PERFIL - As convicções de MARINA COLASANTI
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de agosto de 2007
Vera Fiori<br> Agência Estado 
A escritora, tradutora, jornalista e artista plástica Marina Colasanti completa 70 anos em setembro e, a exemplo da atriz Fernanda Montenegro, não pensa em fazer plástica, usar botox ou outros expedientes estéticos radicais. Sobre o envelhecimento, diz: ''Não é das coisas mais agradáveis, mas não vou mexer na cara.'' Ela não esconde seu espanto com o exacerbado culto ao corpo de homens e mulheres. ''Olho para as revistas femininas e não tenho desejo de comprar. Parece que todas são voltadas à eroticidade. As chamadas dizem: ''seja gostosa'', ''367 opções de jeans para se sentir sexy e mais bonita.''
Os homens não ficam atrás e, segundo ela, estão indo ladeira abaixo com seus implantes de silicone e depilação. ''Beleza virou lei de sobrevivência'', dispara. Conhecida por sua obra literária - mais de 40 livros para adultos e crianças -, Marina também trabalhou por um bom tempo na imprensa. Foram 11 anos no ''Caderno B'', do ''Jornal do Brasil'', e mais 18 como editora de comportamento da revista ''Nova'', na época, dirigida por Fátima Ali. Como os horários eram flexíveis, ela dava expediente como redatora numa agência de publicidade, onde ganhou 20 prêmios.
Como feminista - foi membro do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, de 1985 a 1989 -, acha que, atualmente, faltam discussões sérias e aprofundadas nos meios de comunicação. Na sua opinião, a TV - mídia da qual participou ativamente como âncora e entrevistadora nas décadas de 70, 80 e 90 - oferece programas imobilizantes voltados para o público feminino, com as mesmas receitas culinárias. ''E o que é esse 'Saia Justa' (do canal GNT)? Gosto muito da Mônica Waldwogel. Mas quando vi o programa, me deu vontade de fazer operação de mudança de sexo. É muito burrinho. Ao menos no dia em que assisti, não chegava a nenhuma construção mental. Parecia papo de banheiro de boate.''
Segundo ela, as discussões de gênero, os debates feministas e o engajamento das mulheres em questões políticas e sociais caíram num vazio. O último grande evento foi IV Conferência Mundial sobre a Mulher (Beijing/95). ''Está havendo um grande retrocesso. Algumas completaram o percurso e estão aí no mercado de trabalho, criando os filhos, porém, não se preocupam mais com as questões do todo. Enquanto a legalização do aborto tiver de partir de um homem da Saúde, elas vão continuar fazendo aborto com agulha de tricô.''
Afinal, teriam as mulheres queimado o sutiã para décadas à frente rechearem seus corpos nus de silicone? ''As celebrities que tiram a roupa com facilidade foram lavadas socialmente. Antes eram execradas, hoje a sociedade as inclui. Intelectuais e garotas BBB (egressas do programa global ''Big Brother Brasil'') vão ao mesmo coquetel. Mônica Velloso, a jornalista que viveu um romance com o presidente do Senado, logo será convidada para posar nua.''
Leitora precoce - Desde pequena, Marina é apegada aos livros. Seu pai tinha espírito nômade e, assim, ela e seu irmão, o ator Arduíno Colasanti, viajavam um bocado pelo mundo e tinham na literatura excelente companhia. ''Aos 7, 8 anos, ganhei uma coleção de clássicos adaptados para jovens. Foi quando li, fascinada, 'Odisséia', 'D. Quixote', 'As Viagens de Gulliver', e os mitos gregos, que aparecem nos meus minicontos.'' No livro ''Fragatas para Terras Distantes'' (Record), a autora menciona, ainda, Mark Twain, Stevenson, Edmondo de Amicis e Emilio Salgari, autor italiano de livros de aventura.
Segundo ela, a sua infância foi bem diferente da de pessoas comuns. Em vez de ir à escola, ela e o irmão iam com outras crianças à casa da professora tomar aulas. Filha de pais italianos, ela nasceu em Asmara, Etiópia (atual Eritréia), para onde seu pai havia ido lutar. Depois a família seguiu para Trípoli, na Líbia e, em seguida, para a Itália. Quando tinha 10 anos, fixou morada no Rio de Janeiro, onde cursou Belas Artes, com aperfeiçoamento em gravura e metal. ''Queria ser independente e fui parar na redação do 'Jornal do Brasil'. Trabalhei como repórter durante um mês e meio, e logo me garfaram para a redação. Fui cronista, colunista, ilustradora, editora, sub-editora e também editora do caderno infantil.''
Sobre os tempos de jornal diário, uma passagem curiosa. Era Marina quem recebia as crônicas de Clarice Lispector. ''Ela recomendava muito cuidado com os papéis que enviava, porque não tinha cópia. Tinha medo de perder aqueles fragmentos, porque ela os encaixava na estrutura dos seus romances.''
Marina e seu marido, o escritor Afonso de Romano Sant'Anna, eram amigos de Clarice. Uma vez, o casal conheceu uma cartomante fantástica no Méier, subúrbio carioca, e Clarice quis conhecê-la. ''As duas passaram a conversar, e a cartomante virou um personagem que existe em ''A Hora da Estrela'', Dona Nadir, que, no filme (de Suzana Amaral), foi interpretada por Fernanda Montenegro'', revela, referindo-se a um dos livros mais conhecidos da escritora. Por sinal, Clarice, avessa a entrevistas, concedeu em 1976 um longo depoimento ao casal de escritores, que foi gravado no Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro.


