PERDA A vanguarda de luto
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sexta-feira, 13 de junho de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Luto na MPB. O cantor e compositor Itamar Assumpção morreu anteontem à noite, aos 53 anos, vítima de câncer no intestino. Ele estava em casa, ao lado da família, quando seu coração parou de bater.
Há 4 anos fazia tratamento da doença. Nas últimas temporadas, preparava a publicação de um livro e a gravação de um novo álbum, o segundo volume da trilogia ''Pretobrás''. Rotulado de ''maldito'', ele percorreu a saga dos artistas independentes após despontar no começo da década de 80 ao lado do amigo e parceiro Arrigo Barnabé com quem participaria de festivais e da chamada ''vanguarda paulistana''.
Deixou uma obra de quilate cuja importância ainda não foi devidamente avaliada. Com um pé na tradição e outro na contemporaneidade, imprimiu sua marca em letras inspiradas e canções que fundiam funk, samba, reggae e rock. Em suas últimas entrevistas, dizia que gravaria um rap no novo trabalho. Ao longo da carreira, fez parcerias com os poetas Paulo Leminski e Alice Ruiz, além de ter composições gravadas por Cássia Eller, Rita Lee, Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Chico César, Ná Ozetti, Tetê e Alzira Espíndola.
No final dos anos 80, começou a fazer shows na Europa, principalmente na Alemanha, onde tem alguns de seus discos lançados. Bisneto de escravos angolanos, Itamar cresceu ouvindo os batuques do terreiro de candomblé no quintal de casa, em Tietê (SP). Chegou a cursar até o segundo ano de Contabilidade, mas abandonou a faculdade para fazer teatro.
Até se destacar, teve uma passagem pelo Norte do Paraná, onde tocou em Londrina e morou com a família em Arapongas e Paranavaí. Na época, quase virou jogador de futebol. Um técnico o viu batendo bola e quis levá-lo para a Portuguesa de Desportos. Itamar não foi, preferindo enveredar pelo mundo das artes. Pouco depois, comprou um violão e começou a participar de festivais estudantis de música em Londrina.
Já em São Paulo, saiu do anonimato ao tocar baixo e criar os arranjos de base para a música ''Sabor de Veneno'', composta por Arrigo Barnabé e interpretada pela cantora londrinense Neuza Pinheiro no Festival da Tupi, em 1979. Daí em diante, sua carreira decolou. Formou a Banda Isca de Polícia e partiu para a gravação do primeiro disco.
Em 1982, faturou o prêmio ''Pesquisa'' no Festival MPB Shell da Rede Globo. Em 1993, ganhou o prêmio Sharp na categoria ''Melhor disco pop-rock'' com o álbum ''Bicho de Sete Cabeças Vol.1''. Dois anos depois, graças à sua performance no álbum ''Ataulfo Alves por Itamar Assumpção pra Sempre Agora'', foi eleito o ''Melhor Cantor'' da temporada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
Dos 7 álbuns que gravou, pelo menos dois títulos ''Beleléu'' e ''Pretobrás Por Que Que Eu Não Pensei Nisso Antes...'' figurariam em qualquer antologia honesta dos melhores álbuns nacionais de todos os tempos. Ele estava a caminho das gravações do segundo volume de ''Pretobrás'', quando foi surpreendido com a descoberta do câncer. Em 2000 foi submetido a três cirurgias para a retirada do tumor maligno.
Depois de ficar internado no Hospital das Clínicas de São Paulo, optou por tratar-se em casa. Mas a doença não conseguiu tirá-lo do palco. Bastou terminar o tratamento à base de quimioterapia, ele logo voltou a cantar. Em janeiro deste ano participou do projeto ''Novo de Novo: O Brasil de Pixinguinha'' realizado nas ''Terças Musicais do CCBB'', em São Paulo e gravado com exclusividade pela TV Cultura.
Itamar deixa mulher, Zena, e duas filhas, Anelis, 23, e Serena, 26, que são cantoras. Seu corpo foi enterrado ontem no Cemitério Jardim das Colinas, em São Bernardo do Campo. Para os admiradores, ele apenas trocou de endereço. Agora vai mostrar o suingue sutil nas esferas.


