que também podem ter raízes assentadas na diferença de gerações. ‘‘De vez em quando ele não ouve muito o que falamos’’, observa Perry sobre o autor do espetáculo. Não chega a ser uma queixa, mas uma constatação:
– É terrível a juventude. Os jovens não ouvem e a gente tem que se contentar e dizer: ‘‘Vai, meu filho, vai. Anda, tropeça, levanta, vai’’. Não podemos interferir, tem que ser como um filho...
O cuidado amoroso e paternal se estende por toda a experiência. ‘‘Pela primeira vez na vida estou curtindo esta de ator. É o grande barato, porque sempre me meti a ser produtor, a fazer tudo. Há 13 anos eu não me entregava a uma coisa destas’’, afirma. Baixando a voz, confidencia exultante: ‘‘Me disseram que estou fazendo bem o papel, e estou gostando... Agora entendo Vitório Gassmann quando ele dizia, antigamente: ‘E ainda pagam!’’
Essa fase de luz é o oposto da vez em que deixou São Paulo e foi à Bahia numa Parati adaptada em ‘‘carro-casa’’, com provisão de enlatados para os seis meses seguintes. Foi no final de 88, no caos emocional com o fim do casamento com Vera. ‘‘Estava vivendo uma crise dilacerante’’, lembra. Demorou para que o peito tornasse planas as saliências dos cacos, mas depois de tudo refeito vieram outro casamento, novos filhos e planos.
Perry Salles tomou para si a palavra ‘‘reciprocidade’’ como a mais importante de todas. Ela representa, para ele, o sentimento do qual se sente impregnado. Estando com a alma aberta, a vida flui com simplicidade. ‘‘Aí vem a solidariedade, amor, amizade. É como no teatro: o ator dá e a platéia manda de volta a ele. É esta coisa, este ciclo do dar e receber, o lapidar, que desenha a grandeza da vida’’.

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