É como se tivessem combinado este compromisso com a morte num mesmo dia. Bergman se foi na última segunda-feira pela manhã, e da mesma maneira tranquila Antonioni se despediu apenas algumas horas mais tarde, ambos em suas casas, respectivamente na ilha de Faro e em Roma, ao lado de seus familiares mais próximos. Seria muito interessante testemunhar - caso tenha ocorrido - o encontro entre estes dois gigantes do humanismo, e de ambos com Deus.
A câmara ardente com o corpo do diretor italiano será instalada hoje no Capitólio para as últimas homenagens. Antonioni será sepultado amanhã em Ferrara, na região norte, cidade onde nasceu em 29 de setembro de 1912 e cenário de seu documentário neo-realista de estréia, ''Gente do Pó'', dedicado às populações que viviam às margens do emblemático rio.
''Il maestro'' italiano, ícone do cinema introspectivo, gênio da incomunicabilidade, mito plasmado nos anos 1950 e 60 com títulos reconhecidos universalmente como ''Blow Up'', foi, como Bergman, filósofo da modernidade.
Burguês de origem familiar, economista por formação acadêmica, começou carreira no cinema como crítico, e mais tarde estudou no lendário Centro Experimental de Cinema de Roma, baluarte da resistência do cinema antifascista. Em poucos anos Antonioni soube impor um estilo - sombrio, ascético - de certa forma obsessiva quanto ao rigor da imagem e à consequente busca de uma linguagem formal, com planos-sequência longos, lentos. Na verdade, marca registrada para indagações existenciais sobre seus personagens, localizados num espaço enigmático. Mais ou menos nas cercanias da alma, de resto região também muito visitada por Bergman.
Se em ''Blow Up'' (''Depois Daquele Beijo''), de 1966, o cineasta questionava a cultura pop que imperava naquele momento e oferecia uma reflexão sobre alienação e solidão, na ''trilogia da incomunicabilidade'' composta por ''A Aventura'', ''A Noite'' e ''O Eclipse'' ele narrou as misérias e o lado mais obscuro da burguesia italiana, mas amplificou estas inquietações para limites universais, trabalhando a fundo o tema da dificuldade das relações humanas e a fragilidade dos sentimentos. Nome decisivo nestes momentos foi o da atriz Mônica Vitti, musa e companheira por mais de uma década.
O road-movie ''Zabriskie Point'', de 1970, é outro de seus trabalhos mais destacados, uma homenagem aos movimentos de 1968. Alguns anos se passaram até as filmagens de ''Passageiro - Profissão Repórter'', com Jack Nicholson e Maria Schneider, um estudo em profundidade sobre a condição humana e filme que Antonioni considerava seu melhor trabalho no plano estilístico e político.
Foi intelectual brilhante, co-autor da maioria de seus roteiros. Seus filmes refletem um olhar extremamente pessoal sobre a realidade, um olhar sempre calibrado pelo uso do simbolismo visual para abordar temas como alienação, tédio e o erotismo sem amor.
Há vinte anos imobilizado em cadeira de rodas por conta de um derrame, e impossibilitado de falar - suprema ironia, para o mestre da incomunicabilidade -, mesmo assim Antonioni continuou filmando, auxiliado pela mulher Enrica. Seu testamento cinematográfico, realizado em 2003, foi um episódio pára o longo ''Eros'', exibido em Londrina ano passado.

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