PERFIL - 'Certinha' e cheia de vitalidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de agosto de 2006
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Depois do sucesso que fez na última novela global das 8, ''Belíssima'', de Sílvio de Abreu, com a personagem ''Guida Guevara'', Íris Bruzzi irradia alegria quando fala da sua carreira e do seu passado como vedete, que no folhetim televisivo ganhou destaque, juntamente com a participação da amiga Carmen Verônica. A dupla de ex-vedetes ganhou popularidade nacional com suas piadas, enquanto tentavam os mais diversos trambiques para conseguir montar o próprio show. No final da novela, tal intento aconteceu, reunindo algumas das veterenas dessa época, de um país, talvez, até mais ingênuo. Em Londrina, na semana passada, para a gravação de um comercial, Íris contou ter orgulho dos seus 71 anos, sendo mais de 53 dedicados à carreira artística.
Quando decidiu ser atriz não teve apoio da família, mas insistiu, e depois de casada com um dos maiores empresários do Rio de Janeiro, Walter Pinto, relembrou que os parentes rapidamente voltaram a colocar os seus retratos na parede. Com belas curvas, entre as décadas de 50 e 60 Íris fez parte por dez anos da irreverente coluna ''Certinhas do Lalau'', na Revista O Cruzeiro, de Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo do jornalista Sérgio Porto), que trazia as mulheres mais bem despidas do Brasil. ''Jardim de infância comparada a Playboy de agora ...'', brincou Íris.
Hoje, ''já na terceira idade'', Íris diz que é um exemplo para as mulheres de mais velhas e não se censurou ao decidir passar por diversas cirurgias plásticas para ''esculpir o corpo'' e deixar a personagem Guida Guevara ''mais exuberante''. Até silicone colocou e fala disso com orgulho. ''Precisamos acabar com essa ditadura que só as pessoas de 15, 18 anos têm coisas bonitas para mostrar''. Atualmente divide aplausos elogiosos com Carmen Verônica na comédia ''Amigas Para Sempre'', de Maria Adelaide Amaral, que também será apresentada em Londrina em breve. Confira abaixo os melhores trechos da entrevista concedida à Folha de Londrina.
Conte um pouco do início da sua carreira e como é ser uma ''vedete'' em 2006?
É muito legal. Eu estreei em 1953, em um teatro de Copacabana; depois eu trabalhei com o grande Carlos Machado, e em pouquíssimo tempo, um ano e pouco, me casei com o maior empresário do País, que era o Walter Pinto, com quem eu tive três filhos. Em seguida, comecei a trabalhar com Delcino de Moraes. Fazia teatro de comédia, teatro infantil na TV Tupi e nunca parei de trabalhar. E agora vem esse presente de Sílvio de Abreu, que foi a Guida Guevara, que resgatou não só a vedete, que era uma coisa tão antiga..., mas também a mulher da terceira idade. Eu falava ''gente a vedete está igual à foca, ela está acabando...'', porque as melhores, as das antigas, quase todas já morreram.
Qual foi a reação das mulheres da terceira idade em relação ao seu papel?
Elas me abordavam felizes porque a Guida Guevara bota os seus peitos pra fora, com silicone, claro, 300 miligramas em cada um (risos). Eu sou louca?! Ela usa muita bijuteria...Elas me encontram na rua e perguntam: ''Íris, a gente pode tudo?'' e eu digo: Claro, a gente pode tudo, tem que acabar com essa história de que só quem tem 15, 18 anos, é bonito. Todo mundo é bonito, cada um tem uma coisa bonita para mostrar e, às vezes, quando não tem do lado de fora, tem do lado de dentro. Acho muito importante a beleza interior.
E a parceria com a atriz Carmen Verônica na novela ''Belíssima''?
É maravilhosa, foi um outro presente. A gente é amiga desde 1953, quando eu estreei e ela já tinha estreado dois anos antes, com o Carlos Machado. Nós fizemos tanto sucesso na novela que agora estamos fazendo a peça ''Amigas Para Sempre'', da Maria Adelaide Amaral, que é outro presente. A peça é muito boa, as pessoas riem demais. Esses dias uma moça chegou a cair no chão de tanto rir de umas graças da Carminha.
Você atualmente está casada?
Não. Eu casei três vezes. Primeiro com o grande Walter Pinto, depois com um ator, que infelizmente já morreu há muitos anos, que era o Nelson Caruso, com quem eu tive o Marcelo, meu filho caçula, que mora nos Estados Unidos, e é o nosso primeiro político brasileiro eleito lá. Ele foi deputado durante quatro anos e prefeito um ano da cidade dele. Depois fui casada com o Jorge Dória, oito anos, e agora estou ''fechada para balanço'' já há tempo. E o legal é que eu digo que o ''fechamento'' é porque eu quero, não estou a fim de namorar ninguém mais não.
E você tem problema de falar sobre a sua idade?
Não. Eu tenho 71 anos, três netas, e sou orgulhosíssima disso. Eu estou bem pra 71, não estou?
Quando você colocou silicone?
Antes da novela. Eu fiz para deixar a Guida mais exuberante, mais saliente. Eu fiz tudo o que tinha direito. Uma barriga maravilhosa, depois uma lipoescultura, silicone nos peitos, tudo no mesmo dia. Plástica no rosto eu fiz há 19 anos, uma bioplastia. Hoje em dia só é feio quem quer, mas tudo isso depende de muito dinheiro (risos).
E antes do convite do Sílvio de Abreu para participar da novela, como estava a sua vida?
A minha vida estava legal. Eu passei dez anos no ramo imobiliário, eu tinha nove apartamentos em Nova York, que eu sublocava. Cheguei a alugar para 25 mil pessoas nesse período. E eu vinha frequentemente ao Brasil para fazer peças, participar de novelas...Sempre indo e vindo.
E aquelas piadinhas que você e a Carmen Verônica faziam em cena. Eram espontâneas ou o Sílvio que as escrevia?
A maioria fazia parte do script, mas também improvisávamos. As senhoras me encontravam na rua e falavam: ''Ai araponga estou torcendo para o seu bracinho sarar logo...'' (um dos apelidos que Guida Guevara recebeu durante a novela era ''Araponga da asa quebrada'', depois de um acidente em que machucou o braço direito). Os nossos personagens foi um dos que mais fez sucesso pela verdade que demonstrou, porque o Sílvio conhece a mim e a Carminha (Carmen Verônica) como a palma da sua mão. Eu sou amiga dele desde que ele tinha 19 anos de idade. E as pessoas a quem ele se referia na novela como o Carlos Manga, o Jô Soares, ele e nós duas conhecemos muito bem. Então havia uma verdade muito grande nessa história toda. E por isso era tão engraçado. Eu chamava a Carmen de ''dinossaura do salto agulha'' e ela sempre me chamava de ''araponga'' com algum adjetivo...''araponga loira'', ''da asa quebrada''...Mas foi muito duro, eu quebrei o braço no dia 16 de dezembro, e até agora ainda estou fazendo fisioterapia para recuperá-lo. Mas fez parte do sucesso, porque o Sílvio é um gênio e eu trabalhei no dia seguinte do acidente, toda quebrada, porque eu sou profissional das antigas. O show não pode parar. E aí ele já inventou essa história da araponga...que eu tinha caído na casa do Jô Soares...E até hoje tem gente que acha que a queda do braço foi de brincadeira.
Quando você iniciou a sua carreira, a sua família aceitou bem?
Não, era muito feio ser atriz naquele tempo, vedete, então, era uma imoralidade. Então, durante dois, três anos, a minha família tirou os meus quadros de casa, os meus retratos, mas aí como eu me casei logo depois com o homem mais importante do Rio de Janeiro, que era o Walter Pinto, aí botaram os retratos correndo. Hoje em dia, tem gente que eu nunca vi na minha vida que diz que é parente meu. É muito engraçado.
Foi um bom casamento?
Foi, casamento enquanto dura é ótimo. Nós vivemos juntos 11 anos, depois ficou insuportável e nos separamos. E ele acabou virando o meu maior amigo. Eu ia nas televisões com ele e falava: ''O Walter, aqui do meu lado, foi o pior marido que uma mulher poderia ter, mas, em compensação, é o maior amigo que uma mulher pode ter''. Eu acho isso mais importante.
E sobre a sua participação na Revista O Cruzeiro?
Sim, fiz parte das ''Certinhas do Lalau''.
Tem saudades dessa época?
Não, não tenho nenhum saudosismo. Fui durante dez anos uma das ''Certinhas do Lalau''. Chegou uma hora que eu falei ''pelo amor de Deus'', já estou com um filho enorme...Eram divulgadas fotos minhas com trajes menores. Na ocasião o Jacinto de Tormes fez uma lista das dez mulheres mais bem vestidas, que incluía a Carmen Mayrink Veiga, e o Sérgio Porto (criador da coluna), fez uma sátira com as ''dez mais bem despidas'', que naquela época usavam um ''maiozinho'', um jardim de infância de hoje, meu amor...porque hoje tem a Playboy aí, né, com tudo à mostra?! Adorei aquela época, era maravilhosa, todo mundo tinha 18 anos. Agora o legal é você seguir, não ficar ''ai, no meu tempo era melhor...'', não existe isso.
E a que você atribui essa vitalidade?
Acho que é genético, a alegria de viver. Sempre foi assim. Acho sempre que as coisas estão boas, mas vão ficar melhores. Gosto de tudo o que estou fazendo. É gratificante atingir o coração do público, sentir que acertou, porque eu estudo muito para fazer, criar os meus personagens.
Foi difícil montar a Guida Guevara?
Tem gente que achava que fazer a Guida Guevara seria fácil, mas ela foi de difícil composição, porque ficava em cima do muro do ridículo. Ela poderia ser uma grande ''vagabunda'', ou uma grande trambiqueira, e eu compus a Guida de uma maneira que ela era uma doce figura. Todo mundo amava ela. Ela fazia trambiques, teve mil homens, mas em nenhum momento ela foi ridicularizada ou enxovalhada e isso você tem que estudar muito para conseguir esse resultado. Eu tenho mais de 50 anos de carreira, não me dou o direito de fazer as coisas erradas. Cada vez é mais difícil. E eu tenho muito da Guida Guevara. Sou ''peruéssima'', adoro andar com oito, nove colares, cinco anéis.
Você concorda com a idéia de que o ator teria que ter uma personalidade mais flexível para conseguir passar verdade em papéis tão diversos de si mesmo?
Eu acho que é uma mescla. Por exemplo, a Guida Guevaro levou muita coisa da Íris Bruzzi. A minha alegria, a minha vitalidade, o meu acreditar nas coisas, a minha pureza. Eu tenho uma natureza meio boba, às vezes, que parece de uma pessoa muito nova, que eu não teria o direito de ter aos 71 anos. Mas ao mesmo tempo a Guida me ensinou muitas coisas. Acho que é uma grande troca. Agora a coisa mais triste é quando acontece a última cena. Eu choro muito, porque quando você acaba de se maquiar, pentear, e se olha no espelho, é outra pessoa. E, na última cena, quando tira a roupa, a maquiagem, o cabelo e passa a escova, é como se tivesse matado aquela pessoa, que você não vai ver mais. Cadê a Guida Ghevara que me deu tantos sonhos, tantas alegrias? Eu me emociono só de falar. É como se ela tivesse morrido, mas, na verdade, foi para uma galeria dentro de mim.


