Quando começou a estudar o texto de ''Chocolate Com Pimenta'', de Walcyr Carrasco, Marcello Novaes conquistou os dois primeiros fãs do rústico Timóteo. Os filhos Pedro, de 6 anos, e Diogo, de 8, ficaram encantados com o diálogo entre o personagem e uma vaca. ''Eles rolaram de rir! 'Pai, como é que o cara fala com uma vaca?!'. Este trabalho é dedicado aos meus filhos e dirigido para as crianças'', conta. Acostumado a interpretar tipos que conquistaram o público feminino, o ator diz se sentir um estreante ao viver, pela primeira vez, um autêntico caipira. ''Me sinto ainda muito inseguro. Mas, com o tempo, vou fazer melhor'', confessa.
Para Marcello, a oportunidade de viver o Timóteo consolida a diversificação de tipos, que começou com o convite do diretor Jayme Monjardim para ser o vilão Jacinto na minissérie ''Chiquinha Gonzaga'', em 1999. Até então, a imagem do ator estava diretamente vinculada à de típico descamisado des novelas de Carlos Lombardi. Isso por causa do sucesso de personagens, principalmente, do atrapalhado Raí, que se destacou em ''Quatro Por Quatro''. Ele admite que ficou receoso com a possibilidade de ficar limitado a um tipo de papel. ''Todo ator quer diversificar o seu trabalho. Eu tive a sorte de aparecer um Jayme Monjardim e acreditar em mim'', afirma.
Depois da experiência em ''Chiquinha'', Marcello interpretou o paquerador Raul, em ''Andando nas Nuvens'', e o brigão Beterraba, de ''Uga Uga''. E foi, novamente, Jayme Monjardim quem lhe proporcionou a experiência de interpretar tipos diferentes daqueles que estava habituado. Primeiro, ele foi o responsável Xande, da novela ''O Clone'', que fazia par romântico com a dependente química Mel, vivida por Débora Falabella. Em seguida, integrou o elenco da minissérie ''A Casa das Sete Mulheres'', com o personagem Inácio.
Agora, Marcello tem a oportunidade de fazer outro tipo inédito em seu currículo. Para tornar-se o caipira Timóteo, ele diz estar compondo o personagem gradativamente. O ator considera a linguagem como a parte que requer o maior cuidado, por causa do seu acentuado sotaque carioca. Ele conta que os atores do núcleo rural além dele, Drica Moraes, Osmar Prado, Laura Cardoso e Carla Daniel tiveram aulas de prosódia com Íris Gomes da Costa, professora de elenco da Globo. O objetivo era ensinar aos atores o sotaque e expressões comuns do meio rural paulista dos anos 20. Marcello considera esse o seu principal desafio. ''É preciso estar muito bem estudado para fazer aquilo com naturalidade. Estou numa fase de exercício do personagem'', pondera. Ele diz que as temporadas que passa em um sítio da família em Teresópolis, na região serrana do estado do Rio, lhe deu instrumentos para a composição do personagem. ''Pela minha observação, eu conheço um pouco do universo dessas pessoas humildes que trabalham no campo'', destaca.
Por causa das dificuldades para construir o Timóteo, Marcello diz ter ficado lisonjeado com o convite de Jorge Fernando para viver um personagem tão distante tanto dos seus trabalhos anteriores quanto do seu cotidiano. O ator entende que o diretor poderia ter chamado um ator com experiência prévia nesse tipo de trabalho ou, até mesmo, um paulistano o que, segundo ele, ajudaria na fala , mas preferiu arriscar no seu talento. ''Aliás, ainda está arriscando, né? É um desafio profissional muito interessante'', vibra.
Marcello garante não estar preocupado com a possibilidade de tornar a interpretação do Timóteo caricatural. Ele considera que o personagem tem um lado que define como patético. ''Às vezes, a gente tem de perder um pouco da vergonha. Deixar de lado um certo compromisso de atuação'', ressalta. Apesar disso, o ator admite que tenta contrabalançar o aspecto rudimentar, com o caráter inocente e sensível do personagem. ''Claro que eu tento enxugar algumas coisas, quando o texto permite'', afirma.
''Minha qualidade de vida é ter os meus filhos bem perto''. É com essa frase que Marcello Novaes resume as razões pelas quais decidiu privilegiar o trabalho na tevê preterindo o teatro, onde começou a carreira artística com a peça ''Os 12 Trabalhos de Hércules'', em 1982. Ele conta que, nas oportunidades em que tentou conciliar as duas mídias, ficava sobrecarregado e não sobrava tempo para ficar com os filhos. ''Sei que muita gente consegue, mas para mim não dá. Talvez eu não tenha esse know how'', diz.
O ator pondera que gostaria de voltar a fazer teatro. Contudo, dá a entender que isso não deve acontecer tão cedo. Ele lembra que tem contrato com a Globo até 2006 e, como funcionário, sempre atende aos convites para integrar as produções da emissora, não sobrando muito tempo para outros trabalhos. ''Eu acho que faço melhor assim, se me dedico a um só projeto'', analisa.
Apesar disso, Marcello conseguiu um espaço na agenda para participar do longa ''Morou?'', de Elizeu Ewald, e que deve ser lançado em 2004. Ele diz que a experiência foi muito curta apenas 15 dias de filmagens e não a considera como sua estréia no cinema. ''Foi corrido e não deu para sentir o tempo do cinema'', afirma.

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