A dupla Pena Branca e Xavantinho veio semana passada a Curitiba lançar seu mais novo CD, ‘‘Pingo D’Água’’, com um show no Teatro do Bamerindus. O disco é um passeio pelos clássicos da música sertaneja, ‘‘Flor do Cafezal’’, ‘‘Tristeza do Jeca’’, ‘‘Chalana’’, com algumas pitadas mais recentes, como é ‘‘O Trem Tá Feio’’.
Os dois irmãos querem ampliar o eclético repertório que vai de João Pacífico a Milton Nascimento. Eles chegaram à cidade com dupla finalidade - além do espetáculo no teatro, esperavam manter um encontro com o filho da dupla Nhô Belarmino e Nhá Gabriela, o sanfoneiro Ivan Graziano.
Sobre a dupla dos paranaenses afirmaram conhecer apenas ‘‘As Mocinhas da Cidade’’, que seria como um ‘‘cartão de visitas’’, segundo Pena Branca. ‘‘Inclusive me falaram de uma música deles, ‘Passarim’. O filho de Belarmino e Gabriela deve aparecer aqui (no hotel Tourist Universo, onde se hospedaram). É muito importante para nós’’, completou.
Sem poesia O mais novo disco de Pena Branca e Xavantinho reflete uma tendência cada vez maior da busca dos artistas pelas músicas do passado. Chitãozinho e Xororó também fizeram um trabalho idêntico, mas optaram em dividir as canções com convidados. ‘‘Nós preferimos só nós mesmos’’, disse Pena Branca. Essa repescagem na fonte da música brasileira de outras eras é uma prova inequívoca de que não se fazem mais músicas como antigamente. Criou-se um oco, um vazio no setor. ‘‘Existe uma carência’’, afirmou Xavantinho. ‘‘Você procura coisa boa e acha letras sem consistência, sem poesia’’.
Pena Branca lembrou que esse trabalho de resgate visa também mostrar para as novas gerações as jóias do passado. ‘‘Eles estão em busca dessas coisas. Fizemos este disco para mostrar a eles que coisas bonitas nós temos’’.
Mensagem A dupla Pena Branca e Xavantinho, porém, não fica somente nas plácidas águas da beleza. Há também uma preocupação embutida de levar na sua arte o discurso de vozes que não conseguem se fazer ouvir. Pena Branca afirmou que ‘‘essa coisa da mensagem começa na música’’.
Há uma postura de se ir além dos acordes. Ele dá como exemplo ‘‘Pingo D’Água’’, que fala da seca no sertão, do desespero do homem do campo. ‘‘Esse assunto existe no Brasil, a gente está ai para conversar’’.
Cantá-la pode ser, à sua maneira, ‘‘uma cobrança aos governantes’’. Afinal, mesmo no Nordeste a terra é fértil, a água existe no subsolo. Para se ter a solução ‘‘basta querer e acontecer’’. ‘‘Através da música damos o recado. A moçada da enxada não tem como falar, a gente tem microfone’’, argumentou o músico.
Alma brasileira Voltando ao disco, uma questão: o fato de o brasileiro ter alma saudosista influenciaria, mesmo de forma inconsciente, para sua identificação com as canções mais antigas? Xavantinho disse que não, em se tratando da juventude. Para a moçada pérolas como ‘‘Pingo D’Água’’ e ‘‘Tristeza do Jeca’’ são verdadeiras descobertas, pelo desconhecimento que eles tinham das obras. ‘‘Um acontecimento’’, frisou.
Acrescentou ainda que retirar as músicas do esquecimento e trazê-las para nossos dias só é possível quando se cria um entrosamento perfeito delas com os intérpretes:
- Todas as músicas precisam ser adaptadas, adequadas ao nosso estilo. É assim como animalzinho meio brabo. Enquanto a gente não pega nela e ela se dá por aceita, não fica boa. A hora que a gente brinca com ela e sente ela na alma, aí sim, é quando vamos colocar no disco, e ela começa a crescer, mesmo gravada, regrada. Quanto mais a gente canta, mais suave ela fica. Então se a música não estiver realmente de acordo com a nossa voz e nós dentro dela, não fazemos nunca.

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