PERFIL Uma vida cheia de ginga
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sábado, 24 de agosto de 2002
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
Criado sem pai nem mãe, ele foi interno do extinto SAM (Serviço de Assistência ao Menor), apanhou da polícia, vendeu amendoim na porta do cinema e trabalhou como baleiro na Central do Brasil. Rio de Janeiro, décadas de 30 e 40. Hoje um homem de 69 anos, Demerval Lopes de Lacerda mais conhecido como Mestre Leopoldina fala de sua vida como um filme e conta histórias que marcaram uma trajetória difícil. Fala de lembranças da infância como se fosse ontem. A aparência tranquila e o jeito descontraído e alegre foram escolhidos por Mestre Leopoldina como marcas particulares.
Demerval ganhou o apelido de Leopoldina por causa dos trens da Central do Brasil. ''D. Pedro presenteou a imperatriz com a linha de trem Caxias-Barão de Mauá. E eu andava a pé até chegar em casa, imitando o apito da Leopoldina. O povo gritava na rua 'olha aí o Leopoldina' e eu xingava a mãe deles. Não gostava, mas o apelido ficou''.
O carioca nascido na Baixada Fluminense construiu uma trajetória com a capoeira e hoje viaja o mundo participando de eventos e compartilhando sua experiência de 50 anos na arte da ginga. Ele está em Londrina como convidado do evento comemorativo do primeiro ano do Projeto Berimbau da Cidadania, realizado ontem. Bom papo, minucioso ao relatar os fatos, Mestre Leopoldina tem uma história que ilustra a importância da capoeira em sua vida.
Ainda criança, Demerval morou com uma tia até os cinco anos, já que a mãe não conheceu nem pelo retrato. Encontrou o pai, por um desses acasos da vida, apenas aos 22 anos. ''Minha tia era doméstica e sempre me deixava numa casa para ir trabalhar. De tempos em tempos, me tirava de um lugar e deixava em outro'', relembra. Os maus tratos começaram a fazer parte da rotina do garoto. Apanhava da mulher que o atendia por fazer xixi na cama. ''Lembro que, muitas vezes depois de apanhar, ia lavar louça e derramava lágrimas na bacia'', conta, imitando gestos da infância.
Com a denúncia dos vizinhos, Demerval foi levado pela polícia. ''Tava lá, sentadinho na delegacia, com um policial parado na minha frente. Até que a dona veio com um prato de comida. Tinha bife, batata frita... coisa que não via nunca em casa. Comia arroz e feijão e se tentasse pegar a carne levava uma colherada na mão''.
Vieram novas casas e outras decepções. Ele até teve experiências boas, num lugar onde a mãe de oito filhos também servia para ele o mingau de fubá. Mas na última mudança, quando foi deixado ''de papel passado'', era obrigado a chamar a dona da casa de mãe e levava tamancadas se não o fizesse. ''Era difícil chamar alguém de mamãe se nem a minha eu conheci''. Apanhou muito, mas hoje, ao contar pelo que passou, acaba achando graça.
Um pouco mais crescido, passou a vender amendoim na porta do cinema. E continuava apanhando, sempre que o acerto de contas no final do dia não dava certo. ''Mas fiquei malandro. Chegava tarde, quando ela já estava dormindo, e tirava um pouco do dinheiro guardado num pote de mel para juntar ao meu''.
O menino trocou os amendoins por balas, vendidas nos trens do Rio de Janeiro. Nesse meio conheceu também uma situação que o interessava. Aos 14 anos, foi morar na rua, dormindo nos vagões. Não precisava mais voltar para a casa. O lucro obtido com as vendas era suficiente para comprar comida. ''Meu café era caldo de cana e sonho''. Bom de vendas, criava músicas e jingles sobre os doces e ganhava a freguesia na lábia. Assumiu até o posto de ''chefe'' dos baleiros, reunindo mais de 12 menores que vendiam balas para ele.
Na Central, a vida não era menos complicada. Vivia fugindo dos vigias para não apanhar, nem perder as balas. Era preciso ser esperto, também com os colegas do ramo. Aos 17 anos, depois de passar uma semana a pão seco, foi parar no extinto SAM (Serviço de Assistência ao Menor), onde passou um ano.
Leopoldina teve contato com a capoeira nos anos 50, em meio a toda a malandragem da ruas. Um dia, na Central, viu dois homens fazendo uma exibição, no meio de uma briga, que o deixou boquiaberto. ''O que é aquilo?'', perguntou. Era a tal capoeira. ''Fiquei com aquilo na cabeça. Depois encontrei um dos caras, chamado Quinzinho. Ele havia acabado de sair da Colônia Penal e, com muito custo, fiz amizade com ele para aprender capoeira''.
A alta malandragem conhecia o ''neguinho Leopoldina'' por causa da fama de valente espalhada por Quinzinho. ''Minha vocação era para ser um terror com a capoeira de rua''. Com a morte de Quinzinho, Leopoldina conheceu Arthur Emídio, seu futuro mestre de capoeira, com o qual ficou seis anos. ''Comecei a ensinar em São João do Meriti. Dei aulas e fui um dos maiores divulgadores da capoeira no Rio de Janeiro'', empolga-se.
Era o começo de uma nova fase. ''A capoeira é uma lição'', salienta. ''Hoje em dia, essa arte tira os meninos da rua. Quando conheci a capoeira de Arthur Emídio também mudei meu rumo'', frisa. Na década de 60, Leopoldina levou sua capoeira para a Mangueira. Ficou 12 anos na escola de samba como diretor de ala. ''Nessa época, eu andava de chinelo charlote, calça boca 16, tinha dente de ouro, cachecol de seda e cabelo alisado no salão Baby, na Lapa'', relembra. ''Passei a dormir em hotel, não mais nas pensões''.
O professor Leopoldina não se considera um formador de capoeiristas. ''Acho que cinco anos é o mínimo para aprender alguma coisa. Um ano não batiza ninguém na capoeira. Um amigo meu, espírita, diz que eu vou morrer com o segredo da minha capoeira''.
Atualmente, o mestre viaja o mundo. Há 20 dias estava em Recife; depois de Londrina vai para o interior paulista. Em outubro irá a Zurique, na Suíça. Nas suas andanças, conheceu toda a Europa e foi até a Austrália. ''Tenho cadeira cativa em Amsterdã (Holanda), onde acontece um encontro anual de capoeira'', conta.
Em uma das aventuras de sua vida, Leopoldina encontrou no cais do porto sua chance de ter uma família. Conheceu a mãe de seu primogênito, tirada por ele da prostituição aos 15 anos. Assim como a mulher, dois de seus três filhos morreram. ''Hoje tenho uma filha, 21 netos e 19 bisnetos. E continuo solteiro. Lavo, passo, costuro, faço tudo na casa onde moro, na Cidade de Deus, em Jacarepaguá''.


