PERFIL - Tonia, seu nome é teatro
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segunda-feira, 05 de março de 2018
Luiz Carlos Merten<br>Agência Estado 

Desde 2013, Tônia vivia reclusa. Seu filho, Cecil Thiré, havia confirmado que a mãe sofria de uma doença grave que lhe impedia de andar e se comunicar. Mas não foi isso que a matou. Tônia havia sido internada na Clínica São Vicente, no Rio, para um procedimento simples, para o tratamento de uma úlcera, mas teve uma parada cardíaca no sábado à noite (30) e não resistiu. Tinha 95 anos. Foi velada no domingo, até 22 h, no hall do Theatro Municipal, em plena Cinelândia carioca. Na segunda-feira (5), foi cremada no cemitério do Caju, no Rio. A cerimônia foi adiada para permitir que familiares que estavam no exterior retornassem ao País.
Grande Tônia. Foi certamente uma das mulheres mais belas do seu tempo, uma beleza nórdica que a levou a ser comparada a Ingrid Bergman e impulsionou sua carreira. Em 2017, completaram-se 70 anos de sua estreia - tinha 24 quando fez, na Vera Cruz, "Querida Susana", com direção do italiano Alberto Pieralisi. Não é um filme que disponha de boa reputação - chegou a ser considerado o pior de 1947, mas Tônia é um assombro e contracena com o maior galã da época, Anselmo Duarte. Cinco anos depois, Tônia e Anselmo fariam dupla em "Tico-Tico no Fubá", e desta vez a receptividade foi estrondosa. O filme dirigido por outro italiano, Adolfo Celi, ostenta até hoje a reputação de ser um dos melhores da Vera Cruz.

Tônia nasceu Maria Antonietta de Farias Portocarrero, no Rio, em 1922. Filha de um general, neta de um marechal, a garota graduou-se em Educação Física. A arte pode não ter vindo diretamente do primeiro marido, o artista plástico Carlos Arthur Thiré, com quem teve o filho Cecil Thiré. Mas acompanhá-lo quando foi viver na França permitiu a Tônia estudar interpretação em Paris. Estreou em 1949 no Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, em São Paulo, em "Um Deus Dormiu Lá em Casa", com Paulo Autran. Já separada de Thiré, e casada com Celi, fundaram a CTCA - a Cia. Tônia-Celi-Autran, que seria decisiva para o desenvolvimento do teatro brasileiro dos anos 1950 e 60.
Se tivesse nascido na Europa, com certeza teria sido chamada para fazer carreira em Hollywood. No cinema, e às vezes de forma espaçada, participou de filmes como "Quando a Noite Acaba", "Apassionata", "É Proibido Beijar", "Mãos Sangrentas", "Esse Rio Que Eu Amo", "Gordos e Magros." Um grande papel foi em "Sonhos de Menina Moça", de Teresa Trautman, de 1987, como a matriarca que reúne a família pela última vez, na casa que será demolida em breve. No teatro, com sua beleza e tipo aristocrático, Tônia participou de montagens que fizeram história, com diretores como Ziembinski, Celi, Gianni Ratto e Maurice Vaneau. Em 1968, algo se passou e Tônia, com direção de Fauzi Arap, teve um choque de realidade como a prostituta Neusa Suely de "Navalha na Carne", o texto emblemático de Plínio Marcos. A partir daí vieram seus talvez maiores papéis - em "Casa de Bonecas", de Ibsen; "Doce Pássaro da Juventude", de Tennessee Williams; "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?", de Edward Albee; "A Visita da Velha Senhora", de Friedrich Dürrenmatt.

Na TV, brilhou, na Globo, em "Uma Rosa com Amor", "Cara a Cara", "Água Viva", "Sassaricando", "Sangue do Meu Sangue", "Senhora do Destino." Uma grande atriz que deixou sua marca na história da dramaturgia brasileira.


