Pequenos adultos
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terça-feira, 11 de agosto de 2009
Mariana Trigo<br> TV Press 
Na contramão do mercado de trabalho de diversas áreas, onde os profissionais iniciam suas carreiras mais tardiamente devido ao crescente número de especializações, os atores estão indo cada vez mais novos para os sets de gravação. Enquanto a maioria dos profissionais começa a trabalhar depois de faculdade e pós-graduação, grande parte dos atores constrói sua carreira quase no período da alfabetização. No entanto, a presença de crianças em novelas existe desde o início das telenovelas, mas sempre com papéis secundários.
Com o passar dos anos e as transformações ocorridas na sociedade, os pequenos começaram a ter voz cada vez mais ativa em casa. Esse fenômeno passou a se refletir nas histórias com mais crianças em seus elencos. ''Elas fazem parte do contexto atual de participação nas famílias. Na vida real, as crianças também têm participação de destaque atualmente'', compara Walcyr Carrasco, autor de ''Caras & Bocas'', da Globo.
Na trama das sete, Isabelle Drummond e Miguel Rômulo, que interpretam Bianca e Felipe, começaram cedo. Ele entrou na tevê aos 10 anos de idade como o sapeca André, de ''Coração de Estudante'', em 2002. Já Isabelle estreou com um dos principais personagens de Monteiro Lobato: a Emília, do ''Sítio do Picapau Amarelo'' em 2001, aos sete anos. ''Naquela época, eu não entendia a atuação como uma profissão. Mas tive de amadurecer rápido, ter a disciplina que uma criança não costuma ter'', lembra Isabelle.
O mesmo aconteceu com Jonatas Faro, que interpreta o Peralta de ''Malhação''. De tanto ligar para o SBT, conseguiu marcar sozinho um teste para a produção ''Chiquititas'', aos dez anos de idade, e acabou gravando dois anos na Argentina. ''Mas acho péssima a importância que dão para as crianças nas novelas. Com o tempo, a criança pode deixar de fazer sucesso e pirar. Ela não entende porque deixa de ser chamada de uma hora para outra. Isso é muito ruim'', ressalta Jonatas.
Já Cecília Dassi, que vai voltar ao ar como a determinada Clarice em ''Viver a Vida'', próxima trama das oito da Globo, começou a atuar antes mesmo de aprender a ler e conseguiu se manter no ar ao longo desses anos. Aos cinco anos de idade, Cecília estreou na série ''A Comédia da Vida Privada''. Mas ganhou destaque como a doce Sandrinha de ''Por Amor'', dois anos depois. A essa altura, a atriz já contava com 47 comerciais em seu currículo. ''Vim sozinha para o Rio aos cinco anos ficar com uma agente de atores mirins. Minha mãe chegou dois meses depois. Óbvio que não tive uma infância normal, levava minhas bonecas para o Projac, mas adorava'', assegura Cecília.
A discussão do quanto o profissionalismo precoce influencia psicologicamente as crianças esteve à tona recentemente com episódios que envolveram a apresentadora mirim Maísa, do SBT, e Silvio Santos. Psicólogos e educadores criticaram a forma com que o apresentador conduzia suas conversas com Maísa, de sete anos, que chegou a chorar duas vezes ao vivo em seu programa. Com isso, Silvio está impedido de chamar a apresentadora novamente no ar.
Na verdade, a contestação do trabalho infantil na tevê passa pelos reflexos psicológicos que podem acarretar nas crianças, nem sempre preparadas para se tornarem celebridade da noite para o dia. ''A criança de antigamente era mais ingênua e o mundo era mais romântico. Hoje em dia, elas são mais espertas e desconfiadas. São pequenos adultos. Isso é preocupante'', avalia Daniel Azulay, ilustrador e criador do infantil ''Turma do Lambe-Lambe'', que comandou programas infantis nas décadas de 70, 80 e 90.
Profissão por acaso
Enquanto diversos atores mirins iniciam suas carreiras por vontade própria, em alguns casos, outros profissionais garantem uma trajetória bem-sucedida depois de um início quase acidental. A apresentadora Angélica, por exemplo, participou de um simples concurso de beleza infantil aos quatro anos de idade e, um tempo depois, foi chamada para estrear como apresentadora infantil no ''Clube da Criança'', na extinta Manchete. Aos 35, a apresentadora já completou mais de 30 anos de carreira. ''Me assusta falar em 30 anos de carreira. Mas vejo que sempre usei a intuição para tudo, até porque tive dúvidas na adolescência se queria seguir essa carreira. Mas hoje me sinto recomeçando todos os dias'', avalia Angélica.
Fernanda Nobre, que interpreta a ''patricinha'' Luísa em ''Poder Paralelo'', na Record, também começou por acaso. Foi acompanhar a irmã num teste para atriz em 1992, para a novela ''Despedida de Solteiro'', quando tinha nove anos de idade. No entanto, a atriz acabou fazendo o teste com a irmã e foi escolhida para o papel. ''Foi uma brincadeira que virou profissão e acabei gostando. Tive uma infância e adolescência muito diferente. Enquanto minhas amigas viajavam, eu ia para o teatro ou para um estúdio'', lembra.
Instantâneas
- Leandra Leal começou sua carreira muito cedo. Aos oito anos de idade fez sua primeira participação na novela ''Pantanal'', na extinta Manchete.
- Danton Melo, que vive o sonso Amithab em ''Caminho das Índias'', praticamente foi criado na televisão. Iniciou sua carreira aos cinco anos, quando começou a fazer comerciais. Aos nove, estreou em sua primeira novela, ''A Gata Comeu''.
- Outra veterana que estreou cedo na tevê foi Isabela Garcia. De uma geração em que ainda existiam poucas crianças em novelas, a atriz começou a atuar aos quatro anos de idade em um episódio do extinto programa ''Caso Especial'', na Globo. Mas sua primeira novela foi aos seis anos, como a Clarinha de ''O Semideus'', em 1973.
- Um pouco antes, em 1969, foi a vez de Glória Pires estrear em sua primeira novela, aos cinco anos de idade. Foi em ''A Pequena Órfã'', na Excelsior.


