Os ventos pernambucanos se incumbiram de espalhar a sonoridade pop que circundou a oitava edição do Panorama Percussivo Mundial, Percpan, encerrada no início da madrugada de domingo no Recife. Ou seja, o festival neste ano o primeiro realizado fora de Salvador salvaguardou tambores e afins que, apesar das boas intenções da organização em manter a proposta originária do Percpan, acabaram ofuscados por sons eletrônicos, rock e pop. Trocando em miúdos, o que se ouviu nas três noites do evento foi o que se costuma chamar de World Music rótulo mais apropriado, apesar de desgastado pelo uso muitas vezes equivocado, para classificar a maratona musical comandada competentemente por Gilberto Gil.
Para o público total, estimado em 30 mil pessoas, tudo foi uma festa. Aliás, a realização do Percpan ao ar livre, no caso a Praça do Marco Zero, foi um dos acertos embora uma ou outra atração pudesse ter tido melhor rendimento em espaço mais intimista. O exemplo mais ilustrativo de que o Percpan 2001 desformatou-se levemente ou seria melhor dizer que abriu-se a concessões? foi a apresentação de Rita Lee. A cantora e compositora, a princípio, iria ao festival com um trabalho calcado na percussão o que provocou uma expectativa. Mas o que ela apresentou foi um show de rock, agradabilíssimo por sinal, recheado de sucessos encobertos por frequências eletrônicas e um ou outro elemento percussivo acústico ou não.
Uma bela apresentação, um excelente chamariz de público. No entanto se for levar a ferro e fogo, Rita Lee foi para o festival errado. Culpa não dela (ora Rita se fez artisticamente entre guitarras e não em meio a tamborins, timbaus e bumbos) mas de quem a convidou. E quem a convidou defendeu com unhas e dentes a presença da tia do rock. ''O rock vem do rythm and blues que tem raízes percussivas. Agora, quem quiser fazer um festival de tambores e chamar de festival de percussão, pode. No entanto, quem usa acasalamentos vários que a percussão tem com outros gêneros também tem o direito de chamar isso de festival de percussão'', argumentou Gilberto Gil devidamente paramentado de diretor artístico do festival.
Outro exemplo das oscilações percussivas foi a presença do Dj paulista Xerxes de Oliveira que encerrou as apresentações artísticas com uma tremenda rave em praça pública. Tudo bem, até há sentido, afinal batidas eletrônicas mesmo para horror dos puristas não deixam de ser sons percussivos. World Music é o mínimo que se pode dizer da apresentação do músico pernambucano Antílio Madureira. Extraindo sons de instrumentos inusitados serrotes, britadeiras, entre outros ele fez uma apresentação instigante que começou bem e foi descambando tédio abaixo. O público acabou se rendeu, não à modernidade de Madureira mas à seleção de frevos que ele cantou no final evitando, assim, que muitas pessoas parassem de exercitar as mandíbulas com sucessivos bocejos.
As atrações pernambucanas ganharam um bom espaço. Algumas presentes meramente por diplomacia, outras notadamente vigorosas como mestre Salu e sua rabeca ou o grupo Raízes Percussivas apesar de não apresentar nada assim do outro mundo resfrescou a memória de muitos que estavam ali, naquela imenso palco, participando de um festival de percussão. Do elenco internacional, obviedades e novidades se alternaram. O grupo argentino Tamboro Mutanta, que mistura sons e performances cênicas, apresentou ritmos de origem afro-latina-americano, executaram pontos de candomblé uruguaio, rumba e até samba que, acreditam piamente as instrumentistas, ser genuinamente brasileiro. Tipo assim, sei-lá-entende...
A música flamenca e cigana foi representada pelo violonista francês Titi Robin. Show redondo, bem-feito, bem aceito e ponto final. Agora, criatividade, simpatia, empatia e virtuosismo foram destiladas pelo músico senegalês Soriba Kouyata, presença mais que brilhante no festival (veja matéria nessa página).
Do Brasil, Marcos Suzano, que substitiu Naná Vasconcelos na co-direção artística, fez bonito. Com seu pandeiro inovador, o percussionista deu uma boa amostra de seu trabalho que foi bem acolhido. Contudo, da trupe verde-e-amarela Carlinhos Brown foi quem por merecimento e competência angariou mais aplausos do público. Doidinho de pedra porém com um trabalho que transita pelo puro entretenimento e originalidade percussivamente pop, o cantor e compositor baiano cativou o público recifense que o fez voltar várias vezes ao palco.
Do ponto de vista comercial, o 8º Percpan foi um bom negócio para o Recife que acolheu, mesmo em versão menos volumosa, um festival de prestígio. O público não tem o que reclamar muitos shows de qualidade e o que é melhor, gratuitos. Já pela ótica artística, o Percpan 2001 ousou, de fato, no formato. Mas uma perguntinha se faz pertinente: a presença de uma roqueira e de um DJ neste ano seria um sinal de que o Panorama Percussivo estaria se inclinando para a sedutora e esteticamente rentável World Music?

O jornalista viajou a Recife a convite da organização do Percpan

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