PERFIL - Bendito violonista
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de março de 2004
Eduardo Hoffmann<br> Especial para a Folha2 
Curitiba Um dos maiores violonistas do Paraná é autodidata, nasceu em Antonina e trabalhou 13 anos como sapateiro, de onde vem o nome artístico Dito Sapateiro. Benedicto Cruz Ferreira nasceu há 69 anos em Antonina, no litoral do Paraná. O pai era carpinteiro e a mãe do lar. Cinco irmãos, mas só ele mostrou interesse pela música. ''Na família sempre tem um'', diz. E começou a tocar dos 18 anos em diante, revezando com o trabalho de sapateiro durante o dia.
A música ainda era uma diversão, mais um aprendizado. ''No correr dos tempos me passou pela cabeça ver como se fazia um instrumento. Desmontei um violão, vi como era a escala, montei de novo e aprendi a fazer'', conta com simplicidade.
Hoje, faz violão de seis cordas e cavaquinho. Conta que há diferença entre os dois. ''É preciso uma madeira especial, porque cada um tem uma sonoridade. Mas agora você já vê que tem até um tipo de instrumento eletrificado, que não exige uma sonoridade do instrumento, que fica tudo um som só.'' Conta que, quando ainda trabalhava de sapateiro, aprendeu a tocar violão ''de orelhada''. ''Eu via os outros tocar viola e ia induzindo.'' Dito ressalta, no entanto, que sem vocação não há quem aprenda sozinho.
Nessa época começaram a aparecer os primeiros trabalhos, ''um bailinho, uma festinha''. E foi assim, ''no rolamento da vida'', como ele mesmo fala, é que foi ficando conhecido como o Dito do violão.
Ao chegar em Curitiba, ainda trabalhou em uma empresa como eletricista. A empresa faliu, e ele começou a tocar na noite. Um dos primeiros lugares em que tocou foi no Bar do Hermes, um dos mais antigos da cidade. Isso no tempo em que o velho Hermes ainda era o dono do bar. Também tocou no Bar Kapelle e no Estação, também pontos tradicionais da noite curitibana. Acompanhou cantores e compositores que fizeram nome na cidade, como Lucymar Nicastro, Guêgo e o músico Sidail.
Ganhava de R$ 30,00 a R$ 50,00 por noite. Era tão pouco, que quando terminava o trabalho nos bares, esperava sempre uma carona para poder economizar no táxi. ''Eu saía do bar com alguém e quase sempre era o último a chegar em casa. Tinha que esperar que deixassem todo mundo no caminho.'' Apesar de tudo, afirma que conseguiu formar os três filhos só com seu trabalho na noite, embora neste período conta que ''arrebentou muita corda''.
Dito não parou em Curitiba. Tocou muito no Norte do Paraná. Acompanhou gente famosa, como Ângela Maria, Tim Maia, Nelson Gonçalves e Nana Caymmi. Com Nelson Gonçalves, ele conta uma história interessante, que aconteceu em Londrina. O ''metralha'', apelido do cantor devido ao fato de ser gago, ia fazer alguns shows na região, mas acabou tendo um problema e ficou sem violonista. O jeito foi tentar arrebanhar alguém da cidade. Chamaram várias pessoas para ensaiar com Nelson, mas ele não gostou de nenhum. Dizia que ''todos gostavam de inventar durante a música''.
Nessa época, Dito tocava num boteco na cidade. Um amigo veio e contou que Nelson Gonçalves estava sem violonista e perguntou se ele topava fazer um teste para acompanhá-lo nos shows. Dito aceitou. ''Eu cheguei e o Nelson disse: toque ''Negue seu amor, em ré menor'. Eu toquei sem frescura, bem simples, e ele disse: 'É assim que tem que ser, vai fazer o show comigo'''. Ele queria que tocasse sem dissonantes.
Quando Dito estava tocando em Guarapuava, na Pizzaria Van Gogh, o proprietário conhecia uns italianos que estavam montando uma casa de show na cidade de L'Acula, no sul da Itália. Foi em agosto do ano passado, e ele foi convidado para fazer o show de inauguração da casa, a ''Osteria de Pirata'' (Confraria de Pirata). E continuou tocando, fazendo quatro shows por semana. Ganha 150 euros, cerca de R$ 600 por noite. ''Tem todas as despesas pagas, tudo livre.''
Primeiro foi com visto de turista, agora o pessoal da Osteria deve conceder para ele um ''Atestado de Laboro'' para que consiga um visto que permita que fique trabalhado por mais tempo.
Dito diz que o povo lá é hospitaleiro, extrovertido, forte de alegria. Perguntado se já arrumou uma ''galega'' por lá, ele sorri timidamente, dizendo que ''todas eram desafinadas''. Como bom violonista, afinação é apenas uma questão de jeito. Ave, Benedicto!


