PERFIL Um caso de amor à música
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 22 de janeiro de 2003
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Uma vida dedicada às notas orquestradas da música clássica. Uma história de alguém que nasceu com alma de música e vem conseguido vivenciá-la profundamente. Uma realidade ímpar para uma violoncelista brasileira. Um caso de amor. Todas estas frases servem ao mesmo tempo para decifrar e dissecar a vida da curitibana Adriane Savytzky.
Já se passaram 29 anos desde o dia em que Adriane conseguiu colocar a mão no seu primeiro violoncelo. Amante da música clássica desde os cinco anos, Adriane teve que esperar completar 11 para poder dedilhar um instrumento que era seu sonho de consumo. ''Não tinha instrumento para mim e nem quem me ensinasse. Quando completei 11 anos, o maestro Gedeão Martins da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Paraná começou a estudar violoncelo para poder me ensinar.''
Hoje a violoncelista está no auge de sua vida profissional e pessoal. Como poucas mulheres no mundo, conseguiu aliar trabalho e amor. Tudo junto num pacote só. De passagem por Curitiba onde ministrou aulas de violoncelo para os estudantes da Oficina de Música, a musicista e professora do metódo Suzuki para crianças concedeu entrevista exclusiva à Folha.
Idas e vindas
Já passava das 19 horas, quando a reportagem foi recebida pela violoncelista Adriane Savytzky. Foi um daqueles dias típicos do verão curitibano. O sol se pondo, uma brisa no ar e a dúvida se seria possível fazer uma matéria que não fosse restrita ao universo musical. Afinal músicos clássicos são conservadores, certinhos, comportamento fruto da convivência frenética como as centenárias partituras maravilhosas que tocam? Nada disso. Do outro lado do portão da casa de seus pais, na Rua Júlia da Costa, no Bairro Batel de Curitiba, uma moça morena, de olhos negros, corpanzil, surge com a primeira frase: estava te esperando. E aí começou um encontro que derrubou toda a possível barreira entre alguém que vive mergulhado num universo profundamente estudado e uma equipe que vive o dia-a-dia brasileiro dentro de um jornal.
Adriane é uma mulher curitibana que virou do mundo. Já são tantas as viagens, idas e vindas aos Estados Unidos, Europa e uma longa temporada no Sul (tocou durante anos na Orquestra de Câmara de Blumenau e na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, OSPA) que ela talvez nem perceba que o seu sotaque leite quente já não existe mais.
O amor e a Europa
Foi em terras gaúchas que Adriane recebeu o convite do maestro português Miguel Graça para se mudar para Lisboa. Essa transferência acabou dando continuidade a um namoro que acabara de começar na OSPA. Lá, dentro daquele pequeno teatro gaúcho, Adriane conheceu quem viria a ser seu marido: o violinista austro-brasileiro Lavard Skov-Larsen. Filho de um austríaco com uma brasileira, Skov-Larsen passou uma temporada na cidade onde nasceu, para cumprir compromissos profissionais.
Apaixonados e ainda sem saber o que o destino estava armando para eles, os dois deram início a uma relação que hoje é chamada por Adriane de uma ''eterna consagração''. Mas essa já é uma história de amor. Primeiro a história da transferência que acabou a levando para Salzburg na Áustria. Terra de Mozart, a pequena cidade é um berço de músicos clássicos.
O casamento e a ascenção internacional
Logo que se transferiu para Lisboa, ainda sem ter assinado o contrato, Adriane recebeu a proposta para tocar na Orquestra de Salzburg chamada Salzburg Chamber Soloists. Ao aceitar o desafio de ir viver num lugar mítico, a musicista estaria dando um grande impulso para unir as duas maiores ambições femininas: o lado sentimental e profissional. ''Optei pelo lado artístico e emocional juntos'', diz.
E foi isso que aconteceu. Vivendo há dois anos e meio na Áustria e já casada com Lavard, a curitibana leva uma vida dedicada à música. São seis horas diárias de aulas com sua orquestra, sem tempo para final de semana e futilidades. ''Você não sente necessidade de consumir tanto. Existe somente um shopping na cidade'', conta sem se esquecer de dizer que gosta muito de roupas e de culinária. ''Sempre que podemos eu e o Lavard vamos a Milão ver a moda de lá. E gostamos de cozinhar muito. Tanto que hoje vou cozinhar para meus pais.''
Nas horas em que ela e o marido não estão na orquestra de Salzburg ainda tocam num quarteto chamado Ariadne Quartet e num trio com nome de Amarna Trio. Toda essa revolução que sua vida tomou representa, para Adriane, um reflexo de uma característica que ela considera fundamental e vital para um artista: não ter medo. ''No meu interior eu ouvia uma voz dizendo acredite. Não tenha medo'', se emociona.
Foi assim que tudo aconteceu. E é com essa bagagem que Adriane pretende um dia retornar ao Brasil para dar continuidade ao projeto Suzuki. Um método que ensina música de uma maneira natural para crianças a partir dos três anos de idade é um projeto um pouco distante. Mas como Adriane já tocou até com o grupo brasileiro Zimbo Trio antes de aprofundar-se ainda mais num mundo onde muita gente deixa de comprar uma casa para comprar um instrumento, não é de se surpreender se em breve ela não vá estar de volta ao Brasil. ''Tenho vontade de me dedicar um dia ao método. Gosto tanto de passar para os outros tudo que tenho aprendido que faço questão de vir nas oficinas que o Brasil têm. É um prazer para mim.''


