São Paulo, 02 (AE) - São quase só as pequenas gravadoras que vão abastecendo o mercado com música de qualidade, vocal ou instrumental. Essa página dá notícia de alguns lançamentos recentes protagonizados por instrumentistas. Nos sopros, o saxofonista (tenor e soprano), flautista e pianista Nivaldo Ornellas inventaria os folguedos de suas Minas Gerais no precioso Arredores (independente), em faixas como "Folia de Jatobá", "Celeste Império", "Bom Pastor". São tambores, sopros e coros mineiros pela arte de um de seus mais brilhantes músicos, infelizmente afastado do disco. Procurem nas lojas especializadas em música brasileira.
É também em lojas especializadíssimas que será possível encontrar o excelente "Trombone do Brasil" (Rob Digital), de Roberto Marques, música de gafieira, big band à brasileira, composições de Chico Buarque, Zé Kéti, Braguinha e do próprio grande trombonista, que vem sendo apontado como o melhor do momento. No mesmo gênero, mais sacudido, o clarinetista e saxofonista tenor Mário Pereira lança pela Kuarup o seu Gafieirando, que vai de Chico Buarque ("Apesar de Você") a K-Ximbinho ("Gilka") e Severino Araújo ("Um Chorinho no Circo Voador"). O trombonista Zé da Velha faz participação especial em quatro faixas. É um aval que não se despreza.
Para falar ainda de trombone, outro mestre, Bocato, que está morando na Alemanha, lança seu Samba de Zamba, edição só internacional da L177 (e-mail: [email protected]), samba também, mas de sotaque mais jazzístico. Os solos de Bocato, sempre geniais.
Num dos mais bonitos discos de violão-solo dos últimos tempos, Marco Pereira alinhava em painel as "Valsas Brasileiras" (independente), começando com "Beatriz" (Edu Lobo e Chico Buarque) e seguindo viagem sentimental por "Eponina" (Ernesto Nazaré), "Eu te Amo" (Tom Jobim e Chico Buarque), "Valsa Negra" (Leandro Braga), "Manhãs de Sol" (Canhoto), repertório que encontra intérprete ideal. Violão também (e guitarra) é o instrumento de "From Ton to Tom", de Toninho Horta, edição japonesa da Viedoart Musics, tributo a Tom Jobim. Com base no repertório do disco, que tem participação do baixista Gary Peacock, do saxofonista tenor Bob Mintzer e do pianista Dave Kikoski (fora um coral chamado gaiatamente de As Sobrinhas, formado por sobrinhas do músico, coral que canta à maneira daquelas vozes que acompanham Tom), Toninho montou o espetáculo que apresentou este ano no Heineken Concerts.
Acrescentando outras cordas dedilhadas: fabuloso o novo disco do quinteto Nó em Pingo dágua (independente), que leva o nome da faixa composta por Guinga para o grupo, "Nó na Garganta". Guinga participa da faixa e Leila Pinheiro aparece en Tristerosa, valsa seresteira assinada por Epaminondas Villalba, com letra de Cacaso. Na verdade, Epaminondas Villalba foi um pseudônimo usado por Villa-Lobos para assinar essa valsa, não se sabe bem por que motivo - ele não tinha peso algum de assinar valsas seresteiras, afinal. Fale com o Nó pela Internet pelo site www.noempingodagua.com.br.
Nova geração - O Nó em Pingo dágua deu ao choro uma dimensão contemporânea, entendendo o nome normalmente atribuído ao gênero como nome que deve ser atribuído à maneira de tocar. Choro é a música tocada como choro. Mas ainda há cultores do choro tradicional - e os meninos do duo Dois de Ouro são ótimos exemplos. O bandolinista Hamilton de Holanda foi um dos finalistas, no ano passado, do lº Prêmio Visa de MPB. Encantou público e jurados e fascinou a platéia do festival Chorando Alto
no Sesc Pompéia. O outro ás do baralho do Dois de Ouro é o irmão de Hamilton, o violonista de sete cordas Fernando César. São duas feras que mal completaram 20 anos e já se alinham entre os grandes instrumentistas nacionais de cordas.
O primeiro disco deles é "A Nova Cara do Velho Choro" (Laser Records), que abre com uma ousada "Fantasia sobre Temas de Pixinguinha", de Hamilton. Como tudo o que toca, sua Fantasia é vibrante, entusiasmada, de contagiante alegria. O Dois de Ouro (e-mail: [email protected]) cumprimenta Jacó do Bandolim (Noites Cariocas), Waldir Azevedo (Pedacinhos do Céu), Paulinho da Viola (Inesquecível), Nazaré (Apanhei-te, Cavaquinho) - e os bambas agradecem.
Ao mesmo tempo, o veterano Déo Rian apresenta, em "Choro em Família", mais um brilho à constelação da nova geração chorona, introduzindo o filho Bruno Rian, de 18 anos. Duo de bandolins em repertório que encontra pérolas menos exploradas, como as valsas "Foi um Sonho", de Luperce Miranda, e Farrula, de Anacleto de Medeiros, e autores menos citados, como Juvenal Peixoto ("Buliçoso"), Mário álvares da Conceição, que morreu no início do século ("Adelina e Roceira"), Manoel Pedro do Nascimento ("Reconhecimento"). Trabalho para amantes do choro e para seus estudiosos. Em "Foi um Sonho" há solo inédito de Jacó do Bandolim, garimpado por Déo em seus arquivos, tirado da fita e mixado para o CD.
Ainda falando em cordas: tratamento de música de câmara para o repertório selecionado pelo violeiro Roberto Corrêa em "No Sertão". Clássicos da música dos interiores do Brasil, de "Luar do Sertão" (João Pernambuco e Catulo) a Maringá (Joubert de Carvalho), "Morro Velho" (Milton Nascimento), "Azulão" (Jayme Ovalle e Manuel Bandeira) e assim por diante, tratados com viola, quinteto de cordas e percussão, mais flauta, acordeão e violão. "No Sertão" é lindíssimo. Informe-se pelo e-mail [email protected].
Mais uma notícia de cordas - o CD Duofel 20 (independente) comemora os 20 anos de existência do duo formado por Fernando Melo e Luiz Bueno. Foi gravado ao vivo, em fevereiro, no Teatro Municipal de São Paulo, palco merecido pela nobre música dos violões que encantaram Hermeto Paschoal, um dos convidados especiais da gravação.
Caminhando para o Sul, comemore-se o lançamento de Gauderiando ("Atração"), do gaiteiro Renato Borghetti, um dos maiores virtuoses do instrumental brasileiro, aqui, mais uma vez
explicando o que são as milongas, as chulas, os xotes. A música de festa do Rio Grande do Sul, alegre e dançante.
Luiz Avellar, como se sabe, é um grande pianista, desde o tempo em que era o músico principal do grupo de Djavan. Como solista, encontrou seu grande momento no CD "Em Movimento" (Savalla), piano-solo de ouvir em contrição. Todos os temas, todos lindíssimos, são de Avellar e os títulos evocativos sugerem o que se vai ouvir - "Pierrot no Frevo", "A Bailarina", "Do Outro Lado do Mundo". "A Valsa", sétima faixa, nasceu clássica.
Por fim, mas não encerrando de forma alguma o assunto música instrumental, a boa supresa da pianista Christianne Neves
com o CD Refúgio (independente). Não é um nome conhecido do público, mas com ela, no excelente disco, estão Sizão Machado, Tutty Moreno, Edmilson Capelupi e outras figuras respeitadas, cujo aval prepara a audição. Christianne é uma revelação como instrumentista ágil, inventiva, criativa e como compositora de muitos achados. "Refúgio" é um disco que vai ficar tocando para sempre no aparelhinho de CDs de quem o ouça. Fale com Christianne pelo e-mail [email protected]. E aproveite o prazer da melhor música.

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