Beto Ambrosio, de bicicleta, na Argentina: para ele a experiência foi de total "entrega ao mundo, à vida, às pessoas, uma entrega cheia de fé"
Beto Ambrosio, de bicicleta, na Argentina: para ele a experiência foi de total "entrega ao mundo, à vida, às pessoas, uma entrega cheia de fé" | Foto: Beto Ambrosio/ Divulgação



Para percorrer os pouco mais de 530 quilômetros que separam São Paulo-SP de Londrina-PR, um carro demora, segundo o Google Maps, cerca de seis horas. De bicicleta, esse tempo pode chegar a 31 horas. Mais de um dia sobre duas rodas pode soar como algo exaustivo e até surreal, mas não para quem passou dois anos, oito meses e 13 dias viajando sobre uma bicicleta. Roberto Ambrosio Filho andou, ou melhor, pedalou durante esse tempo e 25 mil 160 quilômetros, percorrendo 17 países da América Latina. Ele contou um pouco de sua história e vivência na última quinta-feira (10) no Juntus Coworking (rua Prefeito Faria Lima, 755).

Natural de Araraquara-SP e formado em administração na UEM (Universidade Estadual de Maringá), apesar de nunca ter exercido a profissão, Beto Ambrosio, como ele é conhecido, se define como um "fotógrafo sonhador". Quando completou 25 anos, em 2012, saiu pedalando até o México. Sua experiência o deixou "muito cansado, mas feliz". Ela também rendeu o livro "Fé latina – Uma volta de bicicleta pela América Latina". Ele foi lançado no final de 2017, por meio de um financiamento coletivo para 2 mil exemplares. Hoje, Ambrosio mora na capital paulista e vive da venda de seu livro e das palestras que dá.

Mas o que levaria uma pessoa de 25 anos e recém-formada a sair de casa, deixar a vida para trás e enfrentar esse desafio? "Algo mais forte que eu me pedia para ir embora, me jogar sozinho no mundo. Além das culturas, pessoas e paisagens, eu estava em busca de algo dentro de mim que precisava ser descoberto", explica. Segundo ele, outro ponto importante foi o fato do pai já ter viajado de bicicleta – apesar de serem viagens de "apenas" uma semana. A família, segundo ele, amou muito a viagem. "Tive o privilégio de ter o apoio de todos os meus familiares, desde o começo", exalta.

A experiência foi de "total entrega ao mundo, à vida, às pessoas. Uma entrega cheia de fé", segundo o fotógrafo. Fé, inclusive, é uma palavra que ele usou até no nome de seu livro. De acordo Ambrósio, ele foi "extremamente bem recebido por todos. Pessoas de todas as culturas e classes sociais me ajudaram sem segundas intenções. Pude ver o lado bom do ser humano, a bondade, a hospitalidade" e isso aumentou essa crença. "Em resumo, a viagem foi uma experiência na qual me senti um boneco de teatro de marionetes, como se algo maior me guiasse pelos caminhos, me levando sempre para o lugar certo, na hora certa, para que eu pudesse entregar e receber tudo o que devesse ser trocado", completa o sonhador. Altos e baixos, segundo ele, se deram devido "à ansiedade" - quando estava ansioso, os "perrengues" ficavam mais pesados e o contrário acontecia se estivesse calmo e paciente.

Uma viagem dessas é, sem dúvidas, um ponto que muda a vida de uma pessoa para sempre. Beto Ambrosio concorda e diz que a viagem ajudou muito na sua. "Me ajudou a perceber que somos uma coisa só. Somos diferentes de acordo com as crenças, costumes e tradições, mas o que existe dentro de nós é idêntico em todos os seres humanos. Isso me trouxe uma nova visão, me fez olhar para dentro e enxergar a bobagem que é o julgamento, o quão vazio e sem sentido são os nossos pensamentos que dizem que estamos certos e os outros estão errados", destaca. Segundo ele, fomos criados de formas diferentes e temos nossos próprios processos de evolução, logo, não "somos donos da verdade para julgar ninguém".

Apesar de ter passado mais de dois anos na estrada, seus sonhos ainda não acabaram, mas estão "um pouco confusos". Questionado sobre novos projetos, ele disse que ainda não os tem, mas "logo as coisas se esclarecem". Se para a maioria das pessoas, uma nova aventura, vinda de alguém como o fotógrafo sonhador, seria uma viagem, para ele, "na verdade, minha nova aventura é casar e ter filhos". O problema é que ele ainda não conhece a esposa.

Beto Ambrosio teve o apoio de sua família para sair mundo afora, mas nem sempre essa é uma realidade. As pessoas têm medo. Famílias ficam preocupadas. A dica, segundo o aventureiro, é "ter fé". "Tenham fé em algo que acreditem, seja o que for, mas tenham fé de que é possível realizar esse sonho". Já sobre os medos, ele diz que são "apenas pensamentos". "Deixá-los de lado é um bom começo", sugere Ambrosio, que, na sequência, admite saber que isso não é algo fácil de se fazer. Ainda assim, o aventureiro termina a entrevista com uma pergunta que é também uma brincadeira: "Entendo que não é tão simples; mas a vida não é simples, não é mesmo?"

Veja o livro de viagem e mais fotos de Beto Ambrosio no site http://www.betoambrosio.com.br/

*Supervisão: Célia Musilli
Editora da Folha 2

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