Pequenez & Horror
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de março de 1997
Wilson Bueno Especial para a Folha2 
Bia Setti/DivulgaçãoMaria Alice Vergueiro, em No AlvoO tema não é novo: o inextricável fracasso de toda arte que se preze - assim como uma falência de raiz - desde sempre e desde a origem, é a grande reflexão que o dramaturgo austríaco Thomas Bernahrd (re) põe em cena com No Alvo, que levou ao Sesc da Esquina, nesta morna sexta edição do Festival de Teatro de Curitiba, a arte preciosa de Maria Alice Vergueiro à frente de pequeno e igualmente talentoso elenco.
Vivendo a mãe sadomasô do texto de Bernahrd, Vergueiro é a peça, e nem poderia ser de outro modo já que a obra claramente privilegia a personagem, alcançando - tarefa árdua - extrair de um ser-de-papel, com tudo para se transformar em clichê basbaque, nuanças, tons, entretons, numa urdidura cênica que pôde em alguns momentos se mostrar falha mas terá conseguido, a maior parte do tempo - supremo triunfo - passar para o espectador a comicidade aflitiva, e quase dolorosa, do intrigante dramaturgo austríaco. O riso de que aqui se fala, gentil leitor, é um riso patético e que, uivando, pode que deposite, na gola deste senhor ao vosso lado na poltrona assim como que uma golfada de vômito.
Para Bernahrd (1931-1989), herdeiro desta acídia frente ao destino humano, comum a Schopenhauer e a Beckett, e diante da qual estamos irremediavelmente condenados, escrever, entre outros ofícios do nosso nunca assaz louvado engenho, pressupõe em si a idéia de um fracasso. Assim como quem diz que a arte, não transformando a natureza do homem, antes lhe reafirma a indigência e a perversão. Por isso, deita e rola, com o hilário escritor dramático de No Alvo que, acompanhando mãe e filha, segue com elas a uma casa de praia. Autor de sucesso, a personagem, sobriamente vivida pelo ator (e também diretor do espetáculo) Luciano Chirolli, é o gancho supremo para o humor corrosivo de Bernahrd.
Melhor seria se chamássemos a este humor de cruel, pois não resta pedra sobre pedra, ao final do segundo ato, quando, basbaques frente à vida, todos os personagens, postos em cena, parecem protagonizar um balé de gestos e palavras, absolutamente ridículo, inteiramente inútil e absurdamente insensato.
Baixo uma iluminação criativa sobretudo frente a cenário magnificamente despojado, Maria Alice Vergueiro, no papel da mãe nazi-medéia, e Agnes Zuliani, encarnando a filha assim meio esquizofrênica, compõem, em diversos instantes, um dueto irrepreensível da mais fina e soberba arte de representar. Há tropeços, sobretudo em Vergueiro, nos momentos em que esforçando-se por uma modulação cambiante da fala de sua personagem - o que, repito, nunca foi fácil - engole frases inteiras, numa dicção muitíssimo aquém de seu enorme talento.
Claro, tais derrapadas não comprometem o espetáculo como um todo, antes recolocam em termos a magia mesma do teatro, esta arte de cúmplices, de verdugos e torturados, de atores e de platéia, do momento pulsante capaz, não duvide, de irrepetível tocar, num mesmo intervalo, supremo e mortal, o meu coração e o deste ator que ora finge morrer no palco a última esperança.
Isto enquanto houver esperança porque para o mundo terminal e extenuado de Thomas Bernahrd a esperança é só uma idéia com que homens se atrapalham. E a arte, senhores, o mais esforçado ainda que pífio exercício humano. Mesmo que, como No Alvo, vos faça morrer de rir.


