PERDA - ÚLTIMO ATO
Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Uma longa vida e um rápido velório: morreu ontem no começo da madrugada, em São Paulo, o professor Décio de Almeida Prado, um dos maiores críticos teatrais que o Brasil conheceu. Tinha 82 anos. Sofreu um enfarte em sua casa, no bairro do Pacaembu, foi velado no Cemitério São Paulo, região central da cidade, e, às 15 horas, seu corpo foi levado para um crematório, no bairro de Vila Alpina.
Almeida Prado, que deu aulas de literatura teatral na USP Universidade de São Paulo, era a memória viva do teatro brasileiro deste século. Ultimamente recolhera-se ao lar, mas por muito tempo partes de suas noites foram ocupadas pelas sessões de teatro que frequentava religiosamente.
Um crítico que todos respeitavam
Atores, diretores e críticos tinham em Décio de Almeida Prado um exemplo a seguir. Leia abaixo, alguns depoimentos sobre ele reproduzidos do livro Décio de Almeida Prado - Um Homem de Teatro, escrito por João Roberto Faria, Vilma Arêas e Flávio Aguiar, publicado pela EduspArquivo FolhaAntunes FilhoDécio de Almeida Prado é meu grande modelo; o nosso abridor de estrada da crítica, ao lado de Nelson Rodrigues, outro abridor de estrada. Considero-os os dois maiores homens do teatro moderno brasileiro e, do ponto de vista ético, Décio é modelo para os jornalistas e para todos nós. Antunes Filho, diretor teatralReproduçãoDécio gostava de teatro, conhecia e entendia de teatro. Sempre foi um homem culto, de alto nível intelectual. Décio se esforçava por ser imparcial e o conseguia quase sempre. Com seu auto-controle nato, com sua fleugma britânica, com sua boa educação tradicional, Décio não costumava exteriorizar seus sentimentos. Paulo Autran, atorReproduçãoTônia CarreroTalvez ele nem saiba o quanto contribuiu para minha permanência no teatro. Tônia Carrero, atrizA presença de sua crítica no jornal era, sem dúvida, um desafio para os que faziam teatro, que se esforçavam, então, para corresponder as suas exigências de qualidade, tanto no repertório quanto na encenação. Barbara Heliodora, crítica teatralConhecedor profundo da arte, dissecava os espetáculos com categoria. Não foi um crítico a mais, no emaranhado das assinaturas. Tanto assim, que seu nome ficou intimamente associado à profissão. Prado não ficou só na posição de crítico experimentou o prazer e as agruras de quem está no palco, como ator amador, dirigiu peças, escreveu ensaios.
Era considerado o maior estudioso do teatro brasileiro e um dos grandes conhecedores de João Caetano ator do século passado, que ele colocava no topo do ranking dos melhores de toda a história do teatro nacional. Sua última contribuição com a arte se deu em abril de 99, quando lançou História Concisa do Teatro Brasileiro.
Na ocasião, explicou que nesse trabalho enfocava não só os dramaturgos, mas também um pouco dos atores e um pouco até do público. Entre seus livros anteriores estão títulos dedicados especialmente a Procópio Ferreira, Cacilda Becker. Sou muito ligado ao palco, porque fui ator de teatro amador, fui diretor, comentou.
Circulando por esse universo de palco, platéia e bastidores, esteve nos grandes momentos da cena brasileira, como em Vestido de Noiva, que Nelson Rodrigues escreveu e Ziembinsky dirigiu, no Rio de Janeiro. Em Nova York foi um dos que aplaudiram Um Bonde Chamado Desejo, onde um jovem ator chamava a atenção pelo extraordinário talento, que mais tarde viria a ser conhecido em todo o mundo nas telas dos cinemas: Marlon Brando.
Conviveu com a nata da intelectualidade, mas como sua paixão era a representação, acompanhou de perto a mudança sofrida do velho para o novo fazer teatral. A mutação ocorreu entre os anos 40 até os 60, segundo ele. Foi a fase de ouro, quando surgiram não só grandes atores, mas também dramaturgos, diretores. A influência do exterior foi benéfica para tirar do limbo a caquética encenação.
Ultimamente Décio de Almeida Prado não tinha mais tanto interesse em correr às salas de espetáculos, porque não tinha o que ver. A televisão invadiu o palco e aquilo que os atores apresentam tem a estética, gosto e linguagem das novelas. Perdeu-se a essência que dividia o que era uma coisa de outra.
O professor dividia sua vida profissional em duas fases: a de crítico de O Estado de São Paulo, onde permaneceu por 22 anos, e a seguinte como professor de Letras, na Faculdade de Filosofia. Aí, naturalmente, cabia a mim encarar a história. Você não pode ensinar literatura sem estudar a história da literatura, disse ele numa entrevista para a Folha de São Paulo, à época do lançamento de sua História Concisa do Teatro Brasileiro.
O sujeito, para estudar química, não precisa estudar toda a história da química, porque a ciência vai ultrapassando os seus próprios progressos, e não é necessário refazer todo o percurso. No caso da arte, é diferente. O que foi escrito no século 16 não está morto. Camões não morreu, continua sendo lido, estudado. Shakespeare está vivíssimo até hoje, enfatizou.
A arte desconhece a morte. Assim pensava Almeida Prado, que defendia a perenidade histórica. Aquilo que hoje é tão presente, com o tempo forçosamente vai se acomodar num escaninho da história. É assim que tudo acontece. À medida que alguém se interessa em abrir as portas do passado, acaba por descobrir outros momentos anteriores.
Você começa a achar graça numa peça do século 19, do século 18. Eu posso falar isso porque, no teatro amador, montei peça do Gil Vicente, que é o início do teatro em língua portuguesa. Para mim, o Gil Vicente não estava morto. Assim também montei uma peça do Martins Pena, para ter contato com o início da comédia brasileira.
Em História Concisa do Teatro Brasileiro, publicado pela Edusp, o professor, amparado por um grupo de historiadores, jogou luzes sobre um período até então pouco conhecido e em alguns momentos completamente desconhecido que abrange os anos de 1570 a 1908. Do início ainda incipiente, com a decisiva participação dos padres católicos que atraíam os índios para sua religião através de encenações, herdou-se o costume de que os temas teriam que ser estritamente religiosas. Durou até o século XVIII.
Foi em Salvador que a arte começou a despontar realmente, no início do século XVIII. Já se representavam comédias espanholas em 1717, e a elas aderiam padres, freiras, monges, cavalheiros, mulheres de vida fácil e o Vice-Rei, segundo registros da época.
Durante todo o período colonial o teatro serviu para nivelar socialmente todas as classes. As mudanças ocorreram paulatinamente, inclusive a fase que encantou Almeida Prado até o fim de seus dias. Mas a transcendência da arte era mais forte, insistia ele: Todos temos sempre um interesse em procurar no passado raízes para o presente.O escritor e crítico Décio de Almeida Prado morreu na madrugada de ontem. Era considerado a memória viva do teatro brasileiro deste século
Agência EstadoDécio de Almeida Prado sempre foi considerado o grande crítico do teatro brasileiro, assunto que ele conhecia a fundo





