Perfeitas imprecisões
Perfeitas imprecisões
Egidio Brizola
Quatro frases do jornalismo da TV precipitam estas novas perfeitas imprecisões, uma catação feita aqui e ali do que se ouve ou se lê. Direto do Rio, um repórter da Globo relatava um acidente num apartamento que ficou calcinado depois da explosão de um diacho qualquer de aparelho. Entusiasmado e com o pé no monturo produzido, ele afirmou dramaticamente: A explosão arrancou janelas e até pedaços inteiros de concreto.
Talvez ele estivesse sonhando com alguma metafórica metade de pedaço. No dia seguinte, colega do SBT não deixou por menos: O golfe é um esporte criado em tal lugar, em 1800, e que tem mais de 30 regras diferentes. Quem sabe este aspire a um esporte com mais de 30 regras... iguais, para que possa praticar sem se atrapalhar. Aí foi a vez de uma repórter de Londrina, da Rede Bandeirantes dizer: ... o proprietário fez um poço de 10 metros de altura. Queria dizer profundidade.
O último seria mais um cochilo, que não deixa de ser uma perfeita imprecisão. Entrevistando Zagallo sobre os 50 anos do treinador dentro do futebol, o repórter da Globo achou que ia abafar com uma citação. Disse: Para definir o que foi todo este tempo, Zagallo usa o título de um filme. E corta para Zagallo afirmando: Sangue, suor e lágrimas.
Filme? Pesquisei, mas não localizei. Apelei para um especialista. Carlos Eduardo Lourenço Jorge consultou compêndios internacionais confiáveis, e não achou nenhum filme com esse nome. Foi mero chute. Mas se queria passar por ilustrado, o repórter deveria ter citado corretamente o autor da frase, Winston Churchill (como premier, ele prometeu aos britânicos, na Segunda Guerra, nada mais do que blood, sweet and tears). Calculo outro risco: se tivesse pensado em inglês, o repórter muito provavelmente teria atribuído a frase ao nome de uma certa... banda de rock.
Gente que fala assim é a mesma que se refere a preço da tarifa, confunde divisa, fronteira e limite, entre estados, países e municípios; arregala os olhos diante de preço caro, escreve um dos que foi, gosta de um tal de totalmente destruído ou de um parcialmente atingido; afirma que está a caminho a solução do problema, chama Antonio Belinati de prefeito da cidade, indica um pequeno detalhe. É gente que não acerta nem na parecença.
É duro ouvir ou ler que qualquer monte de coisas é uma parafernália, quando o termo é exclusivo para um monte de coisas pessoais, ou deparar com a classificação de tecnologia de ponta para qualquer tecnologia, quando isso significa exclusivamente tecnologia detida por quem fabrica máquinas que vão fabricar aparelhos.
O problema é que o (mau) uso corrente esculhamba o significado preciso de palavras e expressões, na calda comum que virou o noticário. Realmente é difícil eliminar um protestar contra, um lutar contra. Cabe o manifesto do descontentamento que, no meu caso, é sustentado pelo previlégio (sic) de simples escrivinhador - e catador de lixo nas horas de folga.
Mesmo assim, prossigo pela vida achando indigerível ouvir que bancos têm produtos (produto é privilégio de indústria), que o time tal está fazendo os últimos preparativos ou inicia preparativos para a fase final do campeonato. Certamente garantido pela soma geral dos seus pontos.
E como não se descortina para o estupro do vernáculo uma solução definitiva ou mesmo uma solução parcial que possa desencadear em seguida um resultado final ou mesmo um resultado parcial, cabe-me partir do princípio de que o esforço particular meu é inofensivo e só vale como registro-anedota.
Diante do exposto e já perto do tenho dito, resta-me observar a triste insistência do pasteurizado cotidiano pelo assalto à mão armada em que o filho matou o pai, num caso horripilante que amanhã ou depois pode exigir uma exumação do corpo para um check-up completo, de acordo com o que diz o noticiário. Leio também que fulano não mais corre risco de morte em outro caso. Numa revista médica, trombo com o título: Medicina de excelência em cidade-vilarejo.
Mas nem só a imprensa geral é caricata em desancar o idioma. A propaganda também desova das suas e colabora. Naquele comercial de ração para cães e gatos, a voz dizia que o produto era cem por cento completo. E o locutor daquele outro, da VW, mostra ao consumidor o preço da prestação. Uau!





