Pequim guarda poesia e história
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segunda-feira, 15 de janeiro de 2001
Betty Milan Agência Estado 
No aeroporto de Pequim, as malas chegam pelas esteiras rolantes com uma incrível rapidez e o carrinho está ao alcance da mão. No caminho para o centro, vejo avenidas e prédios que, pela monumentalidade, tanto evocam Moscou quanto Nova York. Os carros são luxuosos e os cartazes de ideogramas, lindos.
Pequim é a cidade do poder e da representação, da ocupação ritualizada do espaço e do refinamento. Indissociável da Muralha da Cidade Proibida e das palavras concubina e mandarim.
Por isso tudo, ela também é cosmopolita. Percebo que os pequineses são mais abertos ao estrangeiro pelo chofer de táxi que ouve rádio em inglês, e pelo porteiro do hotel que, não tendo entendido a palavra magazine (loja), traz um papel e me pede que a escreva.
A cidade de Pequim tanto é a da Praça Tienanmen onde está o Congresso , quanto a da residência imperial e dos bairros labirínticos onde os mais pobres moram numa habitação sem banheiro, o hutong.
Em Tienanmen, o que mais impressiona é a imensidão do espaço e a monumentalidade dos prédios. Nem o pôr-do-sol, que me faz lembrar a Bahia, nem os papagaios, que os meninos soltam incansavelmente, humanizam a praça, pois a sua concepção arquitetônica serve a massa e desserve o indivíduo. Parece destinada a lembrar que, na China, só a massa importa e, para o indivíduo, não há lugar.
Apesar da presença das pessoas, tenho o sentimento de que estou num deserto e eu me digo que o comunismo chinês foi megalômano, além de não ter sido realista. Porque não há nada mais indiferente à realidade do homem do que a Praça Tienanmen. Tanto pelo cansaço que o tamanho desmesurado acarreta quanto pela quase impossibilidade de sair dela.
Não há passagem subterrânea para atravessar a rua que a ladeia e os carros não se detêm na passagem destinada aos pedestres. A palavra de ordem é esperar até que seja enfim possível. Um imperativo que os chineses aceitam por causa do comunismo ou do budismo?
A paciência é a característica principal dos chineses. O fato é que, na China, todo mundo espera. A impaciência é contrária à cultura deste país, que ou se modifica para se tornar capitalista, ou inventa um capitalismo que não seja o do time is money.
No dia seguinte ao da minha chegada, vou à Grande Muralha e ao túmulo dos Ming, que fica no caminho. Aí, o que mais vale a pena é a Via Sagrada Principal, que os turistas geralmente não visitam e onde a gente só entra pela contramão.
Vale a pena pelas esculturas, os mandarins e os mais belos animais reais e imaginários. Todos dispostos em uma aléia de chorões, cujos galhos não alcançam o chão como no Brasil.
Uma aléia que eu atravesso ouvindo o canto ininterrupto das cigarras, dizendo-me que nenhum zoológico é mais bonito e Pequim, também merece ser vista pelas crianças.


