Curitiba Ela chega diferente. Faz questão de cumprimentar e beijar cada uma das cerca de 20 pessoas jornalistas ou não que a esperavam para entrevista coletiva, no Hotel Mabu, em Curitiba, na última quarta-feira. Marisa Monte chega meio etérea, cabelos molhados e voz mansa e leva uns dez minutos respondendo a primeira pergunta. É que, depois de um intervalo considerado longo para o mercado decidiu gravar, em uma só tacada, dois discos. ''Universo ao meu redor'' e ''Infinito Particular''. A resposta parece soar simples, pelo menos para a diva da música popular brasileira, que já foi comparada com as devidas proporções à Maria Bethânia dos tempos modernos. ''Eu acho que foi o tempo necessário entre um disco e outro. Eu tinha acabado de ser mãe e precisava desse tempo. E foi um período que pude compor e pesquisar coisas novas'', conta.
A cantora engravidou do filho Mano Vladimir, hoje com três anos, enquanto ainda estava dedicada à turnê do fenômeno Tribalistas, disco gravado em parceria com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown. Quando o garoto nasceu, ela decidiu viver intensamente a experiência da maternidade e dar um tempo nas longas turnês a que estava acostumada em quase 17 anos de carreira. O tempo também foi aproveitado para Marisa mergulhar num universo que ela sempre visitou, mas não havia dedicado exclusividade: o samba. Aproveitou a fase reclusa para convidar à sua casa, compositores vivos e parentes dos que já morreram para recuperar canções esquecidas ou completamente desconhecidas do grande público.
''Eu fiquei impregnada com a atmosfera do samba, com a maneira como as pessoas compunham e com o jeito de fazer essa música'', disse. Marisa perdeu a conta dos artistas pesquisados, mas recuperou um arquivo bastante raro do samba brasileiro, a maioria presente no disco ''Universo ao meu redor''. Mas muita coisa, confessa, ficou de fora. O repertório passeia entre sambas antigos e contemporâneos, ''mas que dialogam muito bem'', conforme ela analisa. A escolha das músicas, além de pessoal, também levou em conta uma característica particular do samba. ''Com exceção de Dona Ivone Lara, o samba é um universo muito masculino. E eu não conseguiria cantar algumas dessas composições com verdade. Escolhi as que caiam melhor com o meu próprio universo e com a minha voz''.
A cantora revela que ''coisas lindas'' ficaram de fora do disco, como canções do compositor Valter Rosa. Ela chegou a digitalizar várias fitas cassetes com composições do músico carioca, cedidas pela viúva dele, mas reservou, quem sabe, para outro trabalho. ''Eu fiz essa pesquisa mais como cidadã do que como artista'', salienta. Marisa prefere não adiantar se o material que ficou de fora pode render um novo disco com a mesma vertente. Também não está preocupada sobre qual dos discos o de samba ou o que reúne composições próprias vão ter uma aceitação maior do público.
''Mas com certeza isso não vai nortear meu próximo trabalho. Se as vendas dos discos me influenciassem, eu estaria gravando Tribalistas volume dois, três, quatro...'', diz. Ela faz questão de enfatizar que sucesso, para ela, não está ligada ao êxito na venda dos discos. ''A palavra sucesso vem de uma palavra latina que quer dizer sucedido. Para mim o sucesso está na busca, na realização. Em eu me sentir bem com o trabalho que estou fazendo. O êxito comercial é outra coisa''.
Mas o sucesso, tanto comercial quanto na realização pessoal, parece acompanhar a cantora desde que ela foi ''descoberta'' e apadrinhada por Nelson Motta. A carreira, e a dedicação à música, na verdade, aconteceram bem antes. Nascida no Rio de Janeiro, em 1º de julho de 1967, Marisa começou cedo a se interessar pela música. Aos nove anos ganhou uma bateria e logo depois começou a ter aulas de piano e aprender a ler partituras. Na adolescência apaixonou-se pelo canto e começou a ter aulas. Aos 18 anos viajou para Itália para estudar música e ficou quase um ano por lá, intercalando os estudos com apresentações.
Foi em Veneza que conheceu Motta, que ficou impressionada com a cantora e chegou a produzir seu primeiro disco. O trabalho levou o nome de Marisa e foi lançado depois de um especial que ela gravou para a extinta TV Manchete. Foi seguido por ''Mais'', em 1991; ''Cor de Rosa e Carvão'', em 1994; ''Barulhinho Bom'', em 1996. Em fevereiro de 2000, Marisa Monte lançou o próprio selo, Phonomotor, que estreou com o disco ''Velha-Guarda da Portela - Tudo Azul'' produzido por ela e que já marcava o seu interesse pelo samba.
Tribalistas veio em seguida, em 2002, como um grande sucesso de público e um êxito comercial surpreeendente. De todos os trabalhos lançados por ela, no entanto, a cantora acredita que esses dois últimos, que integram a turnê ''Universo Particular'' que estreou em Curitiba na última quinta-feira e segue no próximo dia 4 para Porto Alegre, são os seus trabalhos mais sensíveis. ''Pode ter ou não relação com a maternidade. Não sei. Mas sei que são os discos mais femininos e delicados que fiz''.
A turnê que apresenta músicas dos dois discos começou semana passada, mas a cantora e compositora já avisa, que as apresentações terão intervalos bem maiores do que nas viagens anteriores. ''Eu chegava a ficar dois meses sem ir para casa. Agora não posso mais fazer isso'', revela. O motivo é mais do que justificável. Os fãs que a perdoeem, mas ser mãe é fundamental.

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