No papel de garota-propaganda, a atriz Débora Bloch fala bobagem num anúncio institucional do Ministério da Educação: ‘‘Vocês sabem quantas escolas já têm sistema de TV no Brasil?’’. E responde, ‘‘maravilhada’’, alongando as belas sobrancelhas: ‘‘Milhares e milhares...’’ Ela ainda aparece ao lado de uma caixa com as inscrições ‘‘vídeo’’ e ‘‘televisão’’. O aparelho é televisor. E ademais, pergunta: ‘‘Eu adorei! E vocês, pessoal?’’.
‘‘Milhares e milhares’’ é uma horrorosa imprecisão, mas a salada amarga de pronomes, pessoas, verbos e sujeitos malcombinados também é indigesta em qualquer caso. No de um comercial do MEC, então, é um imperdoável. Mas o Telecurso 2000 da Rede Globo também já deu sua ‘‘colaboração’’. Num anúncio recente, o apresentador perguntava: ‘‘E você? Sabe como trabalhar com esses materiais?’’.
‘‘Materiais’’ também é uma aberração. Coletivo pluralizado pela ignorância do falar diário, o termo acabou desaguando, admitido, no Dicionário Aurélio há uns 15 anos. Mas continua errado. ‘‘Materiais de construção’’, por exemplo, é uma cacetada. E há quem duplique a imperfeição falando e escrevendo ‘‘materiais de construções’’.
Por outros motivos, o professor Pasquale Cipro Neto, de São Paulo, é crítico do Aurélio. O Aurélio já foi o pai da matéria, o pai dos burros e hoje é quase pai sem filho. Manteve, por exemplo, a palavra ‘‘fôrma’’ quando todos os acentos diferenciativos - com exceção a ‘‘pôde’’ - foram abolidos. Pasquale está ficando famoso pela sua luta contra a ignorância no programa ‘‘Nossa Língua Portuguesa, da TV Cultura’’ - e também pelo seu comercial do McDonald’s. Há duas semanas, foi páginas amarelas da Veja.
Temos um herói no ramo, afinal, e que não erra raquetada. Pasquale está democratizando o ensino do idioma, popularizando a difícil e sofisticada língua portuguesa - ‘‘língua brasileira’’ é uma bobagem. Não é um chato. Pelo contrário. Ensina de forma simpática, agradável. Concorda com algumas coisas da linguagem corrente, mas é devidamente intolerante com a desagregação de pronomes e outras idiotices, como ‘‘a nível de’’, ‘‘a princípio’’, ‘‘um chopis e dois pastel’’, ‘‘que suicidou-se’’, ‘‘pelo Brasil afora’’, ‘‘deparei-me com’’, ‘‘20% da população vão’’, ‘‘os únicos que’’, ‘‘a partir do ano passado’’.
Outro dia, num programa da Globo, revelou-se que o professor Pasquale também é consultor dos jornalistas daquela emissora. Depois da entrevista com ele, a repórter Renata Ceribelli sentiu o gosto ruim de uma imprecisão por não ter aprendido o básico da estrutura do idioma. Perguntou como tinha ido, se tinha errado alguma coisa (na entrevista).
E Pasquale respondeu na lata: ‘‘Sim. Você me perguntou se fulana é uma das que erra menos... E o certo é se fulana é uma das que erram menos’’. Bingo. Viva Pasquale.

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