PERDA - Cultura paranaense dá adeus a Lala Schneider
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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Antes de entrar em cena, Lala Schneider tinha um ritual. Organizava todos os seus pertences no camarim e só então começava a se maquiar. Lentamente. Todo esse preparativo era já conhecido dos atores, novatos ou não, que trabalharam com ela ao longo dos seus mais de 50 anos de carreira. A atriz paranaense morreu ontem pela manhã, em Curitiba, aos 80 anos. A causa da morte ainda é desconhecida, já que Lala apresentava boa saúde, afora dores na coluna, e ainda estava em atividade. Seu último trabalho foi há um mês, quando gravou com Carlos Vereza, uma das cenas do filme 'Mystérios', dirigido por Beto Carminati e ainda inédito.
No filme, Lala interpretou uma personagem que participava da cena de um velório. As cenas foram gravadas no mês passado, numa capela em Piraquara, na Região Metropolitana. O diretor, que já havia trabalhado com a atriz no premiado filme ''Paisagem de Meninos'', lamenta a perda: ''Lala era uma pessoa muito divertida, generosa e, como profissional, muito responsável. Tenho certeza que Deus reservou outras boas cenas para ela''.
Atriz de teatro, televisão e cinema, diretora e professora de interpretação, Lala Schneider foi uma das maiores expressões do teatro no Paraná, com uma carreira marcante iniciada em 1950. A atriz nasceu em Curitiba, em 23 de abril de 1926. Em 1994, foi inaugurado em Curitiba o teatro que leva seu nome.
O corpo da atriz foi velado ontem, no Salão de Exposições do Teatro Guaíra e o enterro acontece hoje, no Cemitério do Boqueirão.
A morte da atriz causou grande comoção no cenário cultural paranaense. A atriz Regina Vogue não conteve as lágrimas. ''Quando eu cheguei em Curitiba, há 27 anos, a Lala já era um exemplo pra mim, um ícone. Eu tinha intenção de montar um projeto do espetáculo ''Quarta-feira sem falta lá em casa'', com nós duas em cena. Mas ela nos deixou antes'', diz. Regina lamenta que Lala não tenha parado de fumar nos últimos anos, hábito incansável da atriz. ''Mas ela era uma mulher muito forte e guerreira. Nunca deixou os palcos'', lembra Regina.
''Ela chegava ao teatro, colocava o cigarro na gaveta e começava a arrumar as suas coisas na prateleira. Depois começava a se maquiar devagar. Isso é que me vem na cabeça agora porque era um ritual de estrela'', conta a atriz e iluminadora Nadja Naira, que começou a carreira de atriz, na década de 90, contracenando com Lala em ''O Vampiro e a Polaquinha'', espetáculo que ficou sete anos em cartaz. A atriz Fabiana Klein, que viveu a Polaquinha em uma das temporadas do espetáculo de Dalton Trevisan, considera: ''Ela era mãe a avó de todos nós. Era um exemplo de humildade e profissionalismo'', emociona-se.
Lala começou a interpretar ao lado de Ari Fontoura em 1950 e ao longo de sua carreira atuou em mais de 80 espetáculos teatrais e fez nove filmes e oito novelas. Seus trabalhos não se restringiram ao Paraná e a atriz era conhecida em todo o País. Ainda no início da carreira, foi convidada para produções fora do Estado. Fez ''A Herdeira'', a convite de Bibi Ferreira (1955), e ''Um Bonde Chamado Desejo'', com direção de Maria Fernanda (1966).
A atriz tornou-se ainda mais conhecida do grande público quando passou a atuar em novelas da Rede Globo. Representou em ''Lua Cheia de Amor'', ''Felicidade'' e na minissérie ''Tereza Batista''. Antes disso, ainda, havia feito novelas com Roberto Menguini, na Canal 6, nos primórdios da produção televisiva do Paraná. No cinema, Lala Schneider trabalhou principalmente com cineastas paranaenses. Fez ''Guerra dos Pelados'', ''Aleluia Gretchen'' e ''Making of Curitiba'', de Sylvio Back; ''O Cerco da Lapa'', de Berenice Mendes e ''Maré Alta'', de Egídio Élcio, para citar alguns.
Em seu último filme, ''Mystérios'', ainda sem data de lançamento, contracenou com Carlos Vereza. Seu papel, sem nome, era de uma mulher que velava um militar. No velório, amparada pelas filhas, sua personagem dizia: ''Agora que você morreu, leve consigo essa minha doença''. O texto é uma adaptação do livro ''Mez da Gripe'', de Valêncio Xavier.


