Perdidos na noite do Brasil
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 06 de novembro de 1998
Zeca Corrêa Leite 
A tragicidade sangrenta de cada dia entorpeceu corações e mentes. Assim sendo, a vulgaridade da dor e da morte tornou-se o grande desafio a ser enfrentado pela peça Dois Perdidos Numa Noite Suja, de Plínio Marcos, em cartaz no Teatro José Maria Santos, para uma temporada de apenas duas semanas.
No elenco estão Bino Gomes e Paulo Putto Monteiro, vivendo respectivamente Tonho e Paco. A direção é de Edson Bueno. Produzida com recursos da Lei de Incentivo, deveria reinaugurar o Teatro da Caixa, pertencente à Caixa Econômica Federal, mas depois de sucessivos atrasos nas obras, os ensaios foram abandonados. Reensaiamos tudo de novo, conta Gomes.
Os atores optaram por este espetáculo pela possibilidade de trabalharem juntos, e pela força que o texto mantém, mesmo tendo sido escrito há 33 anos. O embate entre dois homens numa noite sórdida é o fiel retrato do Brasil, País onde se mata por R$ 5,00 ou por um par de tênis, como diz Monteiro. As cores amenas da televisão são só cenário de telenovela; a miséria aumenta a cada dia.
Esse entendimento da equipe tornou a montagem seca, sem qualquer vislumbre de amenidades ou poesia. Começa e termina ao som de A Voz do Brasil. O diretor Edson Bueno concebeu uma encenação como se fosse quase um documentário levado ao palco. Tenho um jeito de olhar Plínio Marcos sem poesia. Ele tem uma dor absoluta pela condição marginal, pela forma cruel da relação dos homens, que sempre se dá de forma sado-masoquista.
Toda vez que lê o dramaturgo, Bueno enche-se de vontade de encenar suas peças nos locais onde aquilo se passa, dando cor e cheiro à crueza da arte. Se pudesse transportava Dois Perdidos Numa Noite Suja para um hotel de última categoria, perto da Rodoviária, cheio de baratas. De qualquer modo o cenário sujo e cru no Teatro José Maria Santos, assinado por Alfredo Gomes, dá ao espectador o impacto que a peça pede.
O que está no palco é exatamente o que será usado pelos atores, explica o diretor. A linha de trabalho que ele tomou para a montagem é a da representação hiper-realista. Não poderia seguir a naturalidade porque a peça é um grito de dor saindo da garganta dos personagens, fala. E se tem os acordes de O Guarani, de Carlos Gomes, prefixo de A Voz do Brasil, abrindo e fechando a cena, é para não deixar margem de dúvidas, segundo Bueno:
- Este Brasil aqui do palco, está ali fora. Se estou vivendo nele é por opção. Nada mais que isso.


