Pérola do Maranhão
Antônio Mariano Júnior
De Londrina
Em seu segundo disco, Pérolas aos Povos, a cantora maranhense Rita Ribeiro firma-se como a mais grata revelação feminina da MPB dos últimos tempos
A moça é poderosa, viu?! Tão poderosa que - já? - em seu segundo - e fantástico - disco diz - em alto e bom som - a que veio. E veio ela - assim se deduz após ouvir quase 50 minutos de sua proposta musical - disposta a escrever com caligrafia firme um capítulo à parte na história da MPB. E veio tão cheia de estilo e autoridade e expressividade que deverá pôr terra abaixo a teoria de que depois de Marisa Monte dificilmente outra personalidade feminina causaria tanto impacto.
E ela, maranhense de canto bonito e emotivo (ao contrário do monte de cantoras sem coração), está chegando de mansinho e deixando pegadas firmes. Guardem bem esse nome: Rita Ribeiro. Anotem, se for o caso. Melhor: ouçam Pérolas aos Povos, gravado pela selo MZA Music e distribuído nacionalmente pela gravadora Universal.
Rita vibra em terreiro pop. Seu disco, pois, é pop - há funk, reggae, baladas, coco, batuque e puxadas sonoras de umbanda. Descrito assim pode dar a impressão que Pérolas aos Povos é uma mistureba ininteligível de ritmos e timbre e tins e bens e tais.
Nada disso. O pop a que Rita e cia. (pelo cia. entenda-se sua banda, Mário Manga e Mazzola, os arranjadores) se propõem é do bem. E dos bons. Está infinitamente mais bem resolvido que no primeiro disco, lançado em 97. Tem lá e acolá programação eletrônica. Que em momento nenhum rouba os ouvidos. Mesmo até no resgate de Vendedor de Bananas (que Rita fez questão de manter, no crédito, o nome artístico original do criador - Jorge Ben), uma inócua e manjada versão clubber (com direito a DJ e seus inseparáveis scratchs).
Mas no todo,Pérolas aos Povos é um tributo ao bom gosto. Obra fechada, depois de bem assimilada nota-se que houve inclusive a delicadeza de escolher bem as palavras que forram melodias. As letras! As letras, a maioria, insinuam poesias. Mambo da Dor é mais uma preciosidade que Zeca Baleiro torna pública.
Uma singela melodia só poderia receber uma singela letra que até parece ter saído de um singelo Caymmi: ...O mal que magoa/ o fel que amarga/ Ai, dor não me doa/ vê se me larga. Tudo, letra e melodia, é dimensionado pela interpretação de Rita Ribeiro. É uma das coisas mais bonitas no CD.
De um desconhecido Erasmo Dibel (aliás, mais uma vez a cantora faz emergir anônimos, com aspas ou sem aspas), Rita foi buscar o que de melhor há em Pérolas aos Povos - a comovente Filhos da Precisão, um reggae light que recebeu palavras incisivas e doloridas que expressam uma das chagas sociais do Brasil. Pelas marginais/Passarão meninos meninos/ Guardado o País/por quem batem os sinos/ Se pelas catedrais/ Os filhos da precisão/ pedirão mais por outro destino/ do que por sair da lama/ com pose de dama e carnavais/ esquecerão as dores/ lembrarão de Deus/Num porvir que aflore dor.
São apenas dois dos deleites do disco. São duas das pérolas pinçadas no fundo do mar de diversidades rítmicas que é Pérolas aos Povos. E o canto da sereia? O cantor de Rita é sedutor. Arrebatador. Seja cantando um coco como Tô (dela com Zeca Baleiro), uma tocante canção de amor como Déjá Vu (Natália Mallo) ou um barato macumbístico como Na Gira (feita por Rita e dedicada a Clara Nunes e Clementina de Jesus).
Há algo de suburbano, de periférico, de cafonália mesmo. Só que vem sinuosamente muderno. Se disco de estréia, Rita Ribeiro foi buscar Márcio Greyck (Impossível Acreditar que Perdi Você), desta vez ela resolveu repaginar Raulzito (ou melhor, Raul Seixas) em Jamais Estive Tão Segura de Mim Mesma, gravada anteriormente por Núbia Lafayette. Pelo título dá para sentir o que vem em termos de letra e melodia. Vale a pena dar uma passada de ouvido. Ou duas, três, quatro, cinco...
Paremos por aqui. Não que Pérolas aos Povos não mereça frases e mais frase pesadas e com bons adjetivos. É que quando se ouve um trabalho tão bonito quanto esse fica difícil juntar palavras. É que o disco de Rita Ribeiro é tão bacana que...sei lá é bonito e ponto final.





