PERFIL/ENTREVISTA - Eternas canções de BELCHIOR
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de junho de 2007
Guilherme Borges<br> Reportagem Local 
Ele parece gostar de Londrina. Classificou a cidade como ''musical'' e afirmou que aqui tem gente interessada em Música Popular Brasileira, em especial nas canções dele. Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, ou simplesmente Belchior, se apresenta hoje, às 21 horas, no Teatro Marista, com apoio cultural da FOLHA. O cantor e compositor cerarense fará um auto-retrato da carreira onde não poderão faltar importantes canções - ''Como Nossos Pais'', certamente será uma delas.
Dono de uma discografia vasta - são mais de 20 títulos entre LPs, CDs, e especiais -, Belchior era ''presença'' constante nas repúblicas estudantis, nas décadas de 70 e 80. Letras de protesto e palavras calculadas em tom poético são marcas registradas do artista, que veio lá de cima do País para a capital carioca, pelos idos de 1970. Junto de Fagner e Ednardo, desbravou a estrada por onde mais tarde passariam outros artistas nordestinos como Zé Ramalho e Amelinha. Despontou no Brasil na voz de Elis Regina, pessoa que ele diz ter orgulho e gratidão.
Por telefone, ele falou concedeu entrevista exclusiva à FOLHA2 onde falou sobre sua trajetória, relação com Elis, o trabalho do ministro - e colega, como fez questão de destacar - Gilberto Gil e planos profissionais.
Quais suas referências sobre Londrina?
Sei que a cidade continua especial do ponto de vista musical. Já participei de shows de grandes compositores daí do Paraná, como o Itamar Assumpção. Ele continua sendo uma estrela da música popular brasileira contemporânea. Também já participei de shows aí em Londrina e regressar novamente é lembrar disso, que a cidade e o Estado já ofereceram ao cenário musical uma pessoa desse porte, como é o Itamar.
Suas músicas tiveram grande repercussão na década de 70, com letras de protesto. Dado o delicado momento político atual, como avalia o cenário musical, no que se refere às canções políticas?
Eu faço música dentro do espírito da minha geração. Música que trata a palavra de forma profunda, que é permanente, sem vinculação com a música de consumo. Eu tenho orgulho muito grande disto, até porque muitas das minhas músicas são referências essenciais para história recente do Brasil. O que observo na cena de hoje é que a própria MPB se tornou mais um objeto de consumo do que uma forma de poesia brasileira. Bem diferente do que sempre foi pensada por autores como eu. Mas temos intérpretes do porte da Marisa Monte e Maria Rita e percebo que há uma continuidade de grandes compositores.
Onde estão ou quem são esses compositores?
Esses compositores estão em plena vigência de seu trabalho, dando continuidade ao que fazem e ganhando cada vez mais público. Está aí o Chico (Buarque), por exemplo. Permanece com seu público, mas desperta interesse nos jovens, com suas novas produções e DVDs. Isso é uma coisa que vem me interessando. Nos próprios shows, há um público jovem, ligado à profundidade da música brasileira. Então esses compositores continuam representando o que de melhor se fez e vem se fazendo no Brasil.
Você é contemporâneo de figuras que permanecem importantes para a música brasileira, como o próprio ministro da Cultura, Gilberto Gil. Como avalia a atuação dele?
Sou fã do trabalho de Gil no Ministério. Ele tem realizado um trabalho ligado à renovação, tratando a cultura como coisa estratégica. Muito especial o empenho dele em fazer o Brasil, como signatário da carta da Unesco, investir de fato 1% do PIB (Produto Interno Bruto) em cultura. Sou fã do trabalho dele, magnífico.
Mudando de assunto, que avaliação faz da própria trajetórial?
Eu continuo na estrada, sou sempre um iniciante, portanto no meu trabalho a maturidade vem com o dia-a-dia. Tenho uma superatividade na produção e apresentação dos meus shows e da descoberta deste novo público, tudo com continuidade. Essa relação com o público, para mim, é mais que satisfação, é estímulo para continuar fazendo esse tipo de música, que vai além da música de consumo e que não atende a profundidade de interesse cultural que o meu público busca.
Como você observa a relação da mídia com a sua produção musical? Os veículos de comunicação dão o valor exato do seu trabalho?
O interesse da mídia em relação ao meu trabalho sempre se manteve. Tenho contato contínuo com rádios, jornais e televisão. Não tenho qualquer reclamação.
Como foi sua relação com a Elis Regina? Qual a importância dela na sua vida profissional?
Eu continuo a sentir o mesmo orgulho do dia em que ela escolheu minhas músicas para interpretar. Ela, para mim, é definitivamente a melhor da MPB. Soube inovar e renovar o que havia de melhor no passado musical do Brasil. Ela é mais que uma cantora, é uma escola. Sempre teve um altíssimo nível e uma intuição suprema para escolher autores. Tenho um orgulho muito grande.
Há gratidão também, afinal através dela importantes composições suas tiveram projeção nacional, certo?
Sim, tenho uma gratidão muito grande. Tenho orgulho de ter canções gravadas e levadas ao público pela voz de Elis. Mas o que mais me deixa grato e orgulhoso, foi ela ter dito uma vez que queria gravar aquelas músicas antes de qualquer outra pessoa. Disse que eram muito especiais.
E os próximos passos, Belchior, quais são?
Pretendo lançar um DVD, na verdade uma caixa com pelo menos três DVDs, construídos com uma linguagem diferente. Essa linguagem de DVD tem que avançar, não é só filmar o show. Terão depoimentos, fotos, um menu super rico. Terão canções importante da minha hisória, mas também coisas novas que estou produzindo. Recentemente fiz trabalho com 34 poemas do Drummond (Carlos Drummond de Andrade). Tratei os poemas como letras de música e preparei desenhos para cada um. O projeto foi lançado em uma edição especial que se esgotou, quem sabe agora possamos lançá-lo de forma mais convencional, acessível.
Serviço
- Show com Belchior
Onde: Teatro Marista de Londrina (Av. Cristiano Machado, 240)
Quando: Hoje, às 21 horas
Quanto: R$ 80,00 (com bônus, leitor da FOLHA tem desconto de R$ 30,00)
Informações: (43) 3294 8300


