PERDA - Vazio na literatura
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quarta-feira, 05 de novembro de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A escritora cearense Rachel de Queiroz, autora dos romances ''O Quinze'' e ''Memorial de Maria Moura'', morreu na madrugada de ontem no Rio de Janeiro. Iria completar 93 anos no próximo dia 17. Ela faleceu dormindo em sua casa dias depois de sofrer um acidente vascular cerebral.
Rachel foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL). Ocupava a cadeira número 5, para a qual foi eleita em 4 de agosto de 1977. Prima do memorialista Pedro Nava, destacou-se como precursora dos romances regionalistas, que renovaram a literatura brasileira na década de 30 revelando autores como Graciliano Ramos e José Lins do Rego.
O marco do estilo foi a novela ''O Quinze'', que ela publicou aos 19 anos numa edição bancada pela família. O livro, elogiado por Graça Aranha e Augusto Frederico Schmidt, foi o primeiro a tratar o sertão como protagonista. Mais tarde, já simpatizante do comunismo, ela foi alvo de críticas dos membros do partido vermelho por mostrar um operário matando um colega no livro ''João Miguel''.
Revoltada, Rachel abandonou o partido e aderiu ao trotskismo. Além dos volumes citados, ela publicou os romances ''Caminho das Pedras'' (1937), ''As Três Marias'' (1939), ''O Galo de Ouro'' (1950, apresentado em capítulos na revista ''O Cruzeiro''), ''Dora Doralina'' (1975) e ''Memorial de Maria Moura'' (1992, transformado em minissérie pela Rede Globo de televisão).
Experimentou a prosa também em crônicas, que foram reunidas em seis livros. Escreveu ainda para o teatro legando as peças ''Lampião'' (1953) e ''A Beata Maria do Egito'' (1958). Em 1998, publicou o livro de memórias ''Tantos Anos'', no qual narra ''causos'' de família e fala sobre sua trajetória pessoal incluindo depoimentos sobre a convivência com seus amigos escritores, entre eles Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Mário de Andrade e Pedro Nava.
Num dos trechos, lembrou o episódio controverso em que apoiou o golpe militar em 1964. ''Sempre tive o maior desprezo pelo Jango intelectualmente, como pessoa, além do desconforte de ver na Presidência o grupo getulista, que já era por si fascista. Patrulharam-me muito porque aprovei o golpe e até hoje aprovo. Com o Jango, o Brasil teria emborcado. Era um idiota manobrado por aquela gente'' declarou, certa vez, numa entrevista.
Casada duas vezes, ela teve sua primeira experiência conjugal com o poeta José Auto, com quem viveu sete anos e teve uma filha, Clotilde, morta por meningite com um ano e meio de idade. Posteriormente casou-se com o médico Oyama de Macedo, seu companheiro por mais de 40 anos. Paralelamente à carreira de romancista, Rachel foi professora, jornalista, teatróloga e tradutora.
Em 1966, foi representante da ONU. Durante vários anos, manteve colunas de crônicas em jornais como o ''Diário de Notícias'', ''O Jornal'', ''Diário de Pernambuco'' e a revista ''O Cruzeiro''. Até o fim de março, publicou textos semanalmente no jornal ''O Estado de S. Paulo''. Ela ditava os textos e sua irmã Maria Luiza digitava no computador. A ligação entre as duas era muito forte.
Mais velha de cinco irmãos, Rachel ajudou a criar Maria Luiza, 17 anos mais nova. O sepultamento da escritora será realizado hoje, às 9 horas, no jazigo da família, no Cemitério de São João Batista, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro.


