PERFIL - 'Eu sou um personagem'
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 04 de julho de 2005
Fred Melo Paiva<br> Agência Estado 
Cauby Peixoto fala inglês em inglês. Mesmo para aquelas palavras que o dicionário já tratou de aportuguesar, não dispensa a pronúncia original, sublinhada pela língua que se enrola ao máximo dentro da sua boca grande nessa hora transforma-se numa caricatura bem ao estilo dos repórteres do Pânico quando invocam a figura hollywoodiana de Bob Jefferson. ''Ci, ou, bi, uai'', ele soletra. ''Coby. Ron Coby.'' Ron Coby foi o nome que Cauby adotou no tempos em que viveu ''na América'' (ele nunca diz Estados Unidos). Entre 1957 e 1961, no auge do seu sucesso, viu-se um dia frente a frente com Frank Sinatra (''Frrrrenk Sinatrrrra''), um cara de quem se tornaria ''muito próximo''. Coby respirou fundo, encarou-o nos olhos e saiu-se com essa: ''Fly me to the moon, let me play among the stars, lá rá lá rá lá rá lá...'' Quando terminou a cantoria, Frrrrenk, A Voz, o teria premiado com as melhores aspas a que Cauby já teve direito: ''What a voice, man!''
Ron Coby desapareceu-se. Mas Cauby Peixoto permanece glorioso, embora Frrrrenk não esteja mais aí para testemunhar o seu sucesso no palco do Bar Brahma, em São Paulo, no caetânico ponto em que a avenida Ipiranga cruza a São João. Semana passada, a temporada de sete meses de apresentações semanais ganhou fôlego novo: prolonga-se até o final de agosto.
Cauby Peixoto é um personagem. Acontece que ele nunca desce do palco. Digamos que, já faz muito tempo, sua pessoa física foi engolida pela jurídica. Um exemplo para se entender esse estranho processo: quando chega no quarto do hotel, fecha a porta e fica sozinho, ele continua sendo o mesmo Cauby Peixoto, preocupado exclusivamente com música, acocorado sob suas perucas importadas. Não tem nenhum outro interesse. Se você pensava que as roupas extravagantes de Cauby era apenas o resultado de um trabalho de figurinistas e que de repente ele se vestia como um sujeito comum quando ia, por exemplo, ao clube , engano seu. Atualmente, Cauby apresenta-se no Brahma em ternos pretos e bem cortados. Para vê-lo bem louco, terá de encontrá-lo à paisana. ''Eu não tenho um personagem'', diz. ''Eu sou um personagem.''
Esse personagem que engoliu a pessoa física do Cauby o Cauby Peixoto Barros é um tipo que dorme e acorda muito tarde. Não é um cara chegado à boemia, como se poderia pensar num primeiro momento. Não bebe, não fuma, não cheira ao contrário de Tim Maia, parece não mentir sobre esses assuntos. É apenas um sujeito que vive ''uma vida completamente diferente das pessoas normais''. Desde que chegou a São Paulo, vai do Brahma para o Hotel Excelsior, do Hotel Excelsior para o Brahma. Um fica de frente para o outro. ''Eu sou muito popular, querido e amado. Então eu tenho muito conhecido na rua. Tenho que parar, dar autógrafo... Eu até gosto, mas aí vai juntando gente... Você veja que outro dia até fui à casa de uns amigos. Mas não me adapto mais a grupinhos, o papo já não me agrada. Se eu fosse ninguém, talvez me agradasse... Mas diante do Cauby todo o mundo quer se afirmar.'' Não sendo ninguém, Cauby é alguém que passa as horas no quarto.
Cauby só foi se tornar Cauby em meados da década de 50, quando o empresário Edson Veras, o Di Veras, ''encontrou em mim o cantor que gostaria de ser''. Levado à Rádio Nacional do Rio de Janeiro, virou uma estrela de dimensões inéditas para o cenário brasileiro, apontado à época pela revista americana Time como um exemplo dos muitos Elvis que se espalhavam mundo afora conquistando sobretudo o coração das mulheres. ''Elas diziam: 'Tenho que ver Cauby, tenho que ver Cauby! E iam todas elas. Aí os namorados brigavam. Porque é chato mesmo, né? Você tem uma namorada e ela começa a falar de um Brad Pitt... Desagradável.'' Essa relação de Cauby com as mulheres que talvez não chegasse às vias de fato foi sendo aprimorada por uma peculiar tática de sedução. ''Um dia o Di Veras me disse: 'Você estava olhando para duas garotas. Olhe para todas.' Então passei a flertar sem discriminar nenhuma. Podia ser a gordinha, a mais escurinha, não importava tudo meu. Foi assim que eu comecei a conquistar as meninas de outros fã-clubes. Até hoje continuo fazendo assim: eu ando pela rua flertando com elas.'' Ao que parece, a mesma estratégia não se aplica a quartos de hotel, onde certa vez encontrou, debaixo da cama, uma mulher pelada: ''Quero ser sua! Quero ser sua!''. Não se dispondo ao intercurso com uma fulana que talvez Bob Jefferson referiria-se como sendo do tipo horizontal, apontou o dedo: ''Saia já daqui''.
''Homossexual? Não, não... Eu tive uma vida normal, uma grande paixão. Foi na América. Uma mulher mais velha que eu, uma belga bem conservada, muito pouca ruga. Um dia estávamos tocando, e ela tirou a roupa. Tudo no lugar... Renunciei a ela por causa da chantagem do meu empresário, que queria que eu voltasse para o Brasil. Olha, até que não foi mau, porque eu cheguei aqui e emplaquei um grande sucesso, que foi ''Ninguém é de Ninguém'' Ninguém é de ninguém, na vida tudo passa, lá rá lá...''
Pois é. Mas o problema é que o pessoal gostava de pegar no pé do Cauby. Antes mesmo de ir para os Estados Unidos, muita coisa se falava dele: ''Ah, o Cauby não foi para a América coisa nenhuma. O Cauby está escondido em Cascadura. O Cauby é maluco, drogado. Ah, esse Cauby é bicha''. E olha que nessa época o incipiente Ron Coby vestia ''roupas tradicionais, uns ternos tropicais ingleses, sapatos de duas cores''. Tudo muito elegante e requintado. Seu alfaiate, ''o Dias'', era o mesmo do Geisel. ''E o sucesso que isso fazia lá fora? Um dia, numa parrrrty em New Yorrrrk, apareceu um homem superalto. Só ele veio falar comigo. Queria saber de onde era a minha roupa. Esse homem era o RRRRock HHHHudsonnnn, ator. Disse a ele: 'Eu lhe mando o tecido, com muito prazer'.''
Nesse período, a melhor produção de Cauby foram as plásticas que ele fez no rosto, ''uma maravilha''. Ao todo, foram três cirurgias de correção, na época muito raras entre os homens. ''Claro, diziam que era coisa de bicha...'' Para livrar-se da pecha, forjou a notícia de que sofrera um acidente de carro, o que o teria obrigado a ficar com o rosto todo enfaixado. De repente, deu-se o milagre: retiraram-se as ataduras e ''sumiu papeira, olheira, bolsa, pálpebra'' bateu o carro e rejuvenesceu uma década. Além disso, ''um implantezinho'' resolveu as falhas na sobrancelha, hoje cuidadosamente pintadas. ''Peruca? É, é peruca. Importada. Cabelo branco? Um pouco. Grisalho. Calvície? Tenho. Não muito. Tirar a peruca? De jeito nenhum.''
O Cauby Peixoto do Bar Brahma é um artista versátil. Conserva a peruca mas voltou aos trajes de crooner. Tem feito shows no interior de São Paulo e no nordeste. Nessas ocasiões, lança mão de seu styling mais famoso o de marmota , inclusive bastante presente nos entornos da São Paulo Fashion Week. Cauby também tem se apresentado com frequência cada vez maior em festas particulares aniversários de políticos, bodas de fazendeiros, rega-bofes de milionários. ''Tenho a roupa certa para cada lugar e nessas eu coloco um smoking.''


