"Perdoa-me por Me Traíres" a preços populares em ensaio aberto neste fim de semana
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quarta-feira, 30 de junho de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 01 (AE) - A montagem de "Perdoa-me por Me Traíres", de Nélson Rodrigues, com a companhia Círculo dos Comediantes, conseguiu em sua estréia há cinco anos o feito raro da aprovação de público, crítica e da exigente família do dramaturgo. Dirigida por Marco Antônio Braz, ficou quase dois anos em cartaz, atraindo perto de 30 mil espectadores. O espetáculo foi o escolhido para reabrir oficialmente a temporada do Teatro de Arena, agora sob direção artística de Braz e Sérgio Ferrara, vencedores da concorrência aberta com a saída da Cia. do Latão do espaço administrado pela Funarte.
"Perdoa-me por Me Traíres" terá ensaios abertos neste fim de semana a preços populares, antes da estréia oficial no dia 9. A montagem volta com algumas modificações no elenco e deve livrar-se assim de um dos poucos motivos de polêmica na montagem anterior, a utilização de uma atriz num dos principais papéis masculinos, o tio Raul, que desta vez será interpretado por Jair Assumpção. Definida pelo autor como "tragédia de costumes", a peça começa com a cena de duas colegiais, Glorinha (Patrícia Gordo) e Nair (Virgínia Buckowski), que discutem diante de um bordel, a primeira indecisa se entra ou não, temerosa de que seu tio Raul descubra a estripulia.
O bordel pertence a Madame Luba, uma cafetina especializada em "fornecer" meninas das melhores famílias para sua clientela de deputados e catedráticos, homens de prestígio citados na imprensa como "reserva moral da sociedade". No bordel, desfilam figuras grotescas como o dr. Jubileu de Almeida
um catedrático que só consegue excitar-se dizendo um "ponto de física". Já em casa, Glorinha ouve do tio a verdade sobre seus pais, Judite (Adriana Pires), que morrera quando ela ainda era criança, e seu pai Gilberto (Sílvio Restiffe), um homem enlouquecido de ciúmes, autor da frase que dá título à peça.
A montagem anterior dirigida por Braz tinha como cenário um longo corredor pelo qual transitavam os atores numa encenação despojada, com poucos elementos cênicos, entre eles uma cadeira de rodas, uma taça e uma bengala. Os elementos foram mantidos, mas muita coisa muda na atual montagem. "O espaço, agora na forma de arena, foi determinante nessas mudanças", afirma Braz. Segundo o diretor, o espetáculo estará muito melhor no Arena. "Antes o espetáculo era muito visceral, até mesmo gritado em alguns momentos", lembra. "O espaço reduzido e no formato Arena obrigou-nos a ser mais técnicos, provocou um amadurecimento da linguagem e permitiu sussurros, um passeio sobre inflexões antes ignoradas", afirma.
Outra transformação importante vem do fato de o personagem do tio Raul ser interpretado por um homem. "Uma figura masculina e, o mais importante, com a idade do personagem
trouxe muito claramente para a cena a hipocrisia nacional simbolizada no tio Raul". Por que então escolheu uma mulher para interpretá-lo anteriormente? "O desejo declarado do tio pela sobrinha provoca uma aversão muito forte, a aversão pelo incesto, que não poderia ser reproduzida no palco a não ser com um ator da idade do personagem", argumenta. "Na falta de um, o beijo entre duas mulheres acabava por provocar o mesmo efeito". Universo familiar - Aborto, assassinatos, incestos, personagens degradados, no limite da caricatura. O difícil universo de Nélson Rodrigues é bastante familiar ao tijucano Braz, que escolheu "O Beijo no Asfalto" em sua primeira direção, ao formar-se em teatro na Universidade do Rio, numa montagem considerada excelente pelos herdeiros do autor. Depois de mudar-se para São Paulo onde integrou o CPT de Antunes Filho por dois anos, atuando como assistente de direção em "Trono de Sangue - Macbeth", Braz montou "Perdoa-me" em São Paulo e, ano passado, "Boca de Ouro", no Rio. "Tenho vontade de montar todas as 17 peças de Nélson", diz. Foi esse desejo que o ajudou a ganhar a concorrência para dirigir o Arena por um ano, em parceria com Sérgio Ferrara. O projeto de ambos é levar ao palco do Arena todas as peças de Nélson Rodrigues e Plínio Marcos, seja em montagens ou em leituras dramatizadas. Serviço - "Perdoa-Me por Me Traíres". Ensaio Aberto. De Nélson Rodrigues. Direção de Marco Antônio Braz. Com Jair Assumpção, Patrícia Gordo, Virgínia Buckowski, entre outros. Duração de 1h30. Amanhã e sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 3 00. Teatro de Arena Eugênio Kusnet. Rua Teodoro Baima, 94, tel. 256-9463.


