''Quando os peixes amanhecerem envenenados, boiando sobre as águas dos rios; quando os frutos da terra não mais satisfizerem os homens por causa do veneno que contém; quando o ar se tornar irrespirável pelo veneno que nele circula, nascerão homens e mulheres, representando todas as nações, raças e culturas, que dedicarão suas vidas à busca de soluções para os problemas do mundo. Eles se chamarão Guerreiros do Arco-Íris''. Kaká Werá Jecupé, indígena brasileiro que esteve em Londrina na quarta-feira, para uma palestra no Teatro Zaqueu de Mello, é um desses guerreiros. Com muitos outros espalhados pelo planeta, compõe um ''exército'', que vem realizando ''há cerca de 40 anos'', como afirma, a profecia revelada por povos indígenas norte-americanos, mas que tem pontos de contato com outras muitas histórias e lendas de culturas ancestrais.
Essa tribo de guerreiros que zela pelo planeta e busca soluções para a sua ''cura'' está crescendo, segundo Kaká, ''e criando uma rede de comunicação'', que supera barreiras raciais e fronteiras geográficas, e não se atém apenas a questões ecológicas, uma consequência que pode ser resolvida, ''já que a natureza se regenera'', mas avança para a alma, ''pois é a humanidade que corre perigo''. Ao se sentir ''pressionada pelas sucessivas crises econômicas e sociais'' e ao perceber que ''a dor é a mais difícil das soluções para a cura de si mesmo e do mundo'', o ser humano ''vê-se impelido a buscar a harmonia perdida''.
Nesse sentido, as culturas indígenas ou ancestrais em geral, a brasileira em particular, têm muito a oferecer. É nesse tipo de cultura que se vai encontrar o sagrado impregnando o viver cotidiano e não como algo imposto de fora para dentro. ''O indígena'', diz Kaká, ''concilia espiritualidade com o reconhecimento do grande mistério e o respeito à natureza'', que se traduz em responsabilidade ecológica, mas significa, igualmente, o desenvolvimento da consciência social e da consciência espiritual. Em um mundo que se volta cada vez mais para o resgate de valores, desejoso de encontrar qualidade de vida, ''a maneira simples que os índios têm de entender o sagrado, sem dogmas'', comenta Kaká, pode se tornar um exemplo e uma inspiração. Contudo, é assustador para a civilização moderna aceitar, como fazem as culturas ancestrais, que ''o sagrado ou o grande espírito esteja dentro de nós'', pois essa compreensão implica ''em reconhecer a responsabilidade por nós mesmos e pelo mundo''.
Nosso ''guerreiro do arco-íris'' não poupa esforços, nem distâncias para levar a muitas pessoas essa ''cosmovisão da cultura indígena''. Além de participar de três associações internacionais ligadas à diversidade cultural e religiosa, uma delas com sede na Índia e liderada pelo Dalai Lama, Kaká viaja muito, fazendo palestras e promovendo ''vivências'' não só no Brasil, como a que será realizada em Londrina, nos dias 19, 20 e 21 de setembro, como em vários países do mundo. A receptividade à cultura indígena brasileira lá fora ''é muito grande, maior do que aqui'', observa. ''As pessoas estão cansadas de entrar em contato com o sagrado apenas por meio da teoria ou de buscar compreendê-lo sob um ponto-de-vista mecanicista'', complementa, ''e mostram-se receptivas a transformar alguns desses valores ancestrais em seus próprios princípios''. Talvez esse interesse crescente explique-se também por outro prisma. ''Quanto mais sofisticada a sociedade'', diz Kaká, ''menos humanas tornam-se as relações entre as pessoas''.

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