Aquele velho provérbio de ''tirar leite de pedra'' pode fazer referência ao trabalho de Eder Porttalha, 50 anos. Entretanto, em vez de extrair leite, o artista plástico paranaense aprendeu a confeccionar murais calcados em ricos detalhes.
A matéria-prima utilizada não requer mais que areia, cimento, cal e água. Os instrumentos de trabalho são os mais simples possíveis: suas mãos, uma faca de cozinha e uma colher de pedreiro. O combustível, seu talento.
Porttalha é escultor muralista há mais de 12 anos, mas, embora suas aptidões artísticas fossem ressaltadas, também atuou como tesoureiro de hospital, atendente e gerente de loja de calçados, e também diretor de orfanato, do qual sua mãe fora coordenadora.
''Quando eu era moleque, com uns 9 anos, eu fazia escultura em sabão que minha mãe usava para lavar roupa. Depois eu parti para escultura em madeira. Na época, nossa situação era tão pobre que nem tínhamos condições de comprar matéria-prima'', revelou o artista, lembrando a época em que sua família trabalhava em uma madeireira alugada.
Atualmente Porttalha reside em Mandaguari (33 km a leste de Maringá), mas nasceu em Arapongas (37 km a oeste de Londrina). Suas obras estão espalhadas por diversos lugares do País, entre eles Belém (PA), São Luis (MA), além de cidades de São Paulo e Paraná, totalizando mais de 80 murais. No Paraná, a principal referência está localizada em Maringá (cidade-pólo/Noroeste), ilustrando o muro de um tradicional colégio.
Em ''Os Pioneiros'', são 227 metros quadrados de representação histórica do município. ''Eu retratei momentos da fundação de Maringá, desde a derrubada, o acampamento dos pioneiros com barracas típicas, até a primeira catedral. E acabou virando ponto turístico'', disse. De acordo com o muralista, hoje essa obra estaria valendo mais de R$ 120 mil. ''Atualmente eu cobro aproximadamente R$ 550 por metro quadrado, mas antes as pessoas pagavam o que queriam, afinal eu precisava de dinheiro'', desabafou.
Embora estivesse com as devidas responsabilidades de tesoureiro, paralelamente, o escultor dava prosseguimento aos entalhes em madeira. ''Às vezes eu tinha que ir a Curitiba por causa dos serviços do hospital e, enquanto esperava o ônibus de volta, ficava observando os murais do Poty (artista plástico paranaense). Foi a partir daí que veio a inspiração, embora o trabalho dele seja mais abstrato'', acrescentou o muralista.
Porttalha decidiu levar seus trabalhos em madeira a Maringá pois, segundo ele, era difícil vendê-los em Mandaguari. ''Experimentei fazer alguma escultura no muro da minha casa e, já em Maringá, comentei com meu primeiro cliente que aquele trabalho em madeira poderia ser feito também no cimento. Ele gostou da idéia, encomendou um mural e de lá para cá não parei mais'', disse.
Além das limitações físicas em decorrência da paralisia infantil que determinou a perda quase total dos movimentos de sua mão direita o muralista diz que apredendeu a ''mexer com a massa'' junto aos pedreiros: ''Na minha primeira obra, eu não utilizei a colher para misturar e jogar a massa, e no final do dia minha mão estava escorrendo sangue''.
Segundo ele, é necessário um dia para esculpir cerca de um metro quadrado de obra. No período em que trabalhou em ''Os Pioneiros'', um fato o chamou a atenção quando um andarilho passou a acompanhar Porttalha durante os sete meses e meio da obra, sentado do outro lado da rua com uma garrafa de pinga, segundo o muralista. ''Às vezes ele passava muito tempo olhando fixamente a um determinado ponto, até que um dia para conversar. Foi quando ele me disse sobre seu sonho de ter uma escultura feita a partir de um desenho seu. Chegou a me mostrar um lindo desenho e disse que o restante tinha sido roubado, mas que isso pouco adiantaria já que estavam guardados em sua memória. Isso é uma lição de vida'', emocionou-se, ressaltando que sua esposa e seu filho o auxiliam em etapas de construção dos murais.
Entre os principais diferenciais em seu trabalho, a produção realizada no próprio local em que fora encomendado a obra é sua marca registrada. Outra ponto detacado por Portalha é a falta de valorização de muitas de suas peças. ''Acho que certas obras estão sendo esquecidas por falta de retoque. Como artista você sente muito. O governo devia investir em capacitação de pessoas que trabalhem com isso. Se eu morrer durante uma obra, por exemplo, não há quem dê continuidade ao meu trabalho'', alertou. Segundo Porttalha, ele é o único escultor muralista no Paraná que produz no local, seguindo os estilos clássicos e modernos. ''Tem uma coisa que entristece, pois o governo, através da Secretaria Estadual de Cultura, não sabe que existe um escultor muralista no Estado. Caso precisem de alguém para fazer esse trabalho, irão buscar fora'', ponderou. O escultor possui obras em clínicas médicas, igrejas, escolas, praças, universidades e, inclusive, em algumas residências.

Serviço:
- Contatos com o escultor muralista Eder Porttalha: (44) 3233-5545 ou [email protected]

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