Nelson Sato
Londrina

ReproduçãoO ‘‘Manual do Solteiro’’ ensina que o garanhão é um adepto da felicidade para quem todos os esforços devem ser canalizados para a organização de um elenco de admiradoras que atendam ao simples estalar de dedosOs casados que desculpem, mas a poligamia é fundamental. A opinião é de Ricardo Solto, ‘‘autor’’ fictício do volume Manual do Solteiro, que a editora Rocco está publicando simultaneamente ao lançamento em circuito comercial do filme Como Ser Solteiro no Rio de Janeiro dirigido pela cineasta Rosane Svartman.
Com a palavra, o ‘‘autor’’:
Quem se deixa amarrar por esposa acaba ganhando pança, pois diminui o ritmo de vida, passa a fazer todas as refeições e, o que é pior, reduz a atividade sexual - excelente queimadora de calorias. Para constatar o fenômeno, basta você comparar o corpo de conhecidos antes e depois do matrimônio.
Livro e filme se misturam na figura de Ricardo Solto, pseudônimo do escritor Dau Bastos, que inventou o personagem a partir de textos criados por Ricardo Perroni (comerciante) e Gustavo Cascon (produtor e editor de imagens) - todos cariocas. Se nas livrarias ‘‘Ricardão’’ aparece com seu nome inscrito na capa da obra, nas telas de cinema ele dá vida a um dos protagonistas centrais da comédia que está estreando hoje em várias capitais do País.
Nos dois casos, Ricardo encarna o garanhão adepto da felicidade sem amarras e para o qual todos os esforços devem ser canalizados em prol da organização de um elenco de admiradoras que atendam aos simples estalos dos dedos. Mas se no filme há uma história sendo contada, incluindo inclusive a noite de autógrafos de lançamento do Manual do Solteiro, o livro em questão é uma reunião de frases feitas encharcadas de humor e canalhice.
Uma das grandes vantagens de ser solteiro - afirma ele - é dispor de um campo infinito de caça. Somente em nosso país, há mais de oitenta milhões de presas em potencial. Um contingente bem maior do que o de homens, segundo o último Censo. Mesmo as namoradas, noivas e casadas se incluem em nossa população-alvo, pois nenhuma resiste a uma boa cantada.
Já no texto de apresentação, o Manual é anunciado como leitura obrigatória ‘‘para quem gosta de mulher, mas não tolera coleira’’. Pérolas do mesmo teor se espalham da primeira à última página com o objetivo de persuadir os casados, aliciar jovens hesitantes e garantir longa vida aos solteiros.
Vejam mais esse trechinho:
Casar é dividir o próprio espaço com uma empregada cara, que não arreda nem mesmo nos finais de semana, gasta seu dinheiro, ousa reclamar da maneira como você dispõe suas coisas e insiste em fazer supermercado a dois. Sem falar que, quando despedida, corre à delegacia para acusá-lo de maus-tratos e recorre à justiça em busca de pensão.
Na linha dos grandes cafajestes nacionais do passado - tipo Jece Valadão e Carlos Imperial - Ricardo Solto atualiza a linhagem com novos parâmetros de azaração incluindo o controle rigoroso do álcool, a preocupação com o visual da alcova e a possibilidade de arrematar presas até pela Internet. Como um tratado de sabedoria prática, o livro fornece aos simpatizantes uma série de técnicas de conquista, estratégias de abordagem, dicas para lapidar a lábia e medidas preventivas contra eventuais crises de romantismo e solidão.
Sabendo da importância que o ‘‘saber astrológico’’ ocupa no imaginário feminino, o autor lhe dedica um capítulo exclusivo com direito a caracterização das mulheres de acordo com os signos correspondentes. A ariana, por exemplo, é descrita como sincera e espontânea.
Confessará uma traição cometida contra você, da mesma forma que, se for casada, dirá ao marido que esteve em sua companhia. Em nome de sua sobrevivência, limite-se às descompromissadas - orienta ele.
Como se vê, nosso Don Juan tropical é avesso a tretas e barracos. Para evitar conflitos, defende regras básicas de convivência com os pares e com as potenciais parceiras de alcova, em cujo esteio inclui também os sapatões, pois, segundo ele, ‘‘podem sempre ter recaídas por desencanto com a semelhança ou saudade da diferença’’.
Exaltando atributos como a cordialidade e a gentileza como formas de equilibrar a calhordice inerente, diz ele a uma certa altura de sua pregações:
O cavalheirismo é uma fagulha de dignidade que enriquece a imagem do solteiro, naturalmente acesa. O mesmo elemento que sopra baixo calão ao ouvido da provável precisa ter a hombridade de zelar pela presa. Isso aumenta a taxa de retenção das integrantes do plantel e tem efeito multiplicador, pois as bem tratadas dão sempre com a língua nos dentes.
Manual do Solteiro é de rolar de rir. Tão politicamente incorreto quanto galhofeiro, é capaz de abrandar até o cenho franzido de feministas mal-amadas.

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