PERFIL - Bibi, um patrimônio da cultura brasileira
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segunda-feira, 11 de junho de 2007
Mônica Manir<br> Agência Estado 
''Começou por volta dos anos 50, quando passei a sentir necessidade de me separar do sol. Depois percebi que, mesmo com luz elétrica, dentro de casa, o incômodo era o mesmo. A necessidade dos óculos virou uma constante. À noite, faço tudo no escuro. Passo fio dental no escuro. E sofro muito em cena. Às vezes não consigo, logo de entrada, abrir os olhos de vez. A bateria de frente é uma coisa terrível, brutal.''
Estamos no apartamento 1503 de um hotel nas redondezas da Avenida Paulista. Um janelão inunda a sala com a luz chapada de São Paulo. Bibi Ferreira vira o rosto. Tem fotofobia grau máximo. Pavor de claridade. Ojeriza à luz. Sob imensos óculos escuros, instalou no hotel mais um feudo temporário, que já dura quatro meses. Chegou do Rio em fevereiro para ensaiar ''Às Favas com os Escrúpulos'', de Juca de Oliveira, amigo de longuíssima data, mas com quem contracena pela primeira vez. A peça estreou há 30 dias, e ela já insinua outra, ''Isadora e Oswald'', com exibição prevista para julho e direção sua.
- É um suposto encontro entre João do Rio, o primeiro grande jornalista brasileiro, o poeta Oswald de Andrade e a bailarina Isadora Duncan, uma mulher livre, revolucionária, que quebrou todas as regras da dança clássica. O Aguinaldo Silva propôs a idéia, que é estupenda, porque são três porras-loucas.
No 1503 também estão Neide Gallassi, sua escudeira há 25 anos, que ela apresenta como governanta, a jornalista, atriz e produtora teatral Jalusa Barcellos, além de Anselmo Vasconcellos e Letícia Spiller, dois do elenco de Isadora e Oswald, que entabulam ali os primeiros passos do espetáculo. Passos apertados. Letícia, que faz Isadora, arrisca girar o braço entre um móvel e outro. Anselmo lê as falas de João do Rio sentado na poltrona. Acomodada num assento ortopédico Doutor Coluna, Bibi se incomoda.
- O difícil de ensaiar no hotel é que o ator tem uma impostação própria, um ritmo. Quando está sentado, é um. Quando está em pé, é outro. A peça vai ser inteira em pé!
Toca o telefone. Ela tem entrevista com a rádio. Canta ''La Vie en Rose'' e um trecho de ''My Fair Lady'' no cômodo ao lado. À meia voz, Anselmo revela que nunca viu ninguém como Bibi no teatro. Quando encenava O ''Último Carro no Shopping de Copacabana'', em 1976, ela atordoava o público com ''Gota d'Água'', de Chico Buarque e Paulo Pontes, em outra sala do mesmo shopping. O Último Carro absorvia o excesso de público do Gota. ''Sua interpretação como Medéia era a tragédia na vibração mais contundente, todos saíamos com vontade de dar um beijo na boca dela.'' Letícia se diz apaixonada por Bibi: ''Ela é efervescente''.
Bibi, registrada Abigail Izquierdo Ferreira, 85 anos. O nome oficial vem de uma homenagem do pai à vedete e cantora Abigail Maia, para cuja companhia Procópio Ferreira trabalhava na época do nascimento da filha. Aliás, foi nos colos da madrinha que ela estreou aos 24 dias de idade fazendo papel de boneca. O brinquedo tinha sumido do camarim.
Andando devagar - ela sempre faz tudo devagar, ainda mais sobre 10 centímetros de salto -, Bibi dispara críticas ao telefone. O aparelho em si.
- O telefone é para coisas pequenas. Vai? Não, fico. Até logo. Pronto. É
A pequena Abigail é notória pela disciplina monástica. Não fuma, não bebe, não toma gelado, não gosta de festas, odeia badalação. Passa pito em todos os que corrompem os princípios do bom atleta de palco. ''Até já fiz aquela ginástica da Força Aérea Canadense, 12 minutos, tatatá, mas não faço mais. Hoje eu exercito o olhar. A esteira está ali e eu fico olhando.
Se dirige?
- Nunca dirijo e nunca tive vontade de dirigir. Nunca pensei em carro pra mim, ainda mais carro com chofer. Para quê eu quero chofer? Para, na hora em que eu o chamar, ele estiver tomando café no boteco? Existem 220 mil táxis no Rio de Janeiro, todos passando perto da minha casa. É só fazer assim que param 10. Minha vida é muito simples.


