PERFIL - A incansável madrinha do samba


Mônica Manir Agência Estado
Mônica Manir Agência Estado

É segunda-feira, e ela foi trabalhar. Porque Beth Carvalho não sossega, nem quando o corpo pede um trago de descanso. Com a mão na anca esquerda, no ritmo de quem sofre de estenose, artrose no fêmur e uma recém-operada hérnia de disco, ela sobe a passos miúdos a delicada rampa do Renascença Clube. É nesse reduto do Andaraí, zona norte do Rio, que se firmou o Samba do Trabalhador, a única roda de samba carioca de segunda-feira.
O Renascença tem a marca do singular desde a fundação, em fevereiro de 1951, quando se propôs a acolher, intelectual e culturalmente, negros que não podiam frequentar nichos brancos. Na década de 60, o clube promoveu o primeiro concurso de miss para mulheres negras e saiu-se com Vera Lúcia Couto, mais tarde a primeira afro-descendente a ganhar o Miss Guanabara. Na de 70, lançou atores com a montagem de ''Orfeu Negro'', uma adaptação do ''Orfeu do Carnaval''.
Na de 80, realizou o primeiro festival de pagode do Rio de Janeiro. Na altura de hoje, oferece especialmente essa roda de samba às segundas, sob o comando do cantor e compositor Moacyr Luz. Moacyr é um apadrinhado de Beth, que gravou seu ''Saudades da Guanabara.'' Lá está ela para dar bênçãos. Amadrinhar, enfim.
Porque Beth Carvalho gosta é disso: de garimpar e projetar talentos do samba. Que o digam Jorge Aragão, Almir Guineto, Luiz Carlos da Vila, Gracia do Salgueiro, Sombrinha, Arlindo Cruz, Quinteto em Branco e Preto, Zeca Pagodinho. ''Lembro do Zeca magrinho, indo pro Fantástico gravar comigo ''Camarão que Dorme a Onda Leva'', o cavaco dentro de uma sacola de supermercado.'' No ''Samba do Trabalhador'' a cantora já evoca ''Folhas Secas'', de Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho, sob palmas e uma chuva de máquinas digitais e celulares com câmera. Foi pensar em folhas secas caídas de uma mangueira que ela lembrou da Estação Primeira e do impasse no desfile da escola.
Beth, madrinha da ala de compositores da Mangueira, pediu para sair num carro alegórico, qualquer carro, um tripé que fosse, já que sua coluna não sustenta um trajeto a pé pelos 650 metros da Sapucaí. A escola hesitou, e ela se queixou às rosas do tratamento despendido pela verde-e-rosa. ''Eu sou uma personalidade na Mangueira, não preciso estar fantasiada nem nada, eu sou Beth Carvalho na avenida.'' Sambista foi excluída do desfile e, aos prantos deixou a avenida causando comoção e indignação de muita gente. O episódio, diz, foi superado com um pedido de desculpa oficial da diretoria da escola.
Em 41 anos de carreira, Beth nunca temeu botar a boca no microfone quando sentiu necessidade. Um pouco por criação, um pouco por índole, ela absorveu o samba como ato político. A demissão de seu pai, funcionário público acusado de subversão devido a uma antiga amizade com Luís Carlos Prestes, desconjuntou as contas da família e fez estrilar na garota da zona sul a vontade de participar da resistência.
Além disso, seu primeiro berço foi a Gamboa, caroço do samba. ''Na verdade, nasci na Pró-Matre de Gamboa'', corrige. Elizabeth Santos Leal de Carvalho foi criada no Catete, em Laranjeiras, na Urca, em Botafogo, Leblon, São Conrado, sentiu o cheiro de uísque do bom, ganhou o bronze de Ipanema, teve aulas de balé clássico, banhou-se na maré da Bossa Nova, mas não podia ver um pandeiro e um negro que ia atrás.
Carnaval, então, parecia congênito. Passava o fevereiro na casa da avó, onde dividia a cama-beliche com a empregada para curtir os 40 pré-carnavalescos da Tijuca. Alugava um caixote na Avenida Rio Branco para ver a Mangueira desfilar. Então subiu o morro cantando... e aí ficou difícil descer.
A exceção eram os festivais da Record, da Tupi, da Excelsior. No Internacional da Canção levou o terceiro lugar com ''Andança'', de Paulinho Tapajós, Danilo Caymmi e Edmundo Souto, toada com certa influência de Milton Nascimento. Sua voz melodiosa e o braço esquerdo ao alto se espalharam na mídia, e Beth usou o passaporte para levar o morro junto. Daí a fama de madrinha.
A fama de esquerdista/nacionalista é tão verdadeira quanto. Acha que o mundo perdeu muito com a morte de Brizola, mas restaram Fidel, de quem ficou amiga numa das três vezes que foi a Cuba, e Chávez. ''É o maior líder mundial, um homem corajoso, que ama seu povo, e a Venezuela inteira é apaixonada por ele. Queria que Chávez fosse meu presidente.'' E continua, a cabeleira ruiva em revolução: ''O samba ainda sofre preconceito, mas ele é a nossa resistência contra o desamor e a injustiça''
Nesse espírito, quer gravar um disco com título já mastigado: ''Beth Carvalho canta as músicas revolucionárias latino-americanas'', talvez com patrocínio de Chávez e Petrobras. Um musical na TVE, em que receberia compositores ''sem playback'', é outro projeto na gaveta. À venda está o DVD do show antológico realizado no Theatro Municipal do Rio em dezembro de 2005 para comemorar seus 40 anos de carreira e o Dia Nacional do Samba. Inspirada pelos ''Tempos Idos'', de Cartola e Carlos Cachaça (''O nosso samba, humilde samba / Foi de conquistas em conquistas / Conseguiu penetrar no Municipal / Depois de percorrer todo o universo''), Beth levou velhas e novas guardas para o teatro. Repetiu a dose em 2006, homenageando Nelson Cavaquinho e os chorões, mas ainda não teve como editar o material.
Antes disso, baixou um Ogum com a fraca cotação do samba na Bahia. Beth então reuniu, no ano passado e sob a tradição do Teatro Castro Alves, em Salvador, ilustres como Caetano, Gil, Bethânia, Brown, Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Margareth Menezes, Riachão, Armandinho e Mariene de Castro (''Bota aí, essa moça é um sucesso, não sou chamada de madrinha à toa''). Beth trabalhou como formiga no resgate das origens. Pediu às dançarinas, por exemplo, que substituíssem os piercings da orelha por argolas douradas, e o ''tá, tchi, tá, tchi'' do samba carioca pelo ''chi, chi'' do samba de roda, mostrando na ginga dos pés uma diferença impossível de reproduzir aqui, mas que determinou que umas moças ficassem e outras dançassem.
A Bahia retribuiu o carinho e instituiu o samba como tema deste Carnaval. Na última quinta-feira, Beth abriu o evento no Bloco Alerta Geral - sobre o trio elétrico, obviamente. E cantou ''Vou Festejar'', obviamente. A música de Jorge Aragão, Dida e Neoci, do bloco Cacique de Ramos, foi composta para o desfile de 1977 sem reverberação alguma.
Beth assumiu a canção para si e a disseminou ad extremum. Prova foi o show do ano seguinte, em São José dos Campos, interior de São Paulo, quando as mulheres usaram seus sapatos feito matracas para cadenciar o verso ''vo-cê-pa-gou-com-tra-i-ção-a-quem-sem-pre-lhe-deu-a-mão''. Beth Carvalho faz parte da história cultural brasileira, alguém duvida?

Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito

Tudo sobre:

Últimas notícias

Continue lendo