PERDA - Cinema dá adeus a Janet Leigh
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 04 de outubro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Os fãs também são cruéis. A memória cinéfila costuma ser amnésica e por isso mesmo injusta até com seus ídolos mais próximos. Apesar de extensa e produtiva carreira, com mais de 60 títulos, Janet Leigh será recordada sempre como a garota nua que morria assassinada no banheiro de um quarto vagabundo do sinistro motel de beira de estrada, na obra-prima ''Psicose'', de Alfred Hitchcok. Um dos mais belos rostos de Hollywood, ela morreu domingo em Los Angeles, aos 77 anos, segundo os médicos, vítima de um vírus que atacou sua corrente sanguínea.
Janet Leigh, aliás Jeanette Helen Morrison, estudou música e foi vocalista na orquestra dirigida pela primeiro marido, Stanley Roberts, mas só por três anos, até 1947. Foi quando debutou no cinema descoberta pela atriz Norma Shearer fazendo um western obscuro. Mas logo se tornou popular em 1949, na estréia de ''Quatro Destinos'', primeira (e melhor) versão do clássico ''Mulherzinhas''. Outro trabalho importante foi em ''Ato de Violência'', de Fred Zinneman, de 1948, no momento em que se divorciava de Roberts para se casar com Tony Curtis. Por mais de uma década os dois estenderam a união para as locações, atuando juntos em diversos títulos que consolidaram as respectivas carreiras ''O Escudo Negro'', ''O Grande Houdini'' e ''Vikings, os Conquistadores'', os três na década de 1950.
Mas estas incursões em filmes históricos foram mera casualidade. Janet se consagraria mesmo como atriz de comédias, com frequência musicais. Inúmeros são os títulos que pavimentaram esta trajetória de intensa popularidade, todos lançados ao longo dos anos 50. Era jovem, extremamente bonita, ágil, cintilante, encantadora. E muito inteligente. A ponto de não hesitar um instante quando foi chamada a interpretar Susan Vargas, a ambígua personagem de ''A Marca da Maldade'', de Orson Welles, papel de 1958 que lhe valeu uma espécie de ISO, um certificado de aptidão para enfrentar qualquer desafio posterior. Que não se fez esperar.
Dois anos depois, com salário de apenas 25 mil dólares, entrou num dos sets míticos da história do cinema, e pela mão de um de seus maiores ícones. Apesar do aparente divórcio entre o look de louro glamour da atriz e a temática dark de ''Psicose'', Janet não só arrasou no papel da ladra Marion Crane, liquidada no chuveiro pelo louco de pedra Norman Bates, como ainda ajudaria mestre Hitchcock a construir uma das mais aterradoras sequências de terror psicopatológico do cinema, a partir dali obrigatório dever de casa de qualquer candidato a cinéfilo. Duas confissões posteriores: a de que teria dado qualquer coisa para trabalhar sob as ordens do maior artífice do suspense. E quando ia ao banho: depois das cenas terríveis, dizia que nunca mais tinha deixado de olhar para a porta do banheiro. Marketing sim, mas que justa motivação!
Na esteira de seu personagem hitchcockiano, Janet Leigh faria pelo menos mais grande trabalho, ''Escravas do Medo'', thriller de grande competência que Blake Edwards dirigiu em 1968. E uma brincadeira em família, mais recente, já septuagenária: a experiência de contracenar com a filha Jamie Lee Curtis, num dos mais últimos (e piores) episódios da franquia ''Halloween''.


