PERDA - Silencia-se a viola
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de setembro de 2005
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - A violeira Helena Meirelles morreu ontem, aos 81 anos, vítima de uma parada cardio-respiratória. De origem humilde, nascida no pantanal mato-grossense, Helena era uma das mais respeitadas violeiras do Brasil e sem exagero do mundo. Seu trabalho foi tão reconhecido, ainda que tardialmente, que na década de 90 ela chegou a ser citada pela revista americada Guitar Player, uma das mais importantes no cenário musical, como uma das ''100 mais'' por sua atuação nas violas de seis, oito, dez e 12 cordas. Um documentário sobre a vida dela está sendo finalizado pela produtora e diretora gaúcha Monica Schmiedt, com direção de Dainara Toffoli.
Monica, que está na Holanda divulgando seu recém-lançado longa ''Extremo Sul'', falou com exclusividade à Folha sobre o documentário e a experiência de filmar uma mulher decidida e temperamental como era Helena Meireles. ''O que me impressionava nela era a sua força. A sua alma masculina. Ela negava a própria essência em busca de realizar o seu desejo'', conta a produtora. Nascida em agosto de 1924, a violeira cresceu rodeada de peões e foi com eles que aprendeu a tocar viola caipira. Observando, já que a família era contra o aprendizado da moça. Ela casou aos 17 anos por imposição dos pais, mas nem o casamento nem a imposição duraria muito tempo.
Anos mais tarde, Helena se juntaria a um músico paraguaio, que também abandonou assim como aos filhos dos dois casamentos para seguir tocando em bares e prostíbulos. A violeira chegou a ficar desaparecida por 30 anos, até ser encontrada pela irmã e levada para o interior de São Paulo. ''A vida errante foi uma prova de que ela tinha garra e foi essa trajetória que nos interessou'', diz Monica. Ela salienta que o documentário aborda mais a luta de Helena para continuar tocando do que sua música em si. Filmado em digital, ''Dona Helena'' terá entre 50 e 60 minutos e está sendo realizado para ser exibido na TV. O projeto é resultado da aprovação de um edital do Ministério da Cultural, em 2002.
A idéia de fazer um documentário sobre a violeira mato-grossense surgiu há exatos três anos, quando Monica recebeu do amigo Antonio Candido discos da violeira. ''Ela tem uma história de vida que pedia uma permanência e quisemos fazer isso em audiovisual''. As filmagens foram realizadas na casa da violeira a partir dessa época. ''Foi uma coisa engraçada. Às vezes aparecíamos na porta dela com todo o equipamento e ela dizia que não queria filmar naquele dia. Ou porque tinha recebido uma carta que a tinha deixado triste ou porque estava sentindo alguma coisa'', lembra Monica.
Mas as passagens filmadas com Helena Meireles foram todas finalizadas. No filme, além das cenas exclusivas, aparecem também depoimentos de familiares e reproduções de shows realizados pela violeira ao longo da sua carreira. Apesar de ter aprendido cedo a tocar, Helena foi ''descoberta'' tarde pela mídia e pelos próprios amigos e familiares. Ela já tinha 67 anos quando se apresentou num teatro pela primeira vez. Sua estréia para o grande público aconteceu depois que um sobrinho enviou uma fita com a tia tocando para revistas e gravadoras americanas.
Monica salienta que a morte da violeira não vai mudar a estrutura narrativa do documentário, embora certamente será feita menção à morte dela no filme, que está em processo de finalização. Helena morreu na casa dela, em Campo Grande (MS) na madrugada de ontem. Há dez dias ela tinha sido internada na Santa Casa da cidade, com pneumonia crônica, mas havia recebido alta na última terça-feira. Seu corpo foi enterrado no Cemitério Parque das Paineiras, na mesma cidade.
A trajetória da artista já havia sido mostrada também no documentário ''A Dama da Viola'', do cineasta carioca Fracisco de Pauça. O filme, lançado em setembro do ano, teve locações no Pantanal, nos municípios de Bataguassu, Ivinhema e também na região onde se localizava a Fazenda Jararaca, em Campo Grande, onde Helena Meirelles nasceu. O documentário foi uma das atrações do Festival América do Sul 2005, realizado em maio deste ano em Corumbá (MS). Helena, já com a saúde frágil, não compareceu, mas por telefone, à Folha2, disse: ''Vixe, o filme me retratou muito bem. Até as besteiras que falei estão lá... Também se eu não falar umas besteiras não tem graça, né?''. E arrematou: ''Ó, eu já pintei o sete na vida''.


