Pequeno, feio, narigudo e genial
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de junho de 1999
Wilmar Klein 
Em seu livro As mil e uma vidas de Leopoldo Fróes, o escritor Raimundo Magalhães Júnior descreve a impressão que lhe causou o jovem ator Procópio Ferreira na primeira vez em que o viu atuar, no papel de Zé Fogueteiro, na opereta A Juriti, de Viriato Corrêa, com música de Chiquinha Gonzaga, encenada em 1919 no Rio de janeiro, no teatro São Pedro (hoje Teatro João Caetano): Era uma ponta. Mas o atorzinho, pequeno, feio e narigudo, parecia endiabrado. Dir-se-ia que tinha apostado com os colegas que haveria de suplantá-los a todos por mais escassas que fossem as linhas que tivesse de recitar. Essa mesma determinação e essa mesma exuberância em cena - que em geral ultrapassava o que os próprios autores e diretores esperavam dele - acompanhariam o ator nas mais de 400 peças de todos os gêneros e nos 14 filmes em que atuou, ao longo de mais de 60 anos de carreira.
Filho de portugueses, Procópio nasceu na Rua do Lavradio, no Rio de janeiro, no dia 8 de julho de 1898, sendo batizado com o nome de João Álvaro de Jesus Quental Ferreira. Foi um aluno pouco modelar da Escola Modelo Afonso Pereira e, depois, mais ajuizado e aplicado, do Mosteiro de São Bento. Concluído o curso secundário, ingressou na Faculdade de Direito. Abandonou-a em menos de um ano para matricular-se, sem comunicar a família, na Escola Dramática Municipal. Quando o pai descobriu, expulsou-o de casa. Para garantir sua subsistência, João Álvaro foi trabalhar no escritório do advogado Virgílio de Mattos, varrendo o chão e realizando pequenos serviços externos. Recebia pelo trabalho 36 mil-réis por mês.
Em novembro de 1916, logo após concluir o curso na Escola Dramática e ser escolhido para fazer parte da Companhia de Lucília Peres, estreava no palco do Teatro Carlos Gomes, na peça Amigo, Mulher e Marido, dos franceses Flers e Caillavet. Ao longo do ano seguinte, participou de operetas e revistas encenadas no Teatro Politeama, no Méier, e em 1918 mudou-se para a companhia de Ítala Fausta, passando a trabalhar em peças dos mais diversos gêneros, desde tragédias gregas até comédias ligeiras, passando pelos dramalhões mais descabelados. Como o nome João Álvaro de Jesus Quental Ferreira era muito longo para aparecer nos cartazes, o ator adotou o pseudônimo artístico de Procópio Ferreira, em homenagem a São Procópio, santo do dia em que nascera.
Em 1920, vamos encontrá-lo na Companhia Alexandre Azevedo, brilhando em Nossa Gente, outro sucesso de Viriato Corrêa, e em 1921 na Companhia Abigail Maia, criada por Corrêa, Oduvaldo Viana e Nicolino Viggiani. Nesta companhia, colheu calorosos elogios por seu desempenho em espetáculos como Demônio em Família, Levada da Breca, A Vida é um Sonho, entre outros. Em 1924, oito anos após a sua estréia, Procópio já possuía a sua própria companhia, na qual protagonizou dezenas de êxitos, entre eles Cala a Boca Etelvina, O Amigo Carvalhal, O Maluco da Aldeia, O Avarento, Esta Noite Choveu Prata e o maior de todos eles: Deus lhe Pague, de Joraci Camargo, no qual interpretava o papel de um falso mendigo cheio de sabedoria. Esta peça entrou em cartaz no dia 30 de dezembro de 1932, em São Paulo, no teatro Boa Vista, e foi reencenada incontáveis vezes, naquela e nas décadas subsequentes. O papel do filosófico mendigo ficaria para sempre associado à imagem do ator.
Suprema ironia: não obstante ter sido aclamado, pelo público e pela crítica, como um dos maiores intérpretes que o Brasil já conheceu, Procópio Ferreira nunca recebeu qualquer prêmio por sua atuação no palco - salvo, é claro, os entusiásticos aplausos que foram sempre a sua maior paga.


