PERFIL - Arte com todas as letras
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de outubro de 2003
Ana Setti Rosa<br> Reportagem Local 
Paranaense de Santa Mariana, mas fortemente ligada à província espanhola de Andalucía, de onde se origina sua família, Neusa Montoya envolve-se com arte há 35 anos, embora há apenas três tenha montado a galeria e loja, hoje no Shopping Catuaí, em Londrina, que leva seu nome e exibe como subtítulo a expressão ''arte assinada''. Mais do que um recurso de marketing, a expressão revela um conceito de arte ou uma compreensão do que é ser artista numa época ''de banalização''. Como afirma Neusa, ''pelo menos metade do número de pessoas que se diz artista ainda não entendeu que esse é um dom inato, algo que nasce com a pessoa''. Ninguém vai ser artista plástico na vida, segundo acredita, pois ''o artista é''. Ela mesma, que convive intensamente com esse mundo, especialmente por ser casada com o pintor, gravurista e designer Erick Araujo, há mais de 30 anos, não se tornou uma artista por causa disso. Muita gente, no entanto, ''que fez um cursinho básico na loja onde compra material de pintura ou pinta, por hobby, no fim de semana'' classifica-se dessa forma, como demonstram, de acordo com seus cálculos, ''as 10, 15 pessoas por dia que me procuram para saber como expor seus quadros aqui''.
''Fica complicado trabalhar dessa forma'', conclui, particularmente num país em que a difícil situação sócio-econômica acaba gerando expectativas ilusórias, como ''vou virar artista e ficar rico e famoso'', exemplifica. O mundo da arte é mais complexo do que aparenta, já que ''para quem é artista, a arte se torna sua própria essência de vida'' e, seja qual for a barreira encontrada no caminho, ''vai continuar pintando''. Para essa marchand de gosto requintado, que se preocupa em aproximar o artista de seu público, promovendo ''performances'' no corredor do shopping, como aconteceu com o pintor Marcos Leal, de Caxias do Sul, em 2002, e com outro gaúcho, de Porto Alegre, o escultor Maia, em agosto deste ano, a formação é tão essencial quanto a observação. ''Todo artista se espelha em algum outro lá atrás'' e ao ver e rever muitas vezes suas obras e as de outros mestres ''irá sempre encontrar algo novo e aprender um pouco mais''. Citando uma reflexão de seu marido, complementa: ''o mundo evolui por meio da observação''.
Sempre atenta e conectada às mais variadas expressões artísticas, Neusa viaja muito, procurando observar e vivenciar diferentes experiências. Formada em Letras e com pós-graduação em Literatura pela Universidade de São Paulo, participou ativamente do Movimento de Arte e Pensamento Ecológico, que fincou raízes no Brasil na década de 70, vindo da Europa, pela ação de artistas como Aldemir Martins, Burle Marx e Manabu Mabe, entre outros grandes mestres das mais diversas áreas. Foi um tempo de luta e conscientização, marcado por grandes ''happenings'' como uma exposição na Cetesb, realizada em 1975, quando seu marido Erick apresentou uma tela, cuja metade havia sido mergulhada no rio Tietê e trazia resíduos da poluição já em marcha desde aquela época.
A origem espanhola e o profundo conhecimento sobre artes levaram-na, nos anos 80, ao posto de Adida Cultural de Andalucía, vinculado à embaixada da Espanha, em Brasília, e à Secretaria de Cultura de Sevilha, capital da província. Entre outras atividades relacionadas ao cargo, esteve por vários períodos na cidade de Granada, estudando a cultura flamenca, para, mais tarde, poder organizar espetáculos da dança andaluza em inúmeras cidades do Brasil, inclusive Londrina. ''Em 1996'', conta Neusa, ''trouxe o Balé de Sevilha para uma apresentação no Ouro Verde''. O sucesso foi tanto que o evento, programado para uma única noite, precisou ser reapresentado em outras duas, tendo como palco locais abertos, como a Praça de Eventos do Catuaí e o Zerão, para que pudesse ser apreciado por ''mais de 15 mil pessoas''.
Neusa também esteve um tempo em Los Angeles, nos EUA, acompanhando Erick, que se especializava em litografia no ateliê Tamarind, tornado famoso pela presença de artistas como Andy Warhol, Frank Stella e Jasper Jones, e patrocinado pela Ford. A indústria automobilística apoiava financeiramente os artistas, exigindo em contrapartida que fizessem uma atualização constante e sutil da grafia de sua logomarca, de forma a mantê-la sempre moderna sem que o público percebesse qualquer mudança. Não é à toa, portanto, de acordo com Neusa, que essa marca tão conhecida parece nunca envelhecer.
Parcerias assim, em sua opinião, mostram a importância do patrocínio para a arte, porque a maior dificuldade do artista, como explica, ''é conseguir dinheiro para sobreviver e investir em seu trabalho''. Contudo, quando a banalização se instala, e ''muitos aventureiros aparecem no mercado, fica complicado vender arte''. Diante dessa dificuldade e pensando na sobrevivência, Neusa optou pela diversificação, oferecendo, além de pinturas e esculturas de artistas de todo o Brasil, inclusive de Londrina, como as pintoras Udhi Jozzolino e Mariana Galera, objetos de interiores, feitos por designers. Outra de suas inciativas foi dar ao público a oportunidade de interagir com o artista, de vê-lo criando e de sabê-lo disponível para esclarecimentos sobre sua arte, como aconteceu com Marcos Leal e Maia e, agora, na chegada da Primavera, vai se repetir com Erick Araujo. É também uma forma de contribuir para um processo de educação, que embasa seu desejo de que ''o país se torne culto o suficiente para saber separar o joio do trigo em termos de arte''.


