Em seu livro ‘‘As mil e uma vidas de Leopoldo Fróes’’, o escritor Raimundo Magalhães Júnior descreve a impressão que lhe causou o jovem ator Procópio Ferreira na primeira vez em que o viu atuar, no papel de Zé Fogueteiro, na opereta ‘‘A Juriti’’, de Viriato Corrêa, com música de Chiquinha Gonzaga, encenada em 1919 no Rio de janeiro, no teatro São Pedro (hoje Teatro João Caetano): ‘‘Era uma ponta. Mas o atorzinho, pequeno, feio e narigudo, parecia endiabrado. Dir-se-ia que tinha apostado com os colegas que haveria de suplantá-los a todos por mais escassas que fossem as linhas que tivesse de recitar.’’ Essa mesma determinação e essa mesma exuberância em cena - que em geral ultrapassava o que os próprios autores e diretores esperavam dele - acompanhariam o ator nas mais de 400 peças de todos os gêneros e nos 14 filmes em que atuou, ao longo de mais de 60 anos de carreira.
Filho de portugueses, Procópio nasceu na Rua do Lavradio, no Rio de janeiro, no dia 8 de julho de 1898, sendo batizado com o nome de João Álvaro de Jesus Quental Ferreira. Foi um aluno pouco modelar da Escola Modelo Afonso Pereira e, depois, mais ajuizado e aplicado, do Mosteiro de São Bento. Concluído o curso secundário, ingressou na Faculdade de Direito. Abandonou-a em menos de um ano para matricular-se, sem comunicar a família, na Escola Dramática Municipal. Quando o pai descobriu, expulsou-o de casa. Para garantir sua subsistência, João Álvaro foi trabalhar no escritório do advogado Virgílio de Mattos, varrendo o chão e realizando pequenos serviços externos. Recebia pelo trabalho 36 mil-réis por mês.
Em novembro de 1916, logo após concluir o curso na Escola Dramática e ser escolhido para fazer parte da Companhia de Lucília Peres, estreava no palco do Teatro Carlos Gomes, na peça ‘‘Amigo, Mulher e Marido’’, dos franceses Flers e Caillavet. Ao longo do ano seguinte, participou de operetas e revistas encenadas no Teatro Politeama, no Méier, e em 1918 mudou-se para a companhia de Ítala Fausta, passando a trabalhar em peças dos mais diversos gêneros, desde tragédias gregas até comédias ligeiras, passando pelos dramalhões mais descabelados. Como o nome João Álvaro de Jesus Quental Ferreira era muito longo para aparecer nos cartazes, o ator adotou o pseudônimo artístico de Procópio Ferreira, em homenagem a São Procópio, santo do dia em que nascera.
Em 1920, vamos encontrá-lo na Companhia Alexandre Azevedo, brilhando em ‘‘Nossa Gente’’, outro sucesso de Viriato Corrêa, e em 1921 na Companhia Abigail Maia, criada por Corrêa, Oduvaldo Viana e Nicolino Viggiani. Nesta companhia, colheu calorosos elogios por seu desempenho em espetáculos como ‘‘Demônio em Família’’, ‘‘Levada da Breca’’, ‘‘A Vida é um Sonho’’, entre outros. Em 1924, oito anos após a sua estréia, Procópio já possuía a sua própria companhia, na qual protagonizou dezenas de êxitos, entre eles ‘‘Cala a Boca Etelvina’’, ‘‘O Amigo Carvalhal’’, ‘‘O Maluco da Aldeia’’, O Avarento’’, ‘‘Esta Noite Choveu Prata’’ e o maior de todos eles: ‘‘Deus lhe Pague’’, de Joraci Camargo, no qual interpretava o papel de um falso mendigo cheio de sabedoria. Esta peça entrou em cartaz no dia 30 de dezembro de 1932, em São Paulo, no teatro Boa Vista, e foi reencenada incontáveis vezes, naquela e nas décadas subsequentes. O papel do filosófico ‘‘mendigo’’ ficaria para sempre associado à imagem do ator.
Suprema ironia: não obstante ter sido aclamado, pelo público e pela crítica, como um dos maiores intérpretes que o Brasil já conheceu, Procópio Ferreira nunca recebeu qualquer prêmio por sua atuação no palco - salvo, é claro, os entusiásticos aplausos que foram sempre a sua maior paga.

mockup