Pequenas pessoas estranhas
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de abril de 2002
Marcos Losnak Especial para a Folha 
Muito se comenta que na produção literária de Rubem Fonseca os contos superam, com uma considerável folga, os romances. Desde a publicação do primeiro livro (Os Prisioneiros), em 1963, o escritor imprimiu em suas narrativas curtas características próprias de forte impacto. Nas narrativas mais longas, diluiu essas características perdendo a força do impacto.
Seu novo livro Pequenas Criaturas, que já chegou às livrarias, reforça essa tese. Mesmo repleto de altos e baixos, deixa claro que Fonseca ainda mantém o posto de um dos melhores contistas da literatura brasileira contemporânea.
Após mexer o caldo da escatologia em seu livro de contos anterior (Secreções, Excreções e Desatinos, 2001), Rubem Fonseca resolveu debruçar-se sobre o amor e sobre o sexo para revelar todas suas ironias. Embora os 30 textos que integram Pequenas Criaturas trabalhem com temas diversos, as relações amorosas e derivações revelam-se um tema recorrente.
A violência, especialmente a urbana, um tema sempre presente nos textos do autor, ocupa um pequeno lugar em Pequenas Criaturas. Apenas três contos trabalham com o assunto, mesmo assim com a atenção voltada para outra direção. A impressão inicial é de que Fonseca optou em ser mais leve nas histórias como se isso fosse possível em sua literatura. E mesmo assim não cai nas fáceis garras do otimismo.
Pequenas Criaturas é uma obra irregular. Alguns contos bons, outros fracos. Como se o Fonseca tivesse limpado a gaveta sem executar uma seleção mais criteriosa. Mas isso não elimina o prazer da leitura, com um conto compensando outro.
As pequenas histórias do livro apresentam pessoas debatendo-se, ou procurando não debater-se, frente a determinadas situações que a via impõem. Com uma boa dose de desatino, elas procuram manter as rédeas de suas vidas sem terem certeza de que esta seja a melhor opção. Por que alguma coisa as impulsiona a acreditar que seria melhor deixar as rédeas livres, balançando ao acaso.
Serviço:
Pequenas Criaturas de Rubem Fonseca, Editora Companhia das Letras, 288 páginas, R$ 28,00.


