O escritor e diretor de cinema Ingmar Bergman, autor de filmes de antologia como ''O Sétimo Selo'', ''O Silêncio'' e ''Fanny e Alexandre'', entre dezenas de títulos decisivos para que o cinema fosse encarado rigorosamente como arte, morreu ontem em seu retiro na ilha de Faro, de acordo com sua filha Eva Bergman. Ele tinha 89 anos, e teve uma morte ''doce e tranquila'', disse sua irmã a uma agência sueca de notícias. Não são conhecidas as causas da morte, e nem a hora. Os familiares disseram ainda que o funeral será privado, em local ainda não determinado.
Da obra completa de Bergman constam 54 filmes (para cinema e televisão), 126 montagens teatrais (incluindo óperas) e 39 trabalhos para o rádio. Embora tenha obtido fama internacional como diretor de filmes, se considerava antes de tudo homem de teatro. Para ele, o cinema era também ''um trauma e uma paixão''.
Filho de pastor protestante, a educação rigorosa marcou sua vida e obra. Obra caracterizada pela profundidade reflexiva, e salvo raras exceções, pela inclusão de conotações metafísicas e um universo de problemas humanos fundamentais, como a incomunicabilidade entre o casal, o desamor, a solidão, a dúvida sobre a existência de Deus e a única certeza: a morte.
Em uma de suas raras entrevistas, em 2001, Bergman falou abertamente sobre o tormento que se converteu no selo pessoal de sua obra: ''Os demônios são incontáveis, aparecem nos momentos mais inoportunos e criam pânico e terror. Mas aprendi que, se posso dominar as forças negativas, elas podem trabalhar a meu favor''.
Bergman estreou na direção em 1945 com o longa ''Crise''. Mas sua reputação mundial veio com ''O Sétimo Selo'', filme que será sempre lembrado pela cena em que um cruzado medieval, em busca de Deus e do sentido da vida, joga uma partida de xadrez com a morte em pessoa, que aliás revela ao antagonista não saber o que existe depois dela.
Ganhou seis Oscar, quatro por ''Fanny e Alexandre''. E embora várias vezes homenageado no Festival de Cannes, jamais recebeu a Palma de Ouro. Outros destaques em sua filmografia são ''Morangos Silvestres'', ''A Fonte da Donzela'', ''O Silêncio'', ''Vergonha'', ''A Hora do Lobo'', ''A Paixão de Ana'', ''Gritos e Sussurros'' e ''Cenas de Um Casamento''.
Pai de oito filhos, Bergman foi casado cinco vezes e viveu pelo menos duas intensas relações com Harriet Andersson e Liv Ullman, duas de suas atrizes-fetiche. Como todo cineasta com tal envergadura de complexidade, continua muito vasta a quantidade de ângulos com as quais é possível se aproximar de sua obra. Entre outras características, esta é a que o inclui sem restrições entre os imortais da cinematografia mundial.

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