O ator e diretor de teatro Tanah Corrêa, atual diretor do Teatro Plínio Marcos, em São Paulo, e presidente da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT), inaugura hoje, no Cine Teatro Ouro Verde, às 20h00, o ciclo de palestras do projeto ''Londrina - Cena Aberta''. Promovido pelo programa Rede da Cidadania da Prefeitura Municipal, Escola Municipal de Teatro, Casa de Cultura da UEL e Fundação Araucária, o projeto, que inclui ainda duas oficinas destinadas a preparar multiplicadores para atuar em projetos comunitários, visa estimular a reflexão sobre a pesquisa e a linguagem teatral, contando, para isso, com a participação de importantes personalidades do teatro brasileiro.
Com extensa experiência na área teatral, iniciada de forma amadora no fim dos anos 50 na cidade de Santos, onde nasceu, Tanah percorreu um longo e acidentado caminho até se estabelecer profissionalmente no cenário teatral brasileiro. Adolescente e sempre interessado em teatro, recebeu influências das mais diversas origens na Baixada Santista, que era ''como um portal do Brasil no século XX'', afirma. O porto de Santos ''permitia um intenso contato com os estrangeiros, com os imigrantes que ali desembarcavam e que traziam posições e posturas libertárias da Europa''. Tanto assim que, nos anos 60, a efervescência cultural, social e política da região fez Santos ficar conhecida como ''a cidade mais vermelha do país ou a Moscou brasileira'', conta Tanah.
Inflamado pelas idéias de anarquismo e socialismo, Tanah atuava no movimento estudantil, enquanto fazia a Escola Industrial e participava de grupos de teatro amador. Terminado o curso foi trabalhar na Petrobras, uma das opções ''seguras'', como lembra, oferecidas pela Baixada. Contudo, vieram os anos de chumbo da ditadura militar e Tanah, em 1968, acabou demitido e cassado. Como profissional especializado - um técnico de processamento de petróleo -, não havia mais onde trabalhar em Santos. A solução foi seguir para São Paulo, onde conseguiu emprego em uma empresa da área de petróleo e acabou retomando o contato com Plínio Marcos, santista como ele e criado no mesmo bairro.
''Como o Plínio era cinco anos mais velho do que eu, acabei convivendo mais com os irmãos dele'', comenta Tanah, rememorando sua infância na década de 40 na Baixada Santista. ''Ele era uma figura diferente dos demais'', recorda-se, ''e costumávamos dizer que ele já estava no caminho'', significando que Plínio Marcos começava a procurar uma forma de se expressar teatralmente e que essa busca o levara, inicialmente, a descobrir a linguagem circense. ''Plínio fez muito tempo o palhaço Frajola'', lembra Tanah.
Em São Paulo, foi só a partir de 1977 que Tanah começou a trabalhar com teatro profissional. Do contato com Plínio Marcos, surgiu a idéia de formar o grupo ''O Bando'', que era ''como um teatro-guerrilha, uma forma de contestar a política vigente''. Em 1979, veio a anistia e, com ela, a conquista de uma maior amplitude para o seu trabalho com o teatro. Atuando mais intensamente no eixo São Paulo-Rio de Janeiro, encenou várias peças de sucesso como Cordélia Brasil, Os Saltimbancos e O Sonho de Alice, com Miriam Rios, em uma produção de Roberto Carlos. Houve condição até mesmo de retornar a Santos, em 1984, a convite do primeiro prefeito eleito depois da abertura política, para assumir o posto de Secretário de Cultura do município. Conseguiu sua reintegração como funcionário da Petrobras em 1985, aposentando-se em 1992.
Os anos 90 ficaram marcados para Tanah como um período de muita pesquisa teatral, com o TEIA - Teatro Íntimo de Arte -, e de intercâmbio com o exterior, como diretor de interpretação do ''Grupo Boi Voador''. Nessas idas e vindas à Europa, acabou trabalhando por oito meses na cidade do Porto, em Portugal, onde dirigiu um grupo local em ''Tributo à Mário Henrique Leiria''. Na volta, montou ''Dois perdidos numa noite suja'', de Plínio Marcos, com um ator brasileiro - seu filho Alexandre Borges -, e um ator português. Também com o filho e Plínio Marcos firmou uma sociedade teatral. Porém, enquanto o projeto era desenvolvido, Plínio ficou doente e faleceu. O teatro, arrendado para utilização do grupo que se formava, ''era para ter outro nome, mas acabou ficando Teatro Plínio Marcos''.
Essa estreita vinculação com Plínio Marcos impregnou a concepção teatral de Tanah Corrêa. ''Sou, com certeza, a pessoa que mais trabalhou com o Plínio, tanto como ator, quanto como diretor, o que mais montou seus textos e o que mais conviveu com ele, tanto em termos profissionais, quanto fraternais'', afirma. Por isso, em Londrina, além de conversar com o público sobre suas experiências teatrais na palestra de hoje, Tanah está, desde o dia 28 de junho, a convite da Cia. de Teatro Tusc.u.s, dirigindo 15 atores em um texto de Plínio Marcos, Barrela, espetáculo com estréia prevista para o dia 2 de agosto na Escola Municipal de Teatro.
''Plínio Marcos foi o autor que pôs o brasileiro em cena'', comenta Tanah, ''trouxe para o palco os excluídos, o marginalizado, aquele que, como gostava de dizer, só aplaude das arquibancadas, não participa do jogo''. Por também entender que o teatro possibilita essa mudança de perspectiva, Tanah não aceita a encenação apenas para divertimento, ''o teatro precisa levar uma reflexão''. E no centro do palco, mais importante do que o texto e a encenação em si, está o trabalho do ator. ''Quando não há interpretação, a proposta de qualquer texto se fragiliza, o teatro só se realiza por causa do ator''- afirma.


Serviço: - Londrina - Cena Aberta. Palestra do ator e diretor de teatro Tanah Corrêa, hoje, dia 22 de julho, no Cine Teatro Ouro Verde, às 20h00. Ingressos: R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00 (meia entrada). A arrecadação será revertida em investimentos da Escola Municipal de Teatro no Núcleo de Pesquisas Teatrais.

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