A artista plástica Lygia Pape morreu ontem, de câncer, aos 75 anos, no Hospital São Lucas, em Copacabana, zona sul do Rio, onde estava internada há uma semana. A seu pedido, Lygia não teve velório e será cremada no sábado, no Cemitério do Caju (zona portuária).
Também por vontade da artista, haverá uma missa cantada de 7º dia no Mosteiro de São Bento, centro do Rio. ''Ela não queria virar uma instalação, por isso não queria velório. Para ela tudo isso era um saco. Pode escrever'', disse uma das filhas de Lygia, Paula Pape, com quem ela morava. Paula disse que a mãe era uma pessoa ''pra cima'' e até o fim da vida manteve-se ativa, elaborando muitos projetos.
Lygia tinha outra filha, Maria Cristina Pape, e um ''filho de estimação'', Ricardo Fortes, que trabalhava com a artista e é o pai de seus dois netos. Ela deixou viúvo Gunther Pape.
Lygia Pape nasceu em 1929, em Nova Friburgo. Estudou com os artistas Fayga Ostrower e Ivan Serpa e, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, formou-se em Filosofia. Nos anos 50, com colegas Abraham Palatnik e Ivan Serpa, com quem fundaria o Grupo Frente. Para eles, a preocupação passou a ser a utilização de formas geométricas em busca de uma visualidade nova, diferente da arte figurativa. Em 1957, o Grupo Frente se desfez e os artistas se reuniram numa corrente mais ampla, o Movimento Concreto. Dois anos mais tarde, Lygia aderiu ao grupo dos neoconcretistas, que propunha uma relação mais direta entre espectador e obra, a participação do público, em oposição ao racionalismo do artista concreto. Naquele momento, a arte brasileira era empurrada em direção à contemporaneidade, sedimentando sua entrada no contexto internacional. E o trabalho de Lygia foi uma das principais manifestações desse período efervescente. Uma de suas grandes contribuições para o cenário brasileiro foi o pioneirismo na arte multimídia. Em Livro-Poema, mesclou xilogravuras e poemas concretos. Sua arte também era marcada por um tom político, crítico, seja com a realidade brasileira, seja com a própria percepção da arte - em ''Caixa de Baratas'', composta de uma série desses insetos colada num espelho, ironizava ''as obras de arte mortas, trancadas dentro dos museus''.

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