A percussão brasileira sofreu uma reviravolta quando a figura de Naná Vasconcelos começou a despontar. Desde a década de 70 ele já cultivava uma forma de extrapolar o caráter meramente rítmico, explorando aspectos visuais, ambientações, enfim, trazendo uma consciência que retirou a percussão do mero acompanhamento para lhe dar um caráter de orquestração.
Neste processo, descobriu que o corpo é seu principal instrumento. Essa relação orgânica abriu caminhos para uma percepção minuciosa do som. Naná Vasconcelos rodou o mundo conhecendo e difundindo música. E é esse conteúdo que o evidencia. No momento, ele está passando mais tempo no Brasil, corujando uma filhinha de dois anos e desenvolvendo vários projetos.
Seu disco ''Fragmentos'', de 1998, finalmente foi lançado no país, pelo Núcleo Contemporâneo (www.nucleoart.br), reunindo peças produzidas para documentários, filmes e dança. Além disso, Naná está finalizando o álbum que produziu com Itamar Assumpção. E prepara um novo disco em que flerta com o universo pop.
O músico desembarca em Londrina esta semana para um workshop no Centro de Comunicação, Educação e Artes da Universidade Estadual de Londrina, quinta-feira, a partir das 16 horas. Na sexta, às 20h30, ele se apresenta no Cine Teatro Ouro Verde. A realização é da Vivarte Produções Culturais.
Naná Vasconcelos conversou por telefone com a Folha2, num bate-papo bem-humorado (''coloca uma foto pequena minha para não assustar o pessoal'') em que falou até da Seleção Brasileira. Confira os principais trechos:

O que você vai mostrar em seu workshop?
O workshop chama-se ''O Entendimento do Ritmo Através do Corpo'', e o corpo aparece como instrumento. É um trabalho que não é voltado apenas para músicos, mas também para dançarinos, atores...

Como você chegou à compreensão de que o corpo é seu principal instrumento?
Aprendi pelo mundo. O primeiro instrumento é a voz e o melhor é o corpo. Isso é resultado da necessidade de manter um concerto solo e fazer com que ele seja musical. Tive que usar todos esses recursos. Eu mexo com a percussão não para fazer ritmo, mas como se fosse uma orquestra, para fazer música. Eu tenho um show que é ''O Bater do Coração'', cuja idéia é contar uma história, é muito simples, não quero intelectualizar muito, é música visual. Eu transporto o ouvinte para a selva.

Você se apresentou em Londrina em maio, no Cabaré do Festival Internacional de Teatro Filo , um espaço mais festivo. Agora vai se apresentar no Cine Teatro Ouro Verde, um ambiente mais introspectivo. Há diferença?
É um pouco diferente, acusticamente diferente, é um teatro fechado. Da outra vez o pessoal gostou, foi bom, eu gosto de expor o meu trabalho, principalmente para um público que não me conhece ao vivo. Ainda se for o mesmo repertório é sempre diferente, me dou muito com a energia que está rolando. No teatro tem mais silêncio, dá para ser mais sutil.

Você fala que sua música é visual, e o CD ''Fragmentos'' traz obras feitas para cinema e para a dança. De onde vem essa ligação?
Eu tenho essa idéia, é uma pretensão de mostrar o aspecto visual da música, não tem nada de meu. Villa-Lobos já fez isso em ''O Trenzinho do Caipira'', ele leva você pelo Brasil. O meu trabalho de orquestração foi feito fora do Brasil. Eu comecei a fazer música para TV na França, e surgiu essa idéia. Mas em ''Pai Grande'', com Milton Nascimento (gravada nos anos 70), já tinha essa idéia, eu queria colocar um navio negreiro no Amazonas, criar um ambiente para a música. Eu uso a voz como elemento percussivo, desenvolvi poemas onomatopaicos. O workshop tem um pouco disso.

O disco foi lançado em 1998 na Europa, Japão e Estados Unidos. Por que só agora chega ao Brasil?
Isso está chegando aqui porque eu falei com o Núcleo Contemporâneo. São coisas que eu fiz para filmes. Meus discos todos são difíceis no Brasil, não faço parte de um movimento, minha música não toca no rádio... Eu toco no disco de fulano, de ciclano, do Lenine, do Zeca Baleiro, do Zé Ramalho... Mas o público quando escuta, gosta. Pessoas que nunca me ouviram antes, ouvem e gostam. Mas hoje a música é um produto, e um produto dura dois dias ou dois anos. Depois criam outra coisa. Não tem nada de mal nisso, eu tento ver o lado positivo: no funk, o dinheiro está sendo distribuído para a periferia, essas pessoas organizam programas sociais.

Como surgiu essa noção de música orgânica?
Com essa idéia de fazer solos. Pancadaria já tem muito. Quero sair do silêncio para ir até o êxtase, e vice-versa. Quero a transposição de uma coisa para outra. Eu transporto o ouvinte para outro lugar.

Quais são os trabalhos que você está desenvolvendo?
Eu acabei a trilha de um curta-metragem chamado ''As Heroínas de Tejucupapu'', e estou fazendo a trilha de um longa, ''As Tentações de São Sebastião'', de José Araújo, o mesmo de ''Sertão das Memórias'', que está no disco. Também gravei com o Itamar Assumpção, vamos terminar agora, dar as últimas pinceladas.

Você inovou a percussão em vários conceitos. Como você vê os instrumentistas brasileiros de hoje? Eles também estão com os horizontes mais amplos?
O jovem está muito ligado ao que está em voga no mundo, com a tecnologia. Tem muita gente relendo o choro, uma garotada levando a sério o violão e cavaquinho. E tem o pessoal ligado aos samplers, à tecnologia, à internet. Eu estou mexendo com eletrônica desde 1984, quando usei uma bateria eletrônica nos Estados Unidos para um grupo de break dance. Mas utilizo a bateria eletrônica tocada ao vivo. E gravei de uma maneira que não se sabe quem está tocando, se sou eu ou a bateria.

Quer dizer que você está atento à tecnologia. E a música eletrônica, como o techno, você tem acompanhado?
Eu acompanho o techno e o drum'n'bass há anos no Japão. Em Nova York toco sempre com DJs. Estou gravando agora, vou reunir vários músicos, já tenho coisas prontas, vou ter que montar uma banda. Eu quero botar todo mundo na pista de dança, quero pôr o pessoal para dançar.

Então o próximo disco vai revelar um Naná Vasconcelos pop?
Totalmente pop, vou pintar o cabelo de azul! A gente tem que estar aberto para essa garotada.

A música brasileira está sendo encarada com seriedade no exterior ou ainda enfrenta uma visão caricatural?
Tem um lado visto com seriedade com a música orgânica, acústica. A música brasileira tem uma qualidade que só a gente tem. Porque só nós tivemos Villa-Lobos, e com isso tivemos uma cultura européia para harmonizar. Esse lado europeu os Estados Unidos não têm. Mas e a Seleção Brasileira, será que vai?

Vamos torcer...
A Seleção perdeu a dança. O futebol do futuro é o africano, que aprendeu com a gente. Havia uma época em que o futebol era uma coisa que só a gente fazia. Agora parece futebol de salão, europeu, perdeu a dança, a intuição.

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