Per Kirkeby ganha retrospectiva na Pinacoteca; mostra coincide com visita da rainha da Dinamarca
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domingo, 02 de maio de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 03 (AE) - Graças à visita da rainha Margrethe II da Dinamarca ao Brasil, o público paulistano terá a oportunidade de ver mais uma vez a obra de Per Kirkeby, o mais renomado artista do país nórdico e um dos destaques da produção contemporânea européia. Kirkeby participou da 22.ª Bienal de São Paulo, organizada em 1994, e no mesmo ano expôs aquarelas e desenhos no Masp, ao lado de outras estrelas como Penck, Kiefer e Immendorff, que conheceu quando morou na Alemanha nos anos 70 e com quem mantém estreito contato até os dias de hoje.
Mas esta será a primeira vez que São Paulo recebe uma seleção significativa de seu trabalho, capaz de dar conta da enorme variedade e diversidade de sua produção. A miniretrospectiva, na Pinacoteca do estado, organizada por Jens Olensen, vice-presidente da Bienal e diretor da agência de publicidade McCann-Erickson, e pela curadora dinamarquesa Ane Hejlskov Larsen, reúne aproximadamente 60 obras que procuram mostrar dos múltiplos caminhos seguidos pelo artista - um dos preferidos da rainha Margrethe II, que também é pintora.
Há as paisagens do início de sua carreira, na década de 60, profundamente marcadas pelas viagens que o artista - então estudante de geologia - fez à Groenlândia; as pinturas de caráter mais místico decorrentes da visita exploratória feita no início dos anos 70 à América Central para descobrir a cultura maia ou os trabalhos de forte teor arquitetônico, marcados pelas linguagens pop e minimalista, importadas dos Estados Unidos.
Há também uma série de esculturas e pinturas mais recentes - algumas de dimensões gigantescas - que refletem uma maior serenidade e maturidade em sua produção, ao mesmo tempo que indicam a procedência de Kirkeby. "Apesar de ser um cidadão do mundo, seu trabalho tem essas cores um pouco tristes e ao mesmo tempo essa força nórdica", explica Olensen, proprietário de quatro das 32 pinturas da exposição. "Seus sentimentos têm um reflexo direto sobre sua obra", acrescenta o publicitário, que conhece Kirkeby há mais de dez anos.
Suas telas abstratas são altamente expressivas, pertencentes à mesma linhagem de outros artistas dinamarqueses como Asger Jorn - um dos fundadores do grupo Cobra -, e permitem ao espectador uma vasta gama de interpretações. Muitas vezes o artista parte de figuras definidas, mas aos poucos vai recobrindo essas imagens de tinta até que as referências ao mundo real fiquem escondidas sob campos de cor.
A única ausência na seleção são as enormes esculturas arquitetônicas feitas com tijolos, que Kirkeby já realizou em várias cidades européias e americanas. Não foi possível mostrar esse tipo de trabalho em São Paulo porque ele teria que estar presente e infelizmente ele não pôde viajar ao Brasil, pois já tinha compromissos assumidos em Nova York. Eles está preparando o cenário de "O Lago dos Cisnes", que está sendo montado pelo New York Ballet.
"Per Kirkeby é uma figura da Renascença moderna, expressando-se em todos os aspectos da arte visual: pintura, escultura, arquitetura, filme, cenografia, desenho, artes gráficas e livros", explica Jens Erik Sorensen, diretor do Museu de Belas Artes de Aarhus (Dinamarca) no catálogo da exposição. Excelência brasileira - Para que a primeira visita da rainha da Dinamarca ao Brasil (Margrethe II esteve no País na década de 60
mas ainda era princesa) não ocorresse sem que ela pudesse admirar a riqueza da arte brasileira, Jens Olensen pediu ao amigo e colecionador Gilberto Chateaubriand que emprestasse um seleto grupo de trabalhos de seu acervo - cedido sob a forma de comodato ao MAM do Rio - para a realização de uma exposição-relâmpago no Museu da Casa Brasileira. A mostra será inaugurada pela rainha - que viaja na companhia do príncipe consorte e do príncipe herdeiro - na quinta-feira de manhã, pouco antes de sua partida para o Rio.
O público terá apenas pouco mais de 48 horas para admirar a seleção de cerca de 70 obras representativas da arte moderna e contemporânea brasileira, já que no dia da abertura a mostra ficará fechada à visitação e será encerrada no domingo seguinte.
Mesmo assim, trata-se de uma boa oportunidade de ver (ou rever) trabalhos significativos da história artística brasileira
assinados por mestres como Alberto da Veiga Guignard, Anita Malfatti e Lasar Segall. A mostra, que contempla principalmente o período entre as décadas de 20 e 70, apresenta algumas obras que já foram mostradas na recente exposição da coleção de Chateaubriand organizada no Masp, mas reserva várias outras surpresas ao paulistano.
Segundo ele, a concretização dessa dupla homenagem exigiu um ano de trabalho e um enorme esforço para conseguir o patrocínio necessário, que acabou sendo garantido por um grupo de 15 empresas diferentes. "Essa foi a forma que encontramos de mostrar aos paulistanos o melhor da produção dinamarquesa e apresentar à rainha o melhor da produção brasileira", afirma Olensen. Exposição - Per Kirkeby. De terça a domingo, das 10 às 18 horas. R$ 5,00 (quinta, grátis). Pinacoteca do Estado. Praça da Luz, 2, tel. 229-9844. Até 6/6. Coleção Gilberto Chateaubriand de Arte Brasileira Moderna. De terça a domingo, das 13 às 18 horas. R$ 5,00. Museu da Casa Brasileira. Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2.705, tel. 210-2499. Até 9/5.


