PERFIL - Um homem que refez a própria história
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de dezembro de 2006
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Ele conheceu o Brasil pela série em quadrinhos do personagem Mister No, um piloto americano que morava na Amazônia. Em meados da década da década de 70, a série e sua ambientação insólita foi sucesso em todo mundo e chegou a ser traduzida até mesmo em turco, língua pátria do escritor Arol Anar. Foi com a revista que Anar, ainda criança, ouviu falar pela primeira vez do território brasileiro. Mais de três décadas depois, ele escolhe o País para morar. O escritor, que foi acusado 11 vezes de terrorismo e teve três livros confiscados pelo governo turco, está morando em Curitiba, aprende português e tem planos de traduzir suas obras - a maioria abordado questões sobre Direitos Humanos - para o português.
Anar publicou seu primeiro livro, ''História dos Direitos Humanos'' (''Insan Haklary Tarihi'', ainda sem tradução), em 1996. A sua estréia na literatura não foi vista com bons olhos pelo governo turco. Três dias depois de lançada, a obra foi confiscada e por causa dela o escritor foi acusado de terrorismo e subversão. ''O livro só relatava casos reais, como a tortura sofrida pelos curdos. Não é um livro de ficção nem com idéias próprias'', defende-se. No primeiro julgamento, ele foi absolvido e o caso arquivado, mas isso não o livrou de ter suas obras seguintes censuradas e sua produção perseguida pelas autoridades. ''A solução do governo turco é militar'', lamenta o escritor.
No mesmo ano da sua estréia na literatura, publicou outros quatro livros. Desde então já lançou 15 livros, entre ensaios, ficção e crônicas. Antes de vir ao Brasil, também se dedicava a outras atividades. Professor de literatura russa e artista plástico, sua vida profissional acumula cargos importantes na Turquia e no mundo. Foi vice-secretário Geral da Foundation of Turkey and Middle East Forum (Ankara); membro da Associação dos Direitos das Crianças, também em Ankara; da Anistia Internacional de Londres; do Comitê de Proteção ao Jornalista em New York; relator do PEN American Center (também nos EUA); da Associação Canadense de Diretos Humanos de Montreal e do Serviço Internacional de Direitos Humanos de Geneva.
Foi atuando nessas funções, ligadas a causas humanitárias, que Anar acumulou experiência para escrever. Embora tenha escrito seu primeiro livro depois dos 30 anos, foi apresentado aos grandes clássicos da literatura ainda criança. Não se cansa, por exemplo, de citar o escritor russo Dostoiévski como o mais importante da literatura mundial. ''Na minha casa, todo mundo gostava de ler. Na hora do almoço, meus pais estavam sempre lendo alguma coisa, um livro ou o jornal'', lembra-se.
Com ele não era diferente. Depois de conhecer o personagem aventureiro do quadrinhos e que viajava para Amazônia em um jatinho, ele quis conhecer também escritores de um país até então pouco conhecido em território turco. Leu Jorge Amado, José Mauro de Vasconcelos e cita ''Meu Pé de Laranja Lima'' como um dos grandes clássicos da literatura.
Mas até os 18 anos nem pensava em escrever ou publicar algo. Com alguns cartoons que desenhava debaixo do braço, saiu pela primeira vez da Turquia, com o sonho de fazer uma exposição na Europa. Voltou alguns meses depois sem conseguir nada. ''Era tudo muito caótico'', analisa. Foi então que começou a desenhar uma outra história na sua vida, que o trouxe até o Brasil. Depois que começou a escrever e da sua perseguição pelo governo turco, passou a viajar e a defender os Direitos Humanos e as sociedades minoritárias.
Conheceu e ministrou palestras em mais de 30 países. Em 2000 veio ao Brasil pela primeira vez para falar sobre os Direitos Humanos em Curitiba. Foi quando conheceu a psicóloga Jucemara Rodrigues Anar, com quem está casado desde 2004. Vítima de paralisia infantil, o escritor se aposentou aos 41 anos e decidiu morar no país que admirava desde criança. ''Existem muitas diferenças entre o Brasil e a Turquia, como a questão do tempo, por exemplo, mas também existem muitas semelhanças: assim como na Turquia, os brasileiros são afetuosos e dão muito valor à família'', analisa.
No Brasil, longe da censura turca, Anar enfrenta outro problema para lançar seus livros: a tradução. ''Já tentei algumas vezes, mas não existe tradutores bons aqui. É tudo muito literal e não fica bom. É preciso mais cultura para traduzir. Eu estou esperando terminar meu curso de português para que possa fazer eu mesmo as traduções'', diz. Depois de sete meses morando em Curitiba. Anar já consegue se expressar bem em português, mesclando com algumas expressões inglesas, concedeu a entrevista à Folha2 falando o idioma do refúgio do personagem em quadrinhos que admirava.
Assim como Mister No - alcunha do piloto Jerome Drake, sobrevivente da 2 Guerra e que deixou a América desiludido com a violência e as imposições políticas em busca do paraíso ambientado em Manaus - Arar encontrou no Brasil, um abrigo. ''Agora penso que aqui é meu país. Ainda não fui conhecer a Amazônia, mas está nos meus planos'', ressalta.


