Nem todo mundo consegue imaginar como ir e voltar da lua numa geringonça movida à lenha e gás. Quem quiser descobrir os segredos dessa façanha precisa conhecer a galeria de tipos populares do escritor de contos paulista José Maria Silva, o ex-taxista Zé do Ponto, 64 anos, que, além de travar conhecimento com alguém digno dessa proeza, descobriu o endereço do Jeca Tatu e as razões de uma batalha que existiu sem nunca ter sido.
Ao dizer que só conta o que lhe contaram, durante os 40 anos em que exerceu a profissão de taxista, Zé do Ponto faz média com Heródoto (484 - 425 a.C.), o historiador grego, autor da frase, ao mesmo tempo em que se exime dos tropeços na verdade em seus rompantes de exageros literários.
O banco da praça da igreja São Pedro, em Itararé, interior paulista, foi a sala de visita de Zé do Ponto, onde costumava receber os personagens reais de seus contos e o volante do carro de aluguel era a mesa onde apoiava as histórias, que registrou de próprio punho, narrando as desventuras de gente comum em qualquer cidade do país, publicadas nos jornais daquela região.
O material acabou sendo reunido em seu primeiro livro, ''As Batalhas de Itararé História e Causo''. A publicação independente abriu a porteira para que Zé do Ponto escrevesse o dicionário de caipirês, ainda em fase de preparação. Já no prefácio do dicionário, o escritor dá o endereço do Jeca Tatu de Monteiro Lobato ao revelar que o personagem brasileiro é encontrado em todo o estado de São Paulo, no Sul de Minas Gerais e Norte do Paraná.
Dono de um acervo de fotografias de muitos personagens pitorescos da cidade paulista na divisa com o Paraná, uma espécie de museu da pessoa, com figuras lendárias, lunáticos, vagabundos e tantos outros, Zé do Ponto cunhou de 'Londrina', uma das expressões do dicionário, que ainda está em fase de pesquisa.
Essa gíria caipira bateu na porta do seu táxi ao ser contada por um irmão, que ouviu a expressão durante uma partida de futebol entre o Londrina Esporte Clube (LEC) e o Atlético Paranaense no Estádio do Café. ''O time londrinense estava perdendo a partida, quando no meio da torcida alguém gritou que a equipe do Londrina 'só joga de fasto'. Essa palavra quer dizer recuado, na retranca. Uma expressão típica do caipira londrinense, região colonizada também por muitos paulistas e mineiros'', conta Zé do Ponto.
Colocando o mapa dos três estados caipiras na ponta da língua, o escritor diz que a expressão ''o tempo brusquiou'' é bem regional de Itararé, não sendo falado nem em Sorocaba, a maior cidade paulista próxima do município fundado em 1893. ''Eu fui perguntar para o sujeito que ouvi dizendo isso e ele respondeu que quando o tempo está claro e muda de uma hora para outra significa que 'brusquiou''', explica Zé do Ponto, acrescentando que 'par de jar', outra expressão caipira, quer dizer entardecer.
Contista que brinca ao dizer que evoluiu de chofer de praça nos anos 50, quando dirigia um Ford 42, para motorista de táxi, taxista e, finalmente, táxi driver ao encerrar a carreira ouvindo histórias a bordo de um Omega 95, Zé do ponto acomada na lista de expressões caipiras do seu dicionário, algumas bastante divertidas sobre a morte. ''Para o caipira, a pessoa não morre ela amarela a sola do pé, apita na curva, bate com as botas, seca o cabo, vai para o c... do tigre'', esclarece o perito em caipirice, que já foi entrevistado pelo apresentador Jô Soares, contando tudo o que sabe sobre a guerra brasileira que nunca existiu e de seu primeiro livro, com edição esgotada ''As Batalhas de Itararé'', publicado em 1997, com renda destinada para a Santa Casa de Misericórdia.
Na primeira parte do livro, que deve ter uma segunda edição, o autor narra os percalços da Batalha de Itararé, o grande embate que não chegou a acontecer na fronteira com o Paraná, quando revoltosos constitucionalistas se concentraram para barrar as forças do governo de Getúlio Vargas, que passaram ao largo, ignorando os combatentes paulistas.
Ao ilustrar a capa do livro com uma foto de Getúlio Vargas tirada na região pelo fotógrafo Claro Jansson, substituindo os combatentes das forças do governo por pessoas comuns, que viveram ou ainda vivem em Itararé, Zé do Ponto desenha um pouco do Brasil de personagens pitorescos. ''São pessoas com as quais convivemos no dia-a-dia e que moram em qualquer cidade do interior, inclusive em Londrina. Às vezes, a gente não consegue encontrá-las porque falta alguém que capte esses personagens, como fiz no meu livro. No Paraná, o escritor Dalton Trevisan fez um pouco disso, recolhendo em sua obra personagens de Curitiba. Assim, como estou fazendo o dicionário, com expressões que ouvia na praça, as histórias que narro no meu primeiro livro foram anotadas num bloquinho, que sempre trago comigo. Enquanto esperava um passageiro, ia escrevendo. A maioria desses personagens, eu conheci. Outras coisas inventei, mudando nomes e situações para não melindrar as famílias'', revela o escritor.
Dezoito contos do livro são de passageiros do taxista, entre os quais estão os causos do ''Zé Beleza'', uma figura folclórica de Itararé, que pode muito bem andar pelo Calçadão de Londrina sem ser percebido. ''O sujeito misturava as coisas, dizia que estudou muito e que o maior inventor do mundo foi Guglielmo Marconi, o criador do rádio. Ele jurava de pés juntos que para ir à lua, quem projetou o foguete gastou 180 metros de lenha, 180 nós de pinho e 180 botijões de gás. Para arrematar, a nave especial tinha 180 metros de altura. Um dia perguntaram para ele se tudo isso era gasto para o foguete subir à lua, como fazia para voltar. O 'Zé Beleza' não pensou duas vezes, respondendo rapidamente que na volta não precisava gastar combustível nenhum porque é só descida, sendo assim, é só soltar o foguete na banguela'', conta Zé do Ponto.
No fio do seu humor, o escritor também afiou a história de Jesus em São Paulo, narrando as peripécias de um caipira itararense na capital. Com o nome e sobrenome de José Jesus de Campos, o personagem se perdeu em São Paulo e ao voltar para Itararé, afirmou que não ia mais para a capital nem amarrado. ''Ele disse aos conterrâneos que 'São Paulo é tão grande que a gente não sabe se está indo ou voltando''', aponta Zé do Ponto outro personagem do livro, que perambula pelas ruas, praças e botecos de qualquer cidade e que só passa a existir, muitas vezes, quando a literatura o veste com uma cor mais forte e poética, como é o caso do próprio escritor/taxista.

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