Perdas e danos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de junho de 2018
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 

Angústia. Desespero. Desalento. Desconsolo. Não é difícil imaginar as decorrências do desaparecimento de uma criança para um pai e uma mãe. A criança desaparecida assume a forma de um enorme buraco, um vazio intransponível, uma nebulosa aflição.
Em seu novo romance, "A Criança no Tempo", o escritor inglês Ian McEwan mergulha nesse desconsolo, nesse desespero, nesse desalento. Narra a história de um pai que, diante do desaparecimento da filha de três anos de idade, entra em parafuso total.
Stephen, personagem principal do romance, é um bem-sucedido escritor de livros infantis. Casado com Julie e pai de Kate, leva uma vida próspera e pacata. Um belo dia, enquanto espera com Kate na fila do caixa do supermercado, a menina simplesmente desaparece.
Durante um pequeno lapso de tempo, a menina de três anos de idade vira fumaça. Sem nenhuma explicação lógica, a criança desaparece do nada em pleno supermercado. Stephen e a esposa passam a viver uma eterna busca que se prolonga por dias e semanas.
Com o passar dos meses, pai e mãe passam a conviver, cada um a seu modo, com a ferida incurável. De maneira isolada, cada um cultiva sua própria dor. Em poucos meses não conseguem mais conviver sob o mesmo teto. Cada um segue seu caminho na tentativa de sobreviver ao desaparecimento da filha. O casamento desaba.
Lançado esta semana pela editora Companhia das Letras, "A Criança no Tempo" revela como um fato traumático pode desencadear a falência da razão. Diante de um fato inexplicável, uma criança desaparecida sem nenhuma informação, Stephen percorre os corredores da culpa e da letargia existencial. Em outras palavras, um acontecimento que não pode ser explicado nunca pode ser compreendido. E tudo se complica diante da constatação de que Kate nunca será encontrada.
Nesse ambiente de desrazão, Ian McEwan insere uma trama que envolve o processo educacional das crianças. Isso porque Stephen integra uma comissão governamental de novas diretrizes educacionais. Ao mesmo tempo em que procura tapar o buraco do desaparecimento da filha, atua como consultor para criar um novo plano estatal de educação infantil.
Com o tempo descobre que o plano, na realidade, esconde outro plano governamental que pretende ditar padrões e normas rígidas na educação das crianças. Para exemplificar, o autor insere em cada abertura de capítulo citações do "Manual Autorizado de Puericultura" do HMSO britânico.
O grande toque de Ian McEwan em "A Criança no Tempo" está em mostrar que para superar uma perda que jamais poderá ser reparada, pai e mãe entram de cabeça na missão de curar as pessoas, o governo, o país, o planeta, enfim, tudo e todos. E nesse processo, se esquecem de curar a si mesmos.
Além de "A Criança no Tempo", a Companhia das Letras também está colocando nas livrarias "Meu Livro Violeta, livro de Ian McEwan que reúne um conto e um libreto. O conto que dá título ao volume narra a história daquilo que seria o crime perfeito: um escritor falsifica toda uma tradição literária, sem nenhum tipo de escrúpulo, para superar outro escritor. O libreto "Por Você" traz o texto de McEwan para a ópera de Michael Berkeley, uma história de amor e traição envolvendo o clássico médico de família.
Ian McEwan é um dos grandes escritores ingleses da atualidade. Nascido em 1948, possui mais de 20 romances publicados. Uma das características de sua literatura está em trabalhar com abordagens diferenciadas em cada uma de suas obras. No Brasil, entre seu 12 livros publicados, destacam-se "Reparação" (2002), "O Inocente" (2003) "Sábado" (2005), "Na Praia" (2007), "Solar" (2010), "Amor Sem Fim" (2011), "Serena" (2012) e "A Balada de Adam Henry" (2014).

Serviço:
"A Criança no Tempo"
Autor Ian McEwan
Editora Companhia das Letras
Tradução Jorio Dauster
Páginas 288
Quanto R$ 59,90
"Meu Livro Violeta"
Autor Ian McEwan
Editora Companhia das Letras
Tradução Jorio Dauster
Páginas 128 (capa dura)
Quanto R$ 44,90


