Perfeitas imprecisões
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de setembro de 1997
Egidio Brizola Londrina 
No papel de garota-propaganda, a atriz Débora Bloch fala bobagem num anúncio institucional do Ministério da Educação: Vocês sabem quantas escolas já têm sistema de TV no Brasil?. E responde, maravilhada, alongando as belas sobrancelhas: Milhares e milhares... Ela ainda aparece ao lado de uma caixa com as inscrições vídeo e televisão. O aparelho é televisor. E ademais, pergunta: Eu adorei! E vocês, pessoal?.
Milhares e milhares é uma horrorosa imprecisão, mas a salada amarga de pronomes, pessoas, verbos e sujeitos malcombinados também é indigesta em qualquer caso. No de um comercial do MEC, então, é um imperdoável. Mas o Telecurso 2000 da Rede Globo também já deu sua colaboração. Num anúncio recente, o apresentador perguntava: E você? Sabe como trabalhar com esses materiais?.
Materiais também é uma aberração. Coletivo pluralizado pela ignorância do falar diário, o termo acabou desaguando, admitido, no Dicionário Aurélio há uns 15 anos. Mas continua errado. Materiais de construção, por exemplo, é uma cacetada. E há quem duplique a imperfeição falando e escrevendo materiais de construções.
Por outros motivos, o professor Pasquale Cipro Neto, de São Paulo, é crítico do Aurélio. O Aurélio já foi o pai da matéria, o pai dos burros e hoje é quase pai sem filho. Manteve, por exemplo, a palavra fôrma quando todos os acentos diferenciativos - com exceção a pôde - foram abolidos. Pasquale está ficando famoso pela sua luta contra a ignorância no programa Nossa Língua Portuguesa, da TV Cultura - e também pelo seu comercial do McDonalds. Há duas semanas, foi páginas amarelas da Veja.
Temos um herói no ramo, afinal, e que não erra raquetada. Pasquale está democratizando o ensino do idioma, popularizando a difícil e sofisticada língua portuguesa - língua brasileira é uma bobagem. Não é um chato. Pelo contrário. Ensina de forma simpática, agradável. Concorda com algumas coisas da linguagem corrente, mas é devidamente intolerante com a desagregação de pronomes e outras idiotices, como a nível de, a princípio, um chopis e dois pastel, que suicidou-se, pelo Brasil afora, deparei-me com, 20% da população vão, os únicos que, a partir do ano passado.
Outro dia, num programa da Globo, revelou-se que o professor Pasquale também é consultor dos jornalistas daquela emissora. Depois da entrevista com ele, a repórter Renata Ceribelli sentiu o gosto ruim de uma imprecisão por não ter aprendido o básico da estrutura do idioma. Perguntou como tinha ido, se tinha errado alguma coisa (na entrevista).
E Pasquale respondeu na lata: Sim. Você me perguntou se fulana é uma das que erra menos... E o certo é se fulana é uma das que erram menos. Bingo. Viva Pasquale.


