Antônio Mariano Júnior
De Londrina
Salvador já não é mais a capital mundial da percussão. Depois de quatro dias de apresentações, os tambores convocados a comparecerem ao 7º Percpan silenciaram-se após o show de encerramento que aconteceu anteontem à noite, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. Por quase quatro horas, todas as atrações – grupos e cantores nacionais e internacionais – se apresentaram para um público estimado em 2,5 mil pessoas. Para Gilberto Gil, um dos diretores do Festival (cujo nome oficial é Panorama Percussivo Mundial), a platéia poderia ser mais numerosa. ‘‘O show na Concha foi mal divulgado. A publicidade foi errada’’, criticou ele. O local tem capacidade para 7 mil pessoas. Essa foi a primeira vez que o Percpan finalizou suas atividades ao ar livre.
Por outro lado, Gil não quis fazer um balanço dos prós e contras do evento. ‘‘Não me sinto capacitado a apontar críticas ao festival ’’, disse ele endossado por Naná Vasconcelos, o outro diretor. ‘‘Estou contente com o calor, com a receptividade do público. Acho que atingimos o objetivo do projeto’’, analisou Beth Cayres, produtora e idealizadora do Percpan. Amanhã e quinta-feira, o Percpan vai em versão compacta para São Paulo; depois mais abreviado ainda instala-se em Paris com um elenco exclusivamente nacional, nos dias 26, 27 e 28.
Com uma grade de 13 atrações do Brasil e exterior, a sétima edição do Percpan teve muitos acertos, mas também foi acometida por pequenos equívocos. Que, no final das contas, não comprometeram o evento. Pelo Brasil, Cássia Eller não disse ao que foi – e se disse ninguém deu muita bola – ao se apresentar com o grupo Pegapacapá que mistura percussão eletrônica e acústica. Um despropósito assim como o Tabanka Djaz, grupo da Guiné Bissau, que deixou a todos com a cara no chão. Com musiquinhas de duplo sentido – como a ridícula ‘‘Tira a Mão da Minha Xuxa’’ (NR xuxa é chupeta na Guiné) – a tchurminha é o ‘‘Tchan’’ daquele país, com direito a duas dançarinas gostosonas. Coisas de Martinho da Vila que exigiu da direção do evento que os trouxesse como parte de sua apresentação.
Houve atrações que impressionaram na entrada mas causaram apatia no decorrer. O percussionista marroquino Hassan Hakmoun e sua trupe viajaram no azeite de dendê e fizeram uma performance musicalmente monótona e cenicamente circense. Mas houve tantos e muitos bons momentos. A mais expressiva atração, sem sombra de dívidas, foram os Pigmeus do Aka e seus instrumentos rudimentares e um trabalho sedimentado na polifonia vocal. Proveniente das florestas da África Central, o grupo impressinou a todos.
Antropólogos de plantão salivaram ao ver e ouvir a performance do Dalvey Kumina Group, da Jamaica, que tocou, cantou e dançou músicas religiosas e que encontram equivalência no candomblé. Claro, do elenco estrangeiro Rita Marley foi a grande estrela. Simpática como uma comadre, a viúva de Bob cantou com o Bleu Glaze Mento Band. A banda é especializada em ‘‘Mento’’, gênero, fonte onde o reggae de Marley foi beber. ‘‘É a primeira vez que trabalhamos juntos e está sendo maravilhoso’’, disse ele durante sua apresentação, no sábado a uma platéia rendida aos seus pés.
Aliás sábado, um outra mulher brilhou tanto ou mais que a ‘‘rainha do reggae’’: Margareth Menezes. Para desespero de Daniela Mercury que fez de tudo para ser o centro das atenções mas não conseguiu. Margareth foi longamente aplaudida ao cantar ‘‘Faraó’’ precedida por uma evocação a Iansã, seu orixá, feita através de um oriki (poema concebido em iorubá). Ela mais Dani (visivelmente incomodada com a ovação da colega) e Ivete Sangalo fizeram um espetáculo concebido por Gilberto Gil e o poeta baiano Antonio Risério.
Agora, quem encantou pela singeleza e humildade foram as ‘‘Ceguinhas da Paraíba’’, três irmãs com deficiência visual que cantam coco e embolada. Lenine e a banda Pife Muderno também se destacaram entre os brasileiros. Resumo do batuque: o 7º Percpan pode não ter sido o melhor até agora. Mas que deixou uma boníssima impressão, ah isso deixou!!
O jornalista Antônio Mariano Júnior viajou a Salvador a convite da organização do Percpan

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