Percpan começa amanhã ao ar livre
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segunda-feira, 22 de março de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 23 (AE) - Começa amanhã (24), em Salvador, a 6ª edição do Panorama Percussivo Mundial - Percpan, o maior e mais importante festival internacional do gênero. Em termos puramente culturais - o Percpan não está ligado à industria do disco ou ao negócio dos espetáculos - é também o maior e mais importante festival da agenda corrente brasileira. Dirigido por Naná Vasconcelos e Gilberto Gil, idealizado pela socióloga Beth Cayres, o festival tem patrocínio do governo baiano.
Este ano, vão ser quatro noites, em vez das três das edições passadas. E o festival vai começar ao ar livre - todos os espetáculos, anteriormente, eram exibidos no palco do Teatro Castro Alves, para onde o Percpan volta, de quinta-feira a sábado. Ao ar livre porque uma grande celebração terá lugar na Praça Campo Grande, em frente do teatro; um espetáculo dirigido por Márcio Meirelles, do Grupo de Teatro Olodum, com atores, atrizes, músicos e outros integrantes de grupos baianos tradicionais, como o Muzenza e o Malê.
Vão encenar uma ópera - mas esta e as apresentações no teatro não são as únicas atividades do festival, que ainda promove oficinas, gratuitas, dirigidas a músicos profissionais e estudiosos de antropologia e áreas afins - afinal, o que o Percpan faz é comparar linguagens rítmicas de partes diferentes do mundo, suas semelhanças e diferenças, as referências culturais talvez mais primárias, definidoras de caracteres nacionais. Índios - As atrações brasileiras são Maria Bethânia, Egberto Gismonti, um grupo de índios camaiurás, Zeca Baleiro (com os tambores de crioula do Maranhão), Carlos Tarcha, o grupo Techno Sugestion, o percussionista Dalga Larrondo, o grupo Evocação, criado por Naná Vasconcelos especialmente para o festival. O mestre percussionista Zakir Hussain lidera um grupo que vai mostrar música percussiva do sul e do norte da Índia.
Dos Estados Unidos vêm os Silvercloud Singers, descendentes de índios que procuram preservar a cultura (sobretudo musical) dos antepassados e o inventor de instrumentos Leon Gurenbaum. Do Haiti, tem-se a participação do Ayabonmbe, e do Burundi, na áfrica, os tradicionalíssimos Tambores do Burundi.
Impõe-se a pergunta: por que Maria Bethânia, cantora, num festival de percussão? É só lembrar que ela nasceu e foi criada no Recôncavo Baiano, ouvindo sambas-de-roda - é essencialmente essa música, de sustentação percussiva, que vai apresentar (como Gal Costa fez, no ano passado).
Todos os espetáculos do festival são especialmente preparados para ele. Zeca Baleiro, nome novo que apóia a obra conhecida tanto no pop quanto na tradição, abrirá mão, para o Percpan, do acento pop. Vai estar à frente, como mestre-de-cerimônias, do tambor de crioula, manifestação específica da cultura maranhense. Dividirá a cena com mestres tradicionais, Filipe, Leonardo, Nivô, para umbigadas com as coreiras - como são chamadas as dançarinas, vestidas com trajes típicos, e alternará batucadas e o canto de toadas tradicionais.
Não se trata de folclore, ou de folclorização de manifestações populares, mas da revelação delas, para um público mais amplo, sem que se mexa em sua face original, para que se as conheçam, estudem, ajudem a perpetuar. Egberto Gismonti, por exemplo, passou muitos anos estudando a música dos índios brasileiros, estudo fundamental à formação de sua expressão artística. Gismonti tocará, com os camaiurás, do Alto Xingu, divindo o palco com 13 índios e com o pajé Sapain, músicas de um ritual sagrado. Lenda - Naná Vasconcelos reuniu 20 instrumentistas originários de Pernambuco, sua terra, de formação diversa, no grupo Evocação
que tem entre os integrantes uma lenda - Mestre Salustiano -, além de Aurinha do Coco. E, em Nova York, aná Vasconcelos convidou para o festival os músicos Cyro Baptista, brasileiro radicado nos Estados Unidos, e o americano Gruenbaum. Na verdade
eles nunca tocaram juntos. Vão estrear o grupo Techno Suggestion no Percpan.
Cyro Baptista atua tanto no circuito pop internacional (com Paul Simon ou James Taylor) quanto na música clássica (com Kathleen Battle) ou no jazz pós-moderno (com Cassandra Wilson) e na música brasileira (com Milton Nascimento, Marisa Monte, Caetano Veloso). Seu disco "Vira Loucos" tem apresentação percussiva da música de Villa-Lobos, ressalve-se o trocadilho.
Leon Gruenbaum é clarinetista, pianista, inventor, também matemático, que trabalha o conceito percussivo com apoio da eletrônica - a percussão é maneira de exprimir sentimentos e contar coisas; a matemática, embora não seja necessariamente perceptível, norteia a lógica da música. A multiplicação das possibilidades de combinações de notas, em ordenações matemáticas, oferecida pelo computador, sistemas lógicos que definem e redefinem as sequências seguintes, inspiraram a criação do Tip Tip Tip Cheeepeeee - esse é o nome de seu instrumento mais famoso, criado em 1995. A apresentação do Techno Suggestion é uma surpresa guardada pelo festival.
Carlos Tarcha é professor de música da Universidade de São Paulo e integra a Orquestra Jazz Sinfônica. Como solista, dedica-se à música contemporânea. Até o ano passado era uma metade do importante e premiado Duo Diálogo, uma das poucas formações nacionais dirigidas à percussão clássica (e de vanguarda). Dalga Larrondo, que foi da Orquestra Sinfônica de Campinas e lecionou percussão e ritmo no Departamento de Artes Corporais da Unicamp, graduou-se em percussão na França, no conservatório de Rueil-Malmaison. Passeou pela vanguarda pop, com Arrigo Barnabé, e tem ampla atuação na cena internacional. Participou do Percpan em 1994. Oscar - O indiano Zakir Hussain, que nunca veio a América Latina e ganhou o Oscar pela trilha sonora do filme "O Pequeno Buda", de Bernardo Bertolucci, ex-integrante do grupo Shatki (com John MacLaughlin e L. Shankar), vem com mestres - T. H. Vinayakram, Bahvani Shankar, Selva Ganesh, Antonio Mineecola (que é dançarino de kathak) - para mostrar a música de regiões distintas de seu país.
Os índios do Silvercloud Singers uniram-se em grupo em 1991, para preservar canto e dança seculares dos hopis, do Arizona, dos iroquois, de Nova York, dos winegagos, de Nebraska, dos taos, do Novo México. Do Haiti, o Ayabonmbe trará (com dois violonistas, três percussionistas, duas bailarinas, um contrabaixista) mistura do racine - ritmo típico das montanhas haitianas - com sons africanos e caribenhos. Os tambores sagrados do Burundi foram atrações prometidas para duas edições anteriores do Percpan. A guerra civil que devastou o país (um dos menores da áfrica Central, vizinho de Ruanda) impediu a vinda dos músicos que, agora, virão. Estão, no momento, na Europa e não haverá impedimentos.
A qualidade e a quantidade de informações que o Percpan programou confirma a vocação do festival de dar voz aos tambores do mundo, sua intenção essencial de fazer conviver expressões artísticas, vozes da emoção da diversidade planetária. O conjunto reserva a lição do respeito pelo diverso, e um festival de música que possa realizar façanha dessa ordem transborda de sua origem para falar de liberdades, fraternidades, igualdades, paz.


