Valentina está triste. Afinal de contas, perdeu seu pai, um dos maiores artistas italianos da arte sequencial. Guido Crepax faleceu na quinta-feira, em Milão, aos 70 anos, vítima de complicações de uma esclerose.
Crepax era considerado, ao lado de Eleuteri Serpieri e Milo Manara, o maior nome do fummeti (quadrinho italiano) erótico. Ele nasceu em Milão, onde estudou arquitetura e publicou sua primeira ilustração em 1958, para a revista Tempo Medico. Em seguida ele desenvolveu seu traço e narrativa na revista Linus, em 1965, com o super-herói conhecido como Neutron. Porém, o protagonista acabou perdendo espaço para a sedutora repórter Valentina.
Com o sucesso da beldade - inspirada na pin-up Louise Brooks, famosa atriz do cinema mudo -, Crepax então passou a publicar HQs eróticas ousadas, que exploravam o fetiche, o sadomasoquismo e a violência. Porém, diferente do que poderia acontecer nos dias de hoje, esses elementos não eram usados de forma desnecessária ou apelativa.
Valentina, uma das primeiras ''bad girls'' dos quadrinhos, era impetuosa e ousada e usava de toda sua sensualidade para conseguir o que queria. Politicamente incorreta para os padrões da época, ela manipulava os homens e mulheres com seu charme irresistível. Além disso, Valentina saiu dos papéis e virou símbolo da revolução sexual e feminina: numa época de iconoclastia - crescia a contracultura e os questionamentos sobre os valores da sociedade - a personagem explorava todo o imaginário reprimido e mostrava a mulher dominadora, que subjugava o homem e era subjugada quando queria.
O milanês também tinha um estilo inconfundível de narrativa. Os traços leves e finos, de espessura única, impunham delicadeza nas belas curvas de suas mulheres. Crepax também sabia usar o preto-e-branco com muita habilidade, usando os contornos para dar movimento e suavidade. Como gostava de sugerir imagens e brincar com a imaginação do leitor, o artista buscava utilizar os espaços em branco estrategicamente como ''respiro'' para que os espectadores pudessem construir mentalmente suas cenas com mais detalhes.
No Brasil a LP&M e Martins Fontes chegaram a publicar a adaptação do autor para o romance ''Anita, Bianca e Justine'', de Marquês De Sade. Em 99, ele ilustrou ''O Processo'', de Franz Kafka e nos últimos dois anos lançou dois álbuns de Valentina. Crepax acabou publicando outros títulos e personagens, como ''L'Astronave Pirata'', ''La Casa Matta'', ''La Calata di Mac Similiano'', ''Belinda'' e ''Bianca'', todas recheadas de erotismo. Porém, nenhuma outra emplacou como Valentina, que agora chora a morte do pai.

mockup